Os melhores de 2006

Por Sidney Gusman
Data: 8 janeiro, 2007

Num ano repleto de boas novidades, agitação e mudanças no mercado editorial brasileiro, o Universo HQ elege os principais destaques

Por Sidney Gusman
(08/01/07)

Os melhores de 2006
2006 terminou como um dos anos em que o mercado de quadrinhos do Brasil
teve mais lançamentos. Há tempos não se via nada semelhante.

No entanto, esse crescimento foi “horizontal”, ou seja, alastrou-se ainda
mais a gama de títulos no mercado, acirrando a disputa pelo dinheiro de
um leitor já maduro, mas com tiragens pequenas. Não surgiram grandes campeões
de vendas, o que representaria o desejado aumento “vertical”, com o aparecimento
de mais fãs.

Se por um lado é ótimo que as editoras trabalhem com cada vez mais seriedade
e qualidade o nicho das livrarias e bancas especializadas, por outro continua
preocupante a falta de apostas na formação de novos leitores. Ou pior:
na manutenção dos que deixam de ler HQs.

Mesmo assim, o ano passado foi, inegavelmente, bom para os quadrinhos,
cheio de novidades.

Mauricio de Sousa, após 20 anos de Globo,
levou a Turma da Mônica para a Panini.

O mercado viu as estréias das editoras Pixel,
Lumus,
HQ Maniacs,
Tutatis, Aeroplano
e Zarabatana.

Mais de 50 títulos brasileiros – alguns ótimos – foram lançados, numa
média superior a quatro por mês, algo que há muitos anos não ocorria.
E aumentou bastante o número de livros teóricos sobre quadrinhos, fruto
também do crescimento do número de teses e trabalhos acadêmicos sobre
a arte seqüencial. Bom sinal.

A DC Comics
quase foi para a Pixel, mas acabou permanecendo na Panini,
que ainda promoveu a volta dos materiais da Top Cow às bancas e
fechou contrato com a Virgin . Mas 2006 acabou sem que o leitor
soubesse quem publicará os títulos da Vertigo e da WildStorm,
definição que deve acontecer em janeiro.

Em meio a tantas alterações, as bancas e livrarias foram tomadas por diversos
títulos – uma média de mais de cem por mês. E o principal: saiu muita
coisa boa, de variados gêneros e “nacionalidades”. E como o Universo
HQ
é o veículo que divulga e analisa mais amplamente todos os tipos
de quadrinhos, a seleção dos melhores, que foi introduzida por este jornalista
na revista Wizard a partir de 2003, passa a ser publicada aqui.

Foram escolhidas 20 obras entre edições especiais e minisséries; dez títulos
de periodicidade regular e dez relançamentos (uma boa sugestão do editor
Fabiano Denardin, da Panini, aqui aceita). Os critérios na escolha
foram: ser, literalmente, uma história em quadrinhos (livro ilustrado
não vale) e ter sua publicação iniciada ou concluída durante 2006.

Os materiais com parte das histórias já lançadas por aqui e parte inéditas
não foram considerados como republicações. Títulos regulares, além das
revistas mensais, são os que, mesmo com duração limitada, não foram concebidos
como minissérie.

Então, confira os melhores de 2006, anunciados sempre em ordem decrescente,
pra valorizar ainda mais a eleição e aumentar o suspense.


Edições especiais e minisséries

Reino dos Malditos
20) Reino
dos Malditos
(Pixel) – Uma das agradáveis surpresas de
2006. Uma HQ desconhecida, da qual pouco se esperava, mas que agradou
em cheio. O escritor de livros infantis Christopher Grahame começa a ter
desmaios freqüentes e vai parar em Castrovalva, um mundo imaginário que
ele criara quando criança. Até o meio, a história lembra bastante a saga
Um Jogo de Você, de Sandman, mas o desfecho é surpreendente.
Roteiro de Ian Edginton e arte de D’Israeli.

Bórgia - Poder e Incesto19)
Bórgia
– Poder e Incesto
(Conrad) – O nome de Rodrigo Bórgia,
o papa Alexandre VI, causa arrepios no Vaticano até hoje. Feitas as apresentações
da trama no primeiro tomo, Sangue
para o Papa
, neste a coisa esquenta. Alejandro Jodorowsky escancara
a podridão de Roma na época do papado de Bórgia. Ardis, roubos, orgias,
assassinatos e envolver os próprios filhos em tramóias. Valia tudo para
aumentar seu domínio na Europa. E com Milo Manara desenhando, a história
ganhou tons bem mais impactantes.

O Fantasma - Sempre aos Domingos
18) O
Fantasma – Sempre aos Domingos
(Opera Graphica) – Que presentaço
o Espírito-que-anda ganhou em seu 70º aniversário. Este álbum gigante
reúne, pela primeira vez no mundo, todas as empolgantes histórias do Fantasma
desenhadas por Ray Moore para as páginas dominicais dos suplementos de
jornais. Das histórias, apenas A Deusa do Fogo saiu aqui, em 1952,
em O Novo Globo Juvenil Mensal # 2056. Além disso, há três textos
interessantíssimos sobre o primeiro herói mascarado das HQs.

Os Mortos-Vivos - Dias Passados
17) Os
Mortos-Vivos – Dias Passados
(HQ Maniacs) – Imagine sair
de um estado de coma, sair do hospital e descobrir que tudo está tomado
por zumbis que se alimentam de humanos vivos. É o que acontece ao policial
Rick Grimes nesta série que explora os clichês dos filmes de mortos-vivos,
mas põe temperos a mais, como a busca pela família do protagonista e a
relação entre os sobreviventes. Texto de Robert Kirkman e arte de Tony
Moore. O segundo volume, Caminhos
Trilhados
, também saiu em 2006.

Y - O Último Homem - Rumo à Extinção
16) Y
– O Último Homem – Rumo à Extinção
(Opera Graphica) – Todos
os mamíferos com cromossomo Y morrem num piscar de olhos, exceto o jovem
norte-americano Yorick e seu macaco Ampulheta. Agora, o mundo é, literalmente,
das mulheres, que terão de domá-lo. Enquanto isso, Yorick não quer bancar
o macho reprodutor, só deseja rever sua noiva, que estava na Austrália
na hora da tragédia. Série muito elogiada (com razão) escrita por Brian
K. Vaughan e desenhada por Pia Guerra. O segundo volume, Ciclos,
saiu no final de 2006.

El Gaucho
15) El
Gaucho
(Conrad) – A melhor obra da dupla Hugo Pratt e Milo
Manara é Verão Índio (ainda inédita por editoras nacionais), mas esta
também merece ser lida. Na Buenos Aires da virada do século XIX, os autores
mostram a tentativa dos ingleses, então a maior potência mundial, de tomar
Buenos Aires como pano de fundo da história da irlandesa Molly Malone,
que vive um romance proibido a bordo no navio Encounter, onde está para
prestar todo tipo de “favores” aos militares britânicos, e sonha com a
liberdade em terras sul-americanas. Uma trama de poder, traição, sexo,
romance e independência.

Encantarias - A Lenda da Noite
14) Encantarias
– A Lenda da Noite
(independente) – Uma pena que o Brasil anda
não conheça esta obra, de Volney Nazareno e Otoniel Oliveira (este assina
também a linda arte), de Belém do Pará. A história, baseada numa lenda
amazônica, conta como foi criada a noite, a mando do todo-poderoso Tupã.
Num clima empolgante de aventura, que passa bem distante do didatismo
chato, são mostradas lendas como a Iara, o Curupira, a gigantesca cobra
Caninana e Jaguaressá, a mulher-onça. Uma baita HQ nacional.

Goon - O Casca-Grossa
13) Goon
– O Casca-Grossa
(Mythos) – Depois de ficar órfão, o feioso
Goon vê a tia que o criava, num circo, ser morta. Aí, o moleque detona
o assassino, rouba a agenda e a arma dele e decide se tornar o dono do
pedaço – nem que seja na base da porrada. Ganhadora de dois Prêmio
Eisner
em 2005 (Melhor Edição de Humor e Melhor Série Contínua),
a série escrita e desenhada pelo versátil Eric Powell estreou com estilo.
E teve até participação especial do Hellboy. Que venham novas edições
em 2007.

Invencível
12) Invencível
– Oito é Demais
(HQ Maniacs) – Logo no álbum de estréia
Negócios
de Família
-, Invencível mostrou uma interessante mescla
de humor e ação em suas aventuras. Ele é um super-herói diferente dos
uniformizados da DC e da Marvel, ficou claro. Mas neste
segundo volume, que tem uma “ponta” de Savage Dragon, mesmo com esse tom
descontraído, o escritor Robert Kirkman introduz elementos mais pesados,
que tornam a trama tensa. Os desenhos são de Cory Walker e Ryan Ottley.
Ótima pedida.

