Maus, o holocausto em quadrinhos

Por Marcelo Naranjo
Data: 3 março, 2001

Uma história que mostra ao leitor, de maneira inusitada, com os judeus sendo representados por ratos, os horrores da segunda guerra mundial

 

A segunda guerra mundial, um dos tantos marcos cruéis na história da humanidade, rende, até hoje, estudos, livros, ensaios e filmagens. Porém, um dos mais marcantes e verdadeiros relatos do que aconteceu em meio à tragédia que teve início na Alemanha foi apresentado ao mundo na forma de uma história em quadrinhos. Maus, de Art Spiegelman, publicado no Brasil pela Editora Brasiliense, em duas partes (formato livro), nos traz um impressionante relato da trajetória de um Judeu em meio à guerra.

O judeu em questão é o pai do autor, que é apresentado na história já como uma pessoa de idade, narrando ao filho sua passagem pela guerra. Portanto, o livro é baseado em fatos reais, um relato detalhado, minucioso até, que nos apresenta tudo em detalhes, inclusive a personalidade das pessoas envolvidas, principalmente do protagonista, mesquinho, avarento e racista, embora inteligente, perspicaz, dotado de uma intuição fantástica e, principalmente, de muita, muita sorte.

Maus - A história de um sobrevivente - Livro 1 Maus - A história de um sobrevivente - Livro 2

Em Maus, mais que os desenhos, o que salta aos olhos é o roteiro. Os personagens são muito bem caracterizados, têm vida própria, pulsante. É difícil permanecer indiferente à leitura desta obra. A crueldade dos fatos é gritante, machuca, incomoda. A qualidade com que o autor associa texto e imagens é tal, que é impossível não imaginar na própria pele a dor, a angústia, o medo e o terror impostos pelos nazistas.

A caracterização dos personagens é um capítulo à parte. Os judeus são retratados como ratos, os alemães como gatos, os americanos como cachorros e os poloneses como porcos. Isso não diminui a grandeza da obra. Pelo contrário! Aumenta ainda mais, pois, além da originalidade, torna a leitura ainda mais fluente. Outro mérito é o humor, muitas vezes ácido e corrosivo, mas sempre inteligente.

Os personagens secundários, alguns com passagens relâmpagos pela história, são marcantes. São diversos fatos ocorridos ao redor do protagonista, em toda sua caminhada no decorrer da guerra. Homens, mulheres, velhos, jovens e crianças, todos jogados a um destino incerto e quase sempre terrível, tentando, de todas as maneiras, possíveis e impossíveis, buscar a sobrevivência através da esperança, uma esperança vã, que não resiste à certeza dos fatos. E a única certeza, para as vitimas dessa guerra, era a morte.

Em Maus, norte-americanos foram retratados como cachorros

Em Maus, poloneses foram retratados como porcos

Infelizmente, não posso entrar em maiores detalhes, pois estragaria as surpresas que ocorrem no decorrer da leitura, página após página. Mas devo dizer que é tão envolvente, que não existe a possibilidade do leitor parar a leitura no meio. É um frenesi! Você começa e só parar no final.

Por fim, na minha humilde opinião, toda grande obra fica gravada em nossa memória, e nos faz refletir. “Maus” encaixa-se nessa categoria. Tente colocar-se no lugar do personagem principal, e você entenderá o que quero dizer. Além do que, com certeza, nunca mais você colocará comida no prato e deixará sobras…

Spiegelman foi procurado por diversas vezes com propostas para transformar a obra em filme, porém recusou-se. “Não entendo porque em nossa cultura ninguém parece acreditar que algo não é real, até que seja transformado em filme”, declarou. Em sua opinião, Maus encontrou seu formato ideal nos quadrinhos.

Imprescindível tanto para colecionadores de HQ’s quanto para aqueles que apreciam obras literárias, Maus não deve faltar em nenhuma biblioteca particular que se preze.

Em Maus, alemães eram retratados como gatos Arte de Maus - A história de um sobrevivente

Marcelo Naranjo adorou Maus, talvez porque ele também seja um “rato”, mas de sebos. Cada vez que sai à caça de revistas usadas, volta com alguma relíquia nas mãos, quase sempre pelo infame preço de um ou dois reais. Nós já o avisamos que terá que contar seus segredos para nossos leitores. O rapaz fez cara feia, reclamou, mas esse texto sai, nem que seja na marra! Afinal, são três contra um; e não é de nosso conhecimento que ele tenha algum superpoder!

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  • Tenho que ler isso um dia!

  • Juliana Rodrigues

    Quando tinha 8 anos, morei em uma casa que a dona era judia.Li um livro que parecia um gibi sobre a Segunda Guerra Mundial, onde todos os personagens eram ratos, nao lembro se tinham personagem daros, porcos e afins. Mais jamais esqueci esse livro, foi ali que li sobre o horrores da guerra e ensino meus filhos a respeitarem as pessoas independe a sua religião,homossexualidade e qualquer coisa onde se possa julgar o carater de um outro ser humano.Gostaria muitode poder comprar esse livro para poder mostrar pros meus filhos e mostrar como foi que aprendi a respeitar mais o próximo.