O Ken Parker de ontem ainda é uma das melhores HQs de hoje

Por Equipe UHQ
Data: 1 dezembro, 2001

Ken Parker #12, da MythosEm maio de 2002, após 18 edições, uma das melhores histórias em quadrinhos que circulavam em nossas bancas chegou ao fim: Ken Parker, da Mythos Editora. Uma pena, pois atualmente é cada vez mais raro encontrar roteiros brilhantes e desenhos belíssimos num mesmo título.

No entanto, apesar dessa feliz conjunção de talentos, muitos fãs ficaram indignados com o desfecho que o roteirista Giancarlo Berardi reservou para Ken Parker, sob o traço soberbo de Ivo Milazzo. No entanto, vale lembrar que o velho Rifle Comprido (seu apelido, por causa do inseparável e arcaico fuzil Kentucky que carregava consigo) sempre foi um personagem diferenciado. O óbvio jamais teve lugar nas suas aventuras, o que, para alguns, fazia pressupor que o final fosse inesperado.

Ken Parker #13, da MythosSuas histórias inteligentes fugiam completamente ao estilo do western tradicional de revistas como Tex, por exemplo. Por isso, sempre teve um público menor, mas bastante seleto e fiel. Entre a crítica especializada e os artistas do meio, colecionou fãs em todos os países onde foi publicado, inclusive no Brasil.

Felizmente, o fim da revista da Mythos não representou o sumiço de Ken Parker do mercado brasileiro. Isso porque o CLUQ – Clube dos Quadrinhos, sob o selo Tapejara e o comando de Wagner Augusto, desde 2000 (nessa época saía pela Tendência Editorial), vem republicando as histórias que originaram todo o sucesso do personagem em edições de sofisticado acabamento gráfico, papel bom e português bem cuidado.

Ken Parker #9, da TendênciaO único problema é que, se em tiragens para bancas Ken Parker já era considerado “para poucos”, devido ao seu estilo; em volumes destinados somente a gibiterias e livrarias, isso ganhou contornos ainda maiores. No início, a tiragem era de mil exemplares por edição. Hoje, já caiu para 500, e, com isso, o preço unitário teve que ser majorado, passando de R$ 19,90 para R$ 22,00. A tarifa cobrada para manuseio e postagem permanece em R$ 5,00, para qualquer quantidade de livros.

Por aqui, além de suas séries regulares, Ken Parker já estrelou algumas premiadas edições especiais. Em 1994, a Editora Ensaio publicou um belíssimo álbum com as histórias Os cervos (em aquarela e sem textos) e Um hálito de gelo. Em outubro de 1999, o CLUQ – Clube dos Quadrinhos lançou a minissérie, em dois números, Onde morrem os titãs; e, em maio de 2000, o álbum Um príncipe para Norma, de 128 páginas, com prefácio exclusivo de Sergio Bonelli para o Brasil e desenhos de Giorgio Trevisan.Ken Parker #10, da Tendência

Fãs de Ken Parker, como o desenhista Laerte (de Piratas do Tietê, Classificados, Deus, Suriá e outros), não entendem como um material de tamanha qualidade editorial e gráfica não consiga se tornar um sucesso de vendas num país tão grande como o nosso, deixando de ser somente um cult.

Mas o mais importante é que, mesmo produzindo essas edições para alguns poucos felizardos, Wagner Augusto continua firme e forte na decisão de republicar os 53 números lançados pela Vecchi, de novembro de 1978 a agosto de 1988 (devido ao fechamento da editora), e os dois da Best News, que saíram em 1990; e lançar as quatro últimas aventuras da coleção, que os leitores brasileiros nunca viram: A propósito de jóias e trapaças (A proposito di gioielli e d’imbrogli, no original), O sicário (Il sicário), Greve (Sciopero), considerado pela crítica especializada um dos melhores episódios da série), e Os garotos de Donovan (I ragazzi di Donovan). No total, serão 59 volumes.Ken Parker #11, da Tendência

Os oito primeiros saíram entre 2000 e 2001, e recentemente foram impressas as edições 9 a 16. Algumas já estão disponíveis nas melhores gibiterias e livrarias que destinam espaço para quadrinhos, mas há também a opção de adquiri-las diretamente com o editor Wagner Augusto. Para isso, basta escrever para o CLUQ – Clube dos Quadrinhos (Caixa Postal 61105 – CEP 05071-970 – São Paulo/SP, ou por e-mail, que produziu também um boletim sobre o personagem.