O Instituto
11) O
Instituto
(Aeroplano) – O Instituto parecia ser uma organização
qualquer que resolveria os problemas conjugais do protagonista (que não
tem seu nome revelado). Mas as aparências enganam, a verdade machuca, vinganças
acontecem e as coisas tomam rumos inesperados nesta HQ que é candidatíssima,
junto com Encantarias, ao HQ Mix de Melhor Edição Especial
Nacional
de 2006. Tudo graças ao texto envolvente de Osmarco Valladão
e aos desenhos e à ótima narrativa de Manoel Magalhães.

Pequenos Milagres
10) Pequenos
Milagres
(Devir) – Quatro histórias passadas que têm em
comum pequenos acontecimentos que parecem mágicos. Ou milagrosos. Pra
variar, Will Eisner dá um banho. Falar de sua arte e de sua narrativa
é “chover no molhado”. Inigualáveis, só isso. Pra definir o velho mestre,
mais fácil usar as palavras de nosso resenhista Eduardo Nasi: o autor
faz o leitor realmente mergulhar na história. Seus personagens têm voz,
seus cenários têm cheiro e suas histórias têm alma.

WE3 - Instinto de Sobrevivência
9) WE3
– Instinto de Sobrevivência
(Panini) – Um cachorro, um
gato e um coelho são usados como cobaias pelo governo num projeto que
os treina e equipa com avançados exoesqueletos. A intenção? Torná-los
as mais mortíferas armas já produzidas: inteligentes, obedientes e letais.
Mas os bichinhos se rebelam… Aí… Grant Morrison fez de uma HQ que na mão de um escritor qualquer seria uma bobagem uma trama envolvente e emocionante. Pra ajudar,
Frank Quitely estava (mais) inspirado e deu um show de narrativa na arte.

Crise de Identidade
8) Crise
de Identidade
(Panini) – Sue Dibny, a esposa do Homem-Elástico
é assassinada – e estava grávida. Isso detona uma crise que retira dos
armários vários esqueletos do passado obscuro da Liga da Justiça e mexerá
com todo o Universo DC. Muitos fãs veteranos podem questionar que
o Flash (Barry Allen) não faria isso ou que Zatanna não agiria assim,
mas Brad Meltzer contou muito bem a história, e o final é tocante. E se a
arte de Rags Morales às vezes deixou a desejar, sua narrativa compensou.

Corto Maltese - Sob o Signo do Capricórnio
7) Corto
Maltese – Sob o Signo do Capricórnio
(Pixel) – Corto Maltese
ajuda o jovem Tristan Bantan a encontrar Morgana, uma irmã brasileira
do segundo casamento de seu pai, pois ambos, mesmo sem se conhecerem,
têm um tipo de elo mental. A trama se passa na Bahia, com direito ao misticismo
da “boa terra”. Enfim, os leitores brasileiros podem acompanhar a espetacular
saga do marinheiro de Hugo Pratt. Em 2006, também foi lançado Corto
Maltese – Sempre um pouco mais distante
.

 

Mas ele diz que me ama
6) Mas
ele diz que me ama
(Ediouro) – Não se deixe levar pelo
desenho tosco deste livro. Trata-se de uma grande HQ, que conta a história
de Rosalind (nome fictício da autora). Aos 35 anos, ela era muito bem-sucedida
nos negócios. Quando conheceu o gentil viúvo Brian, largou tudo e passou
viver em função dele. Então, ele começou a maltratá-la emocional, sexual
e fisicamente. É o drama real de uma mulher que, por estar apaixonada,
ficou “cega” para o mundo e quase se destruiu. Imperdível!

Planetary - O Quarto Homem
5) Planetary
– O Quarto Homem
(Devir) – Animal! Assim pode ser definido
este álbum. Nele, o leitor fica sabendo quem ocupou o lugar que hoje é
de Elijah Snow, conhece os Quatro, um grupo adversário do Planetary claramente
inspirado no Quarteto Fantástico, e descobre quem é o Quarto Homem. Tudo
em meio a muitas referências, que vão da literatura pulp aos filmes
“B” de ficção científica dos anos 50 e aos quadrinhos. Roteiro incrível
de Warren Ellis e desenhos estonteantes de John Cassaday.

O Gato do Rabino - O Bar-Mitzvah
4) O
Gato do Rabino – O Bar-Mitzvah
(Jorge Zahar) – Esta série
já ganhou os prêmios Goscinny, do júri do Festival de Angoulême
e até o Eisner, de Melhor Edição Americana de Material Estrangeiro.
E merecidamente! Joann Sfar faz uma história com humor inteligente, sutil
e original. Após comer um papagaio, o gato de um rabino começa a falar
– e a questionar os humanos ao seu redor. Inclusive o judaísmo! E sem
culpa alguma. A editora lançou em 2006 o segundo volume, O
Malka dos Leões
.

DC: A Nova Fronteira
3) DC:
A Nova Fronteira
(Panini) – Nos anos 50, o governo obriga
os heróis a revelarem suas identidades secretas. Quem se nega e passa
a agir na clandestinidade é acusado de traição ao país. Com um traço estilo
animated, Darwyn Cooke reinventa personagens como Barry Allen,
Hal Jordan, Oliver Queen e John Jones. Isso sem falar no “trio de ferro”:
Batman, Superman e Mulher-Maravilha. Uma grande história da linha Elseworld,
que faz o leitor questionar a necessidade das amarras da cronologia.

Chosen - O Eleito do Senhor
2) Chosen
– O Eleito do Senhor
(Mythos) – O roteirista Mark Millar
mata a pau nesta HQ. Aos 12 anos, Jodie Christianson sobrevive após ser
esmagado por um caminhão. Quando começa a operar milagres, passa a suspeitar
que é Jesus Cristo reencarnado. Ao final da trama, o autor “dribla” o
leitor de forma sensacional, com a ajuda do desenhista Peter Gross – ainda
bem que, parece, ninguém da igreja católica leu a obra. A edição traz
ainda vários extras, como entrevistas, capas e até depoimentos de padres.

Incal
1) Incal
(Devir) – Num mundo futurístico, o detetive particular classe “R”
John Difool é escolhido para guardar um objeto misterioso – o Incal Luminoso
– que apresenta poderes sobrenaturais. Sua vida mudaria para sempre a
partir daquele momento, pois estava começando uma aventura que, literalmente,
chacoalharia a galáxia, envolvendo seres superpoderosos, como o Prezidente,
a Rainha de Amok, o Metabarão e seu filho Solune e o Cabeça de Lobo. Finalmente,
25 anos após o lançamento de sua primeira edição na França, chegou ao
Brasil, em três volumes caprichados, este clássico dos quadrinhos de ficção
científica, escrito pelo genial Alejandro Jodorowsky e desenhado pelo
fantástico Moebius, que até hoje influencia tantos autores – não só de
HQs. Para definir a importância desta obra para a história da arte seqüencial,
vale repetir o adjetivo com o qual este jornalista encerrou o texto escrito
para a orelha do segundo álbum: Incalculável!

Merecem “menções honrosas”: Grandes Clássicos DC # 9 – Alan Moore
(se fosse só por A Piada Mortal e as clássicas HQs do Superman
O que aconteceu ao Homem de Aço? e Para o homem que tem tudo,
certamente brigaria pelos primeiros postos da categoria Republicações),
Blacksad # 2 – Nação Ártica e Grandes Clássicos DC # 6 e # 7
– Lanterna Verde e Arqueiro Verde
(belo resgate dessa série clássica),
da Panini; Authority – Sob Nova Direção (só não está na
lista devido aos problemas gráficos da edição), Astro City – Inquisição,
Luluzinha – Vai às compras e Menina Não Entra?! , 30
Dias de Noite – Retorno a Barrow
, Fábulas – O Livro do Amor,
Aberrações – No Coração da América e Sin City – Balas, Garotas
& Bebidas
da Devir; 100 Balas – Samurai e Blues para
um Minuteman
, Jonah Hex – Show Case, 100% (boa surpresa
de Paul Pope), Alvo Humano, O Messias (HQ nacional “muda”
muito boa), Recruta Zero – Ano Um (que livrão!) e Os Sobrinhos
do Capitão
, da Opera Graphica; Persépolis 3 e O Complô
– A História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião
(a última obra
de Will Eisner), da Companhia das Letras; O Prolongado Sonho
do Sr. T
, do espanhol Max (pela estreante Zarabatana); Caim
(quadrinho argentino do bom) e Hellboy – Contos Bizarros, da Mythos;
Estranhos no Paraíso – Inimigos Mortais, da HQ Maniacs;
Giovanna (Giovanna Casotto desenha demais), Omaha – The Cat
Dancer
, Bob & Harv – Dois Anti-heróis Americanos (junção das
pirações de Harvey Pekar e Robert Crumb) e O Sétimo Suspiro do Samurai,
da Conrad; os dois volumes de Ultra – Sete Dias, A Metamorfose
de Lucius
e Madman (enfim, o herói maluco Mike Allred pintou
por aqui), da Pixel; Lusíadas 2500, da Companhia Editora
Nacional
; e Destino Oeste, da mato-grossense Tanta Tinta.


