Os quadrinhos a serviço da (boa) educação

Por Equipe UHQ
Data: 1 dezembro, 2001

Alguns anos atrás, durante uma conversa absolutamente informal, disse que trabalhava com histórias em quadrinhos… Uma assistente social, que estava na “roda”, reagiu indignada, dizendo que os gibis eram nocivos e afastavam as crianças do hábito da leitura!

Nem é necessário dizer que, superada a estupefação, frente a tamanha demonstração de ignorância, tratei de defender os quadrinhos, mostrando, com vários exemplos (que a mulher, evidentemente, desconhecia), o quanto as HQs podem servir como instrumento de incentivo à leitura e de formação educacional.

O pior de tudo é que esse preconceito absurdo em relação aos quadrinhos não se limita a bate-papos sem compromisso. Quem tem mais de 25 anos deve se lembrar que, algum tempo atrás, foi noticiada amplamente na imprensa uma reivindicação para que o Chico Bento deixasse de lado o seu linguajar caipira, e passasse a se expressar no mais correto português. O Cebolinha também deveria parar de trocar o “R” pelo “L”. A razão? Os personagens de Mauricio de Sousa poderiam ensinar as crianças a falar e escrever errado!

Felizmente, o desocupado que teve essa idéia estapafúrdia foi esquecido, não se tocou mais na idéia e Chico Bento e Cebolinha continuam mantendo as características que os transformaram em grandes sucessos junto aos pequenos leitores. Ah, e nem por isso a criançada cresceu falando errado! Incrível, não?

Antologia da BD PortuguesaO grande problema desses leigos que atacam os quadrinhos dessa maneira é o total desconhecimento de causa. Se procurassem se informar, saberiam que, em vários países, inclusive no Brasil, as HQs são utilizadas para contar a história dos seus povos para as crianças, de uma forma agradável e que instiga o jovem leitor a procurar saber mais sobre o assunto.

Vários capítulos da história de Portugal foram adaptados em bandas desenhadas (forma como eles chamam os quadrinhos). Na década de 80, a Editora Futura lançou a série Antologia da BD Portuguesa, contando as aventuras de seus heróis nacionais. Em O Caminho do Oriente, por exemplo, são narradas as aventuras do navegador Vasco da Gama, através de um garoto que acompanha suas viagens.
Na França, é possível encontrar praticamente toda a história do país quadrinizada. O mesmo vale para a Espanha e a Itália.

Do Japão, podemos citar Gen Pés Descalços, lançado aqui pela Conrad Editora, escrito e desenhado por Keiji Nakazawa, que mostra as desventuras do garoto Gen (alterego do autor) desde os dias que precederam a destruição de sua cidade natal, Hiroshima, pela bomba atômica até os seus efeitos devastadores. A obra, considerada um clássico dos quadrinhos japoneses, foi adotada por escolas norte-americanas, para que seus alunos aprendessem, com uma HQ, a dura verdade sobre a segunda guerra mundial.

E você sabia que o Brasil também já teve o – bom – hábito de contar a sua história em forma de HQ? Foi na série História do Brasil em Quadrinhos, dois volumes belíssimos, lançados pela EBAL, em 1959 e 1962; com desenhos exuberantes do veterano Ivan Watsh Rodrigues, que recebeu o prêmio Angelo Agostini de 2000, como grande mestre do quadrinho nacional, com absoluto merecimento. Esse mesmo autor também publicou Rondon, O Último Bandeirante; O Tigre da Abolição, com a biografia de José do Patrocínio; e a espetacular quadrinização do clássico de Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala, em 1981, que ganhou uma versão colorizada, em 2000.

O mestre Flavio Colin também deu sua colaboração, no sentido de retratar nossa história, com A Guerra dos Farrapos, um trabalho belíssimo.

Adeus, Chamigo BrasileiroRecentemente, os quadrinhos parecem estar ganhando um novo impulso como instrumento didático no Brasil. Em 1999, a Cia. das Letras lançou Adeus, Chamigo Brasileiro – Uma história da Guerra do Paraguai, um excelente trabalho do roteirista e desenhista André Toral, que narra, de forma brilhante, fatos desse importante acontecimento de nossa história. O álbum traz ainda, no final da edição, um texto contando os detalhes que levaram à guerra, fotos e as conseqüências das batalhas.


Também merece destaque o projeto Literatura², que pretende publicar contos de Machado de Assis, um dos nossos maiores escritores, adaptados em quadrinhos. Machado de Assis: A Cartomante, por Newton FootOs desenhistas escalados para essa missão são Spacca, Newton Foot, Jô de Oliveira e Gilberto Maringoni. No entanto, apesar da ampla divulgação que conseguiu pelo País inteiro, o autor da idéia, o jornalista Marcelo de Andrade, ainda não conseguiu viabilizar patrocínio para a empreitada. A princípio, seriam 30 mil exemplares, distribuídos apenas para estudantes das escolas de ensino médio de “maior risco social” – situadas em áreas de violência e pobreza da Grande São Paulo -, de acordo com um mapeamento feito pela Secretaria Estadual da Educação. O objetivo? Fazer os adolescentes tomarem gosto pela literatura.

E mais uma novidade vem por aí! O desenhista Newton Foot está preparando uma adaptação das Cartas Chilenas, do inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, que deverá sair ainda no primeