O curioso mundo das seções de cartas dos gibis

Por Marcus Ramone
Data: 19 setembro, 2012

Tradicional canal de comunicação entre leitores e editores, o espaço dedicado às cartas, nas revistas em quadrinhos, tem acumulado histórias tão interessantes quanto uma boa HQ.

 

É fato: por mais que uma edição de um gibi de super-herói esteja sendo ansiosamente aguardada, graças ao desfecho de uma saga de grandes proporções, é a seção de cartas que diversos leitores vão ler primeiro, assim que puserem as mãos na revista. E se, excepcionalmente, essa página não tiver sido publicada naquele mês, não há dúvidas de que muitos vão se decepcionar.

Afinal, é ali que o leitor vai encontrar seus pares, dirimir aquela dúvida que nem sabia ter, colher informações, corroborar ou refutar uma opinião e, claro, orgulhar-se ao ver seu nome eternizado na página de seu gibi favorito.

A interação entre leitores e editores, por meio das seções de cartas de jornais e revistas informativas, é uma cultura secular já enraizada. Por um lado, quem compra essas publicações quer opinar, reclamar, sugerir, desabafar ou elogiar. E os que as produzem também precisam conhecer seu público para mudar, continuar ou melhorar o caminho que estão construindo para o seu produto.

Nas revistas em quadrinhos, porém, isso extrapolou a relação entre fornecedor e cliente e virou pura diversão para os fãs de HQs, numa proporção tamanha que – pasme! – há casos de leitores que sugeriram a publicação de edições especiais somente com cartas.

Também é verdade que, desde a chegada da internet, em que a comunicação entre leitor e editor ficou mais rápida e cresceram os meios para realizá-la, muito gibis reduziram o espaço para as seções de cartas ou passam meses sem publicá-las.

No entanto, isso não foi o suficiente para acabar com esse cultuado pedaço de integração editorial – que muitas vezes se tornou a melhor atração de uma edição ou mesmo de um título -, responsável, ao longo dos tempos, por curiosas e divertidas histórias, como as relatadas a seguir.

Correios de Krypton Teia de Leitores

O leitor mais chato do mundo

 Ninguém duvide que o brasileiro Welberson é o maior fã da revista Mad em todo o planeta. Ele provou isso ao entrar para a posteridade como “o leitor mais chato do mundo”.

Tudo começou em 1990, quando a primeira carta dessa inconveniente figura foi publicada na versão nacional da revista, na época editada pela Record.

A partir daí, ele não parou de perturbar os editores, enviando mais cartas, telefonando (inclusive para os números particulares, não importando se era domingo ou feriado) e visitando diariamente a redação da Mad – às vezes, tinham que trancar as portas e fazer silêncio, para que Welberson imaginasse não haver ninguém no local.

O infortúnio dos editores foi tornado público na revista e Welberson ganhou fama, virou tema de piadas em várias edições e teve sua cara engraçada estampada em uma capa.

“Vendo que não conseguiria vencê-lo, tentei cooptá-lo, contratando-o para trabalhar na revista e responder a seção de cartas. Ele nunca soube o novo endereço da redação, depois que a revista foi terceirizada e passou a ser produzida fora da Record. Como nos filmes sobre a máfia, eu marcava encontros com ele em restaurantes e outros locais públicos. Depois, pegava um táxi e mandava o motorista dar uma volta pela cidade, para despistar. Welberson era tão chato que essas precauções eram extremamente necessárias”, revelou o cartunista Ota, ex-editor da Mad, em uma matéria publicada no site Madmania.

Batalha de editores

Quando a Editora Abril adquiriu os direitos de publicação da DC Comics no Brasil, em 1984, as revistas Super-Homem e Batman foram comandadas, respectivamente, pelos fictícios Dermeval Calógeras e Supereditor, que respondiam as cartas dos leitores.

Os dois, cada um em seu gibi, viviam às turras, xingando-se, minimizando o título que o desafeto editava e vangloriando-se pelas qualidades que, supostamente, tornavam um melhor que o outro.

Nessa brincadeira – que não agradava a todos os leitores -, Dermeval Calógeras era um personagem erudito, com palavreado culto e floreado. E o Supereditor fazia as vezes de “povão”, sem papas na língua e afeito à boa e velha linguagem coloquial.