Republicações

LJA e Vingadores - Edição Definitiva
10) LJA
e Vingadores – Edição Definitiva
– Este encontro tão sonhado pelos
fãs demorou mais de 20 anos para ser produzido. E Kurt Busiek soube como
conduzi-lo. Além de ter muita ação e (claro) pancadaria entre os heróis,
a trama é permeada de citações à história dos grupos. Tudo com a sempre
competente arte de George Pérez. Depois do sucesso como minissérie em
2004, esta edição compilada saiu em duas versões: capa dura ou cartonada.
E com muitos extras sobre os bastidores da obra, ilustrações do projeto
original e detalhes do trabalho dos autores.

Valentina - Crepax 65-66
9) Valentina
– Crepax 65-66
(Conrad) – Ela é “apenas” a maior musa dos
quadrinhos em todos os tempos. Depois de muitos anos longe das livrarias
nacionais (antes saía pela L±), Valentina é apresentada a uma
nova geração de leitores. E pensar que, inicialmente, o italiano Guido
Crepax a concebeu como coadjuvante de seu marido Neutron, com poder paralisante
que combatia o crime. Quando a bela se tornou a protagonista, as histórias
passaram a ser sobre erotismo, fantasias fetichistas, sadomasoquismo e
devaneios oníricos. Um clássico das HQs mundiais.

Morte
8) Morte
(Conrad) – O roteirista inglês Neil Gaiman, criador da cultuada
série Sandman é quem diz: “Morte é um milhão de vezes mais sensível
que o próprio Sonho”. Talvez isso explique o porquê de a irmã mais velha
de Lorde Morpheus ser tão querida pelos leitores. A luxuosa edição nacional
é a primeira no mundo a reunir as duas minisséries da personagem – O
Alto Preço da Vida
e O Grande Momento da Vida. Além disso,
apresenta a HQ sobre a Aids Morte fala sobre a Vida, uma galeria
de imagens assinadas por grandes nomes dos quadrinhos mundiais e notas
exclusivas.

Preacher - Até o Fim do Mundo
7) Preacher
– Até o Fim do Mundo
(Devir) – O pastor Jesse Custer ganhou
poderes de um ser meio-demônio e meio-anjo e resolveu acertar as contas
com o Criador. Mas no caminho pára no sul dos Estados Unidos para rever
a família que tanto abusou dele na infância. É hora de exorcizar os fantasmas
do passado. Uma das melhores histórias dessa série “encantada” no Brasil
– espera-se que a editora que ficar com os diretos da Vertigo enfim
a publique até o final. O álbum traz ainda o encontro de Jesse, sua namorada
Tulip e o vampiro Cassidy com o perverso Jesus deSade.

As Aventuras de Tintim - O Caranguejo das Pinças de Ouro
6) As
Aventuras de Tintim – O Caranguejo das Pinças de Ouro
(Companhia
das Letras
) – Tintim é um clássico mundial indiscutível. 70
anos após o lançamento, as histórias escritas e desenhadas por Hergé continuam
muito agradáveis de se ler. E a editora está fazendo um belíssimo trabalho
de resgate dessas obras. Em 2006 saíram ainda O Cetro de Ottokar,
A Estrela Misteriosa, O Segredo do Licorne e O Tesouro
de Rackham, o Terrível
. Mas o escolhido foi este por trazer a primeira
aparição do impagável Capitão Haddock, que toma todas e mais algumas logo
na estréia.