E após ler os últimos oito álbuns fica ainda mais difícil compreender como algo tão bom pode ser “degustado” por tão poucos privilegiados. As aventuras Caçada no mar, Terras brancas, A nação dos homens, A balada de Pat O’Shane, A cidade quente, Ranchero!, Homens, animais e heróis, e Butch, o implacável! mostram o quão Berardi sabe amarrar uma história como poucos roteiristas, envolvendo o leitor de uma forma incrível. E isso com vários ilustradores diferentes, uma vez que Ivo Milazzo desenha duas edições; Bruno Marraffa, três; Giancarlo Alessandrini, duas; e Giorgio Trevisan, uma.Ken Parker #12, da Tendência

Entre essas histórias, há um clássico dos quadrinhos de faroeste, cuja edição da Vecchi é até hoje disputadíssima em sebos. Trata-se de Homens, animais e heróis, na qual o autor faz uma homenagem inesquecível ao gênero. Ken Parker vai a um saloon em busca de vaqueiros, e um homem (na verdade, Giancarlo Berardi) vai lhe mostrando vários tipos. Começa, então, um verdadeiro desfile de personagens famosos, que vão entrando e saindo da trama rapidamente.

Participam da aventura: Kit Carson (o personagem inspirado no verdadeiro dono do nome), Cisco Kid, Pancho, Pecos Bill, Sargento Kirk, Mortimer, Tex, Kit Carson (o parceiro de Tex), Kit Willer, Jack Tigre, Cocco Bill, Rick O’Shay, Rocky Rider, Comanche, Randall, Capitão Miki, Tim Carter, Kit Teller, Kit Hodgkin, Zagor, Larry Yuma, Black Bill, Lucky Luke e Blueberry, além de Ivo Milazzo (que desenha a história), Sergio Bonelli e Decio Canzio (responsáveis na época por controlar os prazos da editora) e os atores Bill Adams e Matt Dillon.Ken Parker #13, da Tendência

O esmero tem sido marca registrada na produção desses álbuns. Poucos sabem, mas as páginas são escaneadas de revistas originais italianas, da coleção particular de Ivo Milazzo. Outro detalhe curioso: a edição brasileira de Homens, animais e heróis corrigiu um erro que havia saído até na Itália. Na época, a página 39 da história foi publicada com o fotolito invertido. Assim, o (pouco) texto que nela havia saiu como se estivesse sendo mostrado num espelho. Exatamente por tamanho cuidado, a coleção do Clube dos Quadrinhos tem recebido elogios até de fãs italianos do personagem, que têm comprado os livros pelo correio.Ken Parker #14, da Tendência

Pode até parecer paradoxal, mas Ken Parker, que foi criado em 1977, e circula nas nossas bancas desde 1978, ainda é um personagem “quase desconhecido” do grande público no Brasil. E ele merece ser descoberto! Suas histórias são perenes e sempre atuais. E quem tiver a sorte de lê-las vai descobrir que, mesmo as mais antigas, produzidas há 25 anos, estão entre o que há de melhor no mercado brasileiro de quadrinhos ainda hoje.

Sidney Gusman garante que um leitor novo que “experimentar” Ken Parker jamais deixará de ser fã do personagem. E olha que ele é um dos privilegiados que estão lendo suas histórias!

Ken Parker #15, da Tendência Ken Parker #16, da Tendência

 

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