Foi assim durante dois anos, até que “novos” editores tomaram as rédeas das seções de cartas – nesse ínterim, Batman havia se juntado a Heróis em Ação para formar o gibi Superamigos -, anunciando que os brigões haviam sido demitidos por um motivo simples: “descobriram” que eles eram a mesma pessoa, que tinha problemas de dupla identidade.

Pergunta que eu respondo

Personagens respondendo as cartas nunca foi novidade. Esse artifício ainda hoje é usado, ocasionalmente, em gibis infantis.

No entanto, é difícil imaginar que essa prática era comum com os super-heróis. Ver o Demolidor tirando dúvidas dos leitores, comentando sobre sua vida particular e saudando a todos com um “Oi, amiguinhos!” parece grotesco.

Mas esse tipo de abordagem editorial realmente acontecia nas seções de cartas dos gibis de super-heróis da Bloch e da RGE, na década de 1970 – e até os anos 1990, como na revista Batman, que a Abril publicava em formato americano.

Correio Gama Caixa Forte

Em busca de um detalhe

Bastava apontar um erro numa HQ de qualquer edição – podia ser falha de continuidade, um deslize no letreiramento ou uma incoerência anatômica – e o leitor era saudado e premiado com o imaginário troféu Cata-Piolho.

Criado no início da década de 1980, nas seções de cartas dos títulos de super-heróis da Abril, o cobiçado troféu significava a imortalidade do leitor nas páginas da revista que ele colecionava.

Depois de perder a força nos anos 1990, o Cata-Piolho foi revivido pela Panini, na década passada, mas não precisou de muito tempo para virar motivo de reclamação – o espaço para as cartas deve ser usado para assuntos mais importantes, alegam os detratores.

Atualmente, ninguém poupa quem envia cartas ou mensagens de e-mail reivindicando o “prêmio”. Nem o editor que as publica escapa da fúria dos leitores.

Marvel ou DC?

O termo marvete, que define os fãs da “Casa das Ideias” no Brasil, foi cunhado na redação Marvel da Abril, no final da década de 1970. E ainda havia quem se considerasse supermarvete, como eram chamados os que colecionavam todos os gibis daqueles personagens.

Já a palavra decenauta foi criada pelo leitor Gérson Machado Rocha, de São Paulo/SP, que na seção de cartas de Super-Homem # 10 (abril de 1985) sugeriu ao editor usar esse neologismo para identificar os fãs da DC.

As duas palavras continuam sendo usadas pelos leitores, embora, desde que começou a publicar o Universo Marvel no País, a Panini prefira registrar nas revistas o termo marvelmaníaco.

E a resposta certa é…

Atualmente, parece óbvio dizer que, para ser editor de quadrinhos, é preciso conhecer os personagens, saber tudo sobre eles e estar seguro sobre as informações que se passa aos leitores.

Mas nem sempre foi assim. Principalmente no Brasil, quando o assunto eram as criações estrangeiras que circulavam pelas bancas. A impressão que se tem hoje é que, nos tempos em que não existia internet e o acesso às HQs originais e outras informações sobre os personagens era privilégio de poucos, não havia tanta preocupação em oferecer ao público algo além de uma simples leitura.

Um exemplo disso ficou registrado na seção de cartas de Quarteto Fantástico # 2 – 1ª série, lançado pela Ebal, em janeiro de 1970.

Depois de uma resposta errada sobre os pais adotivos do Superman, o editor ainda disse a um leitor que o Homem-Elástico não tinha superpoderes, apenas possuía “a habilidade de se esticar como borracha”.

Se isso não é superpoder, certamente o Hulk deve ser forte daquele jeito porque se esmera na musculação…

Leitores em Ação Olho Público

Fale conosco

Era novembro de 1996, cerca de um ano depois de a internet abrir acesso público no Brasil.

Na seção de cartas de Homem-Aranha 2099 # 38, quando um leitor perguntou se os gibis da Abril Jovem tinham um endereço eletrônico para correspondência, a resposta foi abrilsac@embratel.net (o mesmo para todas as publicações da editora e sem domínio próprio), que ainda demoraria a constar até mesmo do expediente das revistas em quadrinhos.

