O mundo mágico dos quadrinhos invade a Biblioteca Nacional

Por Equipe UHQ
Data: 7 novembro, 2002

Por Heitor Pitombo

Arte de Angelo Agostini para o jornal O FluminenseFundada há 192 anos, a Biblioteca Nacional (situada no Rio de Janeiro) poderia escolher inúmeras formas de comemorar mais um aniversário. No entanto, neste ano de 2002, ela optou por celebrar a efeméride com a abertura da exposição HQ – O Mundo Encantado dos Quadrinhos, que pode ser visitada até 31 de janeiro de 2003, no Centro Cultural Eliseu Visconti (um anexo da BN, que fica atrás do prédio principal, na Rua México s/n, com acesso pelos jardins), de segunda à sexta, das 10 às 17h; e aos sábados, das 10 às 15h.

Quando se percorre os vários módulos da mostra, o visitante incauto constata surpreso que, além de possuir em suas dependências obras raríssimas da literatura mundial, o acervo da Biblioteca também possui quadrinhos. E muitos deles são bastante raros.

Grande parte dos exemplares que estão na mostra vieram de uma coleção que foi admirada e cobiçada durante décadas: a que ocupava o Museu de Quadrinhos da saudosa Editora Brasil-América (Ebal).

Pelo fato de muitos “colecionadores” visitarem o museu e, digamos, não se contentarem em sair de lá sem levar pelo menos uma “lembrancinha”, os herdeiros de Adolfo Aizen optaram, numa certa época, por impedir o acesso do público. Como a Ebal acabou minguando aos poucos e acabou não tendo recursos para bancar a manutenção e conservação de seu acervo, ela achou por bem doar todas as revistas que dele faziam parte para a Biblioteca Nacional.

Pode-se dizer que a exposição em questão é o primeiro fruto dessa generosa doação, que fica aparente para o grande público. Mas a qualidade da mostra não se deve apenas ao material herdado da Ebal. Além da Biblioteca já possuir um bom arsenal de quadrinhos, a organização dos módulos se deve ao trabalho de uma equipe chefiada pelo curador Moacy Cirne, estudioso que há muitos anos vem fazendo um trabalho exemplar de divulgação da nona arte, principalmente através de livros de sua autoria como História e Crítica dos Quadrinhos Brasileiros e Uma Introdução Política aos Quadrinhos.

Zé caipora em Apuros, arte de Angelo AgostiniAlém disso, um dos pontos de destaque da exposição é justamente a sua cenografia e montagem, com direito a painéis que ampliam capas de gibis ou detalhes de determinados quadros, e até a montagens audiovisuais de grande impacto.

Os módulos da mostra foram organizados com base num caráter basicamente didático, possibilitando que os não iniciados possam compreender as várias correntes das HQs.

Nos primeiros módulos, por exemplo, pode-se acompanhar como alguns artistas, mais notadamente Ota e Jayme Cortez, criaram e esboçaram alguns de seus trabalhos. O que abriga as raridades do século XIX e do começo do século XX talvez seja o que mais encante os fãs tradicionais, pois mostra edições originais de publicações como Avenida Fluminense (que, em 1867, publicava trabalhos de Angelo Agostini, como As Cobranças e As Aventuras de Nhô Quim) e o primeiro número do semanal Tico-Tico.

Os super-heróis, é claro, não podiam deixar de estar representados. No módulo dedicado a eles há revistas corriqueiras, como a primeira edição de Batman, O Cavaleiro das Trevas, da Editora Abril; outras procuradas, como algumas revistas da Marvel da Ebal (A Maior – que reunia Capitão América, Homem de Ferro e Thor – e Homem Aranha em Cores, por exemplo); e raríssimas, como o nº 1 do Super-Homem da 1ª série da Ebal, de 1947, e edições do Gibi Mensal, com aventuras de personagens como, por exemplo, o Tocha Humana de Carl Burgos.

Heróis brasileiros como o Judoka, Raio Negro e Homem-Lua também estão bem representados na exposição, com a exibição de grandes painéis e edições originais.

Gibi #1Por falar nisso, os trabalhos de artistas nacionais merecem um destaque a mais na mostra, principalmente nos módulos de terror, humor, quadrinhos infantis, publicações alternativas e de adaptações de obras literárias.

É neste último módulo, aliás, que reside grande parte dos originais que podem ser vistos na mostra. As artes originais de Antônio Euzébio e André LeBlanc para várias capas da série Edição Maravilhosa (que transformou em gibis clássicos da literatura nacional como O Guarani, O Ateneu, Olhai os Lírios do Campo, Iracema etc) e da Bíblia em quadrinhos da Ebal encantam pelas texturas que só podem ser captadas através de uma observação in loco.

Quem, por algum motivo, não conseguir vir até o Rio de Janeiro para ver a mostra, poderá tentar adquirir uma cópia do luxuosíssimo livro em capa dura e papel de alta gramatura Literatura em Quadrinhos no Brasil – Acervo da Biblioteca Nacional, editado pela Nova Fronteira, com apoio da Brasil Telecom, que foi lançado na abertura da exposição.

Coordenado por Cirne, com textos escritos pelo próprio, Otacílio D’Assunção (o já citado Ota, para quem ainda não sabe), Álvaro de Moya e Naumin Aizen, o livro é uma espécie de versão impressa da mostra, e está repleto de imagens que podem ser vistas nos vários módulos e que, como está relatado em suas páginas, fazem parte do arquivo da Biblioteca Nacional.

Agora, se você vier ao Rio de Janeiro nos próximos dias, poderá pegar uma barca para Niterói e conferir outra exposição dedicada à nona arte. Trata-se da exibição pública de cinco mil exemplares de gibis do mundo inteiro, que fazem parte da coleção de Roberto Barros, e que vêm sendo guardados e conservados há quase 60 anos. Agora, eles podem ser vistos no Museu da Imprensa Brasileira (Rua Marquês de Olinda, 129, centro de Niterói).

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