Os Maiores Clássicos X-Men # 4 - A Saga da Fênix Negra
5) Os
Maiores Clássicos X-Men # 4 – A Saga da Fênix Negra
(Panini)
– O ápice da prolífera parceria Chris Claremont e John Byrne nos mutantes
aconteceu nesta saga. Dramática, emocionante e marcante, foi um dos maiores
momentos dos X-Men, hoje tão castigados por HQs ruins. Chance de ouro
para fãs antigos e novos (re)verem Jean Grey se sacrificando para garantir
a sobrevivência de seus amigos e retornando da morte como a poderosa Fênix.
Na seqüência final, após a derrota dos heróis para a Guarda Imperial de
Shiar, é impossível tirar os olhos das páginas.

V de Vingança
4) V
de Vingança
(Panini) – Esta é uma daquelas HQs que merecem
ser republicadas de tempos em tempos. O britânico Alan Moore dá um banho
de roteiro. A luta de V contra o regime totalitário da Inglaterra na “fictícia”
Londres de 1997 escancara problemas políticos vistos até hoje em grandes
nações. Além disso, os personagens são todos, sem exceção, muito bem construídos
e trabalhados. A arte “suja” de David Lloyd complementa a obra com mestria.
A edição traz ainda esboços originais, notas e uma detalhada explanação
do autor sobre a criação deste clássico dos quadrinhos.

Sandman - Estação das Brumas
3) Sandman
– Estação das Brumas
(Conrad) – Cada fã de Sandman
tem sua saga favorita, mas esta é especialíssima. Nela, Neil Gaiman começa
a amarrar pontas deixadas em edições anteriores e planta outras que trabalharia
depois. Lúcifer “se demite” e deixa a chave do Inferno com Sonho, que
terá que decidir, entre divindades e seres estranhos, quem será o novo
“dono” do local. O álbum é graficamente impecável e vem com várias notas
sobre as referências no texto e na arte. Em 2006, saíram ainda Um Jogo
de Você
e Fábulas e Reflexões.

Watchmen
2) Watchmen
(Via Lettera) – Alguns fãs reclamaram: “Ah, esta obra merecia sair
numa edição só, com capa dura, papel de luxo e vários; e não em quatro
livros”. Verdade. Mas os álbuns estão bem produzidos e a história continua
extraordinária. Reler Watchmen é sempre ótimo. Com um roteiro denso
e cheio de reviravoltas, Alan Moore destrói os super-heróis clássicos,
mostrando que os uniformizados também erram – e muito. E Dave Gibbons,
na arte, está soberbo. É graças a Watchmen, que até hoje surgem
tantos “filhotes” nessa linha, mas sem a mesma categoria.

Corto Maltese - A Balada do Mar Salgado
1) Corto
Maltese – A Balada do Mar Salgado
(Pixel) – No mundo inteiro,
qualquer lista de melhores quadrinhos de todos os tempos traz esta
história nas primeiras posições. Foi nela que surgiu Corto Maltese, alter
ego do mestre italiano Hugo Pratt. É aqui que ele começa a mostrar seu
senso de justiça tão particular, suas virtudes e fraquezas, seus casos
intempestivos com as mulheres, sua relação de amigo/inimigo com Rasputin
e muito mais. Tudo num traço simples, porém com uma narrativa singular.
Não à toa, estão entre seus fãs nomes como Umberto Eco, Frank Miller,
Milo Manara, Guido Crepax, Claude Moliterni e outros. O marinheiro representa
a palavra aventura em seu sentido mais puro, mas mesclada com poesia,
romance, fantasia e até humor. Mais de 20 anos depois de seu primeiro
lançamento no Brasil (pela L±, em 1983), a editora promete publicar
a série toda – três livros já saíram em 2006. Um presentaço para todo
fã da boa arte seqüencial.

“Menções honrosas” para: os volumes de Vagabond – A História de Musashi
e Dragonball Edição Definitiva, Clic e Clic 2, da
Conrad; Sin City – De Volta ao Inferno e Seis Mãos Bobas
(foi legal rever Angeli, Laerte e Glauco juntos), da Devir; Liberdade
a qualquer custo
, Homem-Aranha – Edição Histórica # 4 e Grandes
Clássicos Marvel – Volume 1
, da Mythos; Gullivera (saiu
aqui na revista Heavy Metal), da Pixel; Batman – Silêncio
(mais pela edição do que pela trama), Os Maiores Clássicos do Quarteto
Fantástico # 2 – John Byrne
, Superman – Identidade Secreta,
Os Maiores Clássicos do Poderoso Thor 1 – Walt Simonson, Superman
– Entre a Foice e o Martelo
e Grandes Clássicos DC # 8 – Superman
– As Quatro Estações
, da Panini; 100 Balas – Frio como Sorvete
e Parlez Kung Vous e Príncipe Valente – Nos Tempos do Rei Arthur
(uma edição “remasterizada”, com definição muito melhor das imagens),
da Opera Graphica.


