Pesadelo era o humor negro nas bancas

Por Marcelo Naranjo
Data: 8 março, 2007

Pesadelo
Nas décadas de 1970 e 1980, a extinta Editora Vecchi emplacou diversos
títulos de terror nas bancas brasileiras: Sobrenatural, Histórias do
Além
, Spektro
e Pesadelo tinham periodicidade quase mensal, e diversos almanaques
também foram lançados.

Com duração de 11 números, 160 páginas por volume, publicados entre julho de 1980 e novembro de 1982, Pesadelo primou pela enorme dose de humor negro e erotismo nos roteiros de suas histórias, em sua maioria criações de artistas brasileiros.

No número # 1, o editorial apresentava a seguinte proposta: “De início, ela não se pretende uma nova revista de terror, mas sim uma revista com um novo terror – aquele tão comum em nossos dias e tão presente à nossa volta. Um terror psicológico, que nasce nos intrincados labirintos que é a mente e transborda em noites de sono profundo, caracterizando o que tão descontraidamente chamamos de paranóia“.

PesadeloComo
era de praxe nas revistas deste gênero da Vecchi, um conhecido
time de criadores marcava presença e garantia a qualidade da publicação:
Júlio Shimamoto, Watson Portela, Mano, Flavio Colin, Luiz Saidenberg,
Vilachã, Ofeliano, César Lobo, Olendino Mendes, E.C. Nickel, Bonini, Zenival
e outros.

Assim como nos demais títulos de quadrinhos da editora na época, Ota era o responsável pela edição, conseguindo a proeza de manter revistas com autores brasileiros em bancas com certa regularidade. Ele trabalhou até o número dez da série, que só não foi cancelada nesse numero porque ainda havia bastante material na redação, que foi utilizado para a publicação do #11.

“A idéia por trás da criação da Pesadelo era que se desenvolvesse nela um tipo de terror diferenciado, mais psicólogo e culturalmente engajado”, afirmou ao Universo HQ o talentoso Olendino, responsável por diversas histórias publicadas na revista.

PesadeloOlendino
fazia tanto os textos quanto os desenhos de suas histórias, e preocupava-se
com detalhes: tramas elaboradas e fechadas, cuidado com a língua portuguesa
e ótimo senso de narrativa. De acordo com o autor, seus melhores trabalhos
de terror saíram na Sobrenatural, mas também teve boa participação
no conteúdo da Pesadelo.

Algumas tramas da revista fizeram sucesso e foram retomadas nos números seguintes, como as aventuras do jornalista Jonas Beltron, no traço de Shimamoto, sempre às voltas com terríveis e obscuros segredos que dariam grandes reportagens, se alguém por acaso fosse acreditar nele, já que vivia bêbado.

De Flavio Colin, entre várias histórias, destaque para a saga do Marciano, que visitou nosso planeta em busca de aventuras sexuais e acabou gerando um filho, o qual se meteu em diversas encrencas. Este saudoso mestre da HQ nacional tinha, como sempre, na originalidade de seu traço (praticamente inimitável) seu ponto forte.

PesadeloCadernos
de um Suicida
, com desenhos de Ofeliano, trazia a trajetória de Mariana,
que encontrou a agenda de um escritor de HQs de terror, com histórias
terríveis, as quais ele nunca teve chance de publicar.

Os primeiros números apresentaram também algumas HQs produzidas nos Estados Unidos, da Charlton Publications e da Atlas Comics.

No número # 6, a história O Esquadrão dos Mortos trouxe militares ligados ao narcotráfico, em plena época de ditadura militar, o que provocou uma censura prévia nas edições seguintes.

Duas curiosidades: na época, o número # 1 marcou a volta aos quadrinhos de Luiz Saidenberg. Ele desenhou uma adaptação do conto de T. A Hoffman, O Homem da Areia. E uma das tramas da revista, chamada Seu último trambique, apresentava o trágico destino de um malandro que de fato existiu e era conhecido do roteirista, que, ao escrever a história, possivelmente aproveitou a chance para “se vingar” de algum golpe que levou.

PesadeloEntre
outros fatores, a grande liberdade de criação dada aos autores na época
é um dos principais motivos pelos quais Pesadelo merece ser relembrada.

Clicando nos links abaixo, você confere três HQs online publicadas
originalmente na revista, e agora no Universo HQ – com a devida
autorização.

O Gênio da Garrafa, com texto de Ivan Jaf (Ivan José de Azevedo Fontes) e arte de César Lobo, traz as terríveis e engraçadas conseqüências de se fazer o pedido errado para um gênio atrapalhado.

Além e A Rejeição, de Olendino, mostram que o terror pode estar muito mais perto e ser mais real do que se imagina.

Boa leitura!

O Universo HQ agradece (e muito) a atenção dispensada por Olendino,
César Lobo e Ota, que enriqueceu a matéria e possibilitou a publicação
online dessas três HQs.

Marcelo Naranjo levou anos perambulando pelos sebos
de São Paulo para conseguir completar esta série. E se alguém pensar em
lhe pedir as revistas emprestadas, a resposta está na ponta da língua:
“nem em sonho, ou melhor, em Pesadelo!”
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