Foi o primeiro registro de um e-mail para uma seção de cartas de gibis no País. Mas Homem-Aranha 2099 foi cancelado antes que a primeira mensagem eletrônica fosse publicada na revista.

Muita calma nessa hora

Editores são bacanas e tratam seus leitores com atenção, boas maneiras, dedicação e outros zelos que só não os fazem mais santos que um monge franciscano?

Pode ser, mas eles são apenas humanos e, às vezes, aparece alguém capaz de fazê-los “subir nas tamancas”. E isso aconteceu em Homem-Aranha # 19 (Abril, janeiro de 1985) – que traz a clássica HQ O menino que coleciona Homem-Aranha.

Uma carta bastante mal-educada de um leitor foi publicada nessa edição. Pela resposta, ficou claro que aquela tinha sido apenas mais uma de muitas que, nessa toada, a mesma pessoa enviava com frequência à redação da revista.

O editor, de forma ríspida, revelou parte do que as outras cartas continham, como xingamentos, arrogância, depreciação do trabalho dos editores e – para escancarar tudo – até o que aquele sujeito pensava dos outros leitores do gibi: “uns débeis mentais.”

Se a carta tivesse sido publicada com o endereço, certamente o implicante leitor provaria o mesmo veneno.

&*%#@!

Os palavrões nunca foram um problema nas seções de cartas das revistas Chiclete com Banana (Circo Editorial, 1986) e Frauzio (Escala, 2001), dos cartunistas Angeli e Marcatti, respectivamente.

Se nas HQs as palavras de baixo calão, a obscenidade e a escatologia também eram o combustível para as piadas, nada mais justo que liberar geral no contato com os leitores.

Em que outras revistas em quadrinhos seriam publicadas cartas em que alguém se referia à mãe do editor com adjetivos pouco recomendáveis ou o mandava praticar fetiches anatomicamente improváveis?

Vamos Bater um Papo! Fantastic Four Fan Page

Marvels of Thrones

Dois grandes escritores – um de quadrinhos, outro de romances literários – encontraram-se pela primeira vez numa seção de cartas.

No gibi The Avengers # 12, estrelado pelos Vingadores e lançado nos Estados Unidos em janeiro de 1965, foi publicada uma carta do então adolescente de 16 anos George R. R. Martin, hoje o famoso autor da série medieval Game of Thrones (A Guerra dos Tronos, no Brasil), sucesso em livros e na TV.

Martin escreveu a Stan Lee tecendo suas opiniões nada favoráveis a muitos personagens e listando o que ele considerava os piores.

De acordo com o que tem declarado em entrevistas a sites e blogs, a atenção com que foi tratado por Stan Lee, nessa sua primeira carta publicada nas revistas da Marvel, foi um dos maiores incentivos que recebeu para se tornar escritor.

Excelsior!

Stan Lee revolucionou as seções de cartas dos gibis, já na década de 1960, tornando-as mais interessantes e divertidas. Criou, assim, uma relação mais próxima com aqueles que compravam, todo mês, as revistas que ele editou durante muitos anos.

Com respostas espirituosas, acatava sugestões editoriais, debatia, exprimia opiniões e se mostrava como um “paizão” – se não um irmão mais velho – de cada leitor.

Além disso, a clássica seção Bullpen Bulletins, em que era publicada a coluna Stan’s Soapbox – que celebrizou o bordão “Excelsior”, com o qual Lee saudava os leitores -, começou como um pequeno box nas seções de cartas.

Todos esses são apenas alguns episódios de uma grande história contada mensalmente em qualquer país que publique revistas em quadrinhos, desde que o primeiro leitor de um gibi quis exprimir sua opinião numa carta e o editor da publicação resolveu compartilhá-la publicamente.

E enquanto esse espaço estiver garantido, não vai faltar quem queira fazer parte dessa história.

Marcus Ramone já teve muitas cartas convencionais e eletrônicas publicadas em gibis. Numa delas, em 1985, na revista Superamigos, ele ajudou o Supereditor a atacar o irritante Dermeval Calógeras.

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