Títulos regulares

Monster
10) Monster
(Conrad) – Esta série em 18 volumes, escrita e (bem) desenhada
por Naoki Urasawa vem conquistando muitos leitores. Diferente da maioria
dos mangás, tem um roteiro com bastante texto. O protagonista é o jovem
doutor Tenma, que tem sua carreira arruinada quando opta por salvar a
vida de um menino, em vez de atender o prefeito local, que estava passando
mal. Impossível não querer desvendar junto com o médico os assassinatos
que começam em 1986 no hospital onde trabalhava e continuam anos depois.
Ainda mais porque ele é o principal suspeito dos crimes.

XIII
9) XIII
(Panini) – Demorou um bocado (o primeiro volume saiu em 1984),
mas a série de espionagem mais cultuada da Europa aportou no Brasil. A
trama gira em torno do misterioso homem amnésico, com um número 13 em
algarismos romanos tatuado na clavícula esquerda e que tem sempre alguém
em seu encalço, querendo “apagá-lo”. Com o passar das edições, ele vai
colecionando inimigos, amigos e amantes e desvendando o seu passado e
suas várias identidades. O desenho de William Vance é meio “duro”, mas
o roteiro de Jean Van Hamme compensa, pois prende o leitor.

Nausicaä do Vale do Vento
8) Nausicaä
do Vale do Vento
(Conrad) – Outro lançamento de enorme
qualidade do ano passado. A série – em sete volumes – é uma obra-prima
e só não está em postos mais altos desta lista porque os dois tomos lançados
em 206 servem mais para apresentar a trama à volta da jovem Nausicaä.
Mesmo não sendo um mangaká, Hayao Miyasaki é, antes de tudo, um grande
contador de histórias (que o digam seus animês A Viagem de Chihiro,
Princesa Mononoke e outros), que delineia de forma precisa cada
personagem, domina as técnicas de narrativa e conquista o leitor.

Ken Parker
7) Ken
Parker
(Tapejara) – Ficou para o início de 2007 o final
deste clássico dos fumetti, criado por Giancarlo Berardi (texto)
e Ivo Milazzo (arte), apreciado por poucos (as tiragens são baixas), porém
felizardos, leitores. Nas histórias lançadas em 2006, Maurizio Mantero
ajuda em vários roteiros sem deixar a qualidade cair. Nos desenhos, contudo,
se Sergio Tarquínio e Giorgio Trevisan mantêm o nível, Carlos Ambrosini
e Renato Polese ficam aquém. Os álbuns também apresentaram uma queda na
qualidade editorial – passaram muitos erros de português.

Buda
6) Buda
(Conrad) – Depois de ler os 14 volumes da série, é fácil perceber
por que Osamu Tezuka é considerado um mestre no nível de Will Eisner e
Hugo Pratt. O difícil é entender como as editoras demoraram tanto
a trazer seus mangás para o nosso mercado. Sua abordagem à história de
vida do príncipe indiano Siddhartha é ímpar, até pelas “liberdades poéticas”
que assume ao criar personagens e fatos da trama. O que nas mãos de outros
autores seria chato, modorrento, nas de Tezuka se torna uma leitura compulsiva,
que mescla aventura, drama, amor e grandes sacadas de humor.

J. Kendall - Aventuras de uma Criminóloga
5) J.
Kendall – Aventuras de uma Criminóloga
(Mythos) – Dá gosto
chegar à última página de cada edição desta revista escrita por Giancarlo
Berardi e desenhada por feras como Marco Soldi (faz as lindas capas também),
Laura Zuccheri e Giancarlo Caracuzzo. É nítido que o autor mergulhou no
universo da criminologia para compor sua protagonista, e isso confere
uma autenticidade vital às tramas – que nada devem às dos melhores seriados
do gênero na TV. É um exercício interessante tentar pensar como Júlia
Kendall para tentar desvendar os casos. Merecia ser lido por muito mais
gente!

Demolidor
4) Demolidor
(Panini) – Parece paradoxal que a única representante do universo
de super-heróis nesta lista tenha sido cancelada. Sucesso de crítica,
mas não de público. Mas o mix deste título foi o que mais manteve a uniformidade
durante 2006 – algo difícil neste gênero. Os destaques foram o cada vez
mais inquietante Demolidor, de Brian Michael Bendis (texto) e Alex
Maleev (arte), e o Justiceiro, que nos roteiros de Garth Ennis
e desenhos de Dougie Braithwaite mostra o seu “verdadeiro eu”. Porrada
pura. O Pantera Negra ajudou a “compor o meio-de-campo”.

Mágico Vento
3) Mágico
Vento
(Mythos) – São raras as revistas mensais que mantêm
a qualidade do roteiro por tanto tempo. Esta é uma delas, graças ao texto
de Gianfranco Manfredi, sempre baseado em muita pesquisa, mas com a dose
certa de mistério, ação e misticismo. Entre os desenhistas, destaque para
Goran Parlov, Pasquale Frisenda, Ivo Milazzo, Mario Milano e Giuseppe
Barbatti. Quem “experimenta” as aventuras do xamã Ned Ellis e seu amigo
Poe costuma virar fã – pena que é pouca gente. Então, se você é um deles,
apresente-o para outras pessoas. Esta revista merece.

Adolf
2) Adolf
(Conrad) – Quem leu Buda e achou que aquele era o ápice
de Osamu Tezuka, “caiu do cavalo”. Nesta série em cinco volumes, o Deus-Mangá
conta a história de três Adolf durante a época da Segunda Guerra Mundial.
E Hitler não é o protagonista, como parece óbvio. Tezuka construiu uma
trama emocionante e cheia de reviravoltas. Há muita ação, intriga e até
romance, mas com uma característica peculiar: ao contrário de todos os
outros grandes trabalhos dele, neste não há humor. E mesmo usando uma
abordagem séria, ele fez (mais) uma obra irretocável.

Lobo Solitário
1) Lobo
Solitário
(Panini) – Este é um favorito que não “pipoca”
na hora decisiva. Pelo contrário. Quanto mais se aproxima do final (que
pena!), a saga do ronin Itto Ogami e de seu filho Daigoro se torna melhor.
Diferentemente de tantos mangás recentes, em que os autores embromavam
o máximo para esticar a história, o roteirista Kazuo Koike conduz a trama
sempre acrescentando um fato relevante e mostrando algo da cultura japonesa
do século 17. À medida que se aproxima o confronto final com Retsudô,
o líder dos Yagyu, a ansiedade aumenta, mas a grande sacada do autor foi
obrigar os inimigos a se aliarem na edição # 22. Os desenhos de Goseki
Kojima, da metade do mangá em diante, melhoraram bastante, mas sua narrativa
é tão boa, que é impossível imaginar a série feita por outras mãos. E
cada número da revista traz sempre um glossário sobre os termos usados
na história e/ou matérias complementares, um competente
e merecido cuidado editorial. Afinal, Lobo Solitário é um título
diferenciado e merece ser tratado como tal.

Merecem “menções honrosas”: Liga da Justiça (mais pelo primeiro
semestre), Aldebaran, Berserk e Marvel MIllennium – Homem-Aranha
(sustentada especialmente pelos Supremos); One Piece, Slam
Dunk
e Battle Royale (o começo foi instigante), da Conrad;
Conan, o Cimério (deu uma caída em 2006 e saiu do Top Ten),
da Mythos; Inu-Yasha (se tornou o mangá com mais edições publicadas no Brasil), da JBC; Lazarus Ledd, da Tutatis; O Melhor da Disney –
As Obras Completas de Carl Barks
, da Abril; Priest, da Lumus; e Guerreiros da Tempestade (ainda
tem muito a evoluir, mas manter uma revista mensal de super-heróis brasileiros
em bancas e assinar contrato para que a série vire desenho animado é uma
vitória, sem dúvida), da ND Editora.

Sidney Gusman lê uma pancada de títulos mensalmente. E de todos
os gêneros. Mesmo assim, sabe que muita gente vai reclamar desse ou daquele
título, mas isso não o incomoda. Ele acha essa polêmica bastante proveitosa.
Mas se quiser deixá-lo mesmo irritado, peça pro Sidão elencar os melhores
momentos do Corinthians em 2006. Xiiii…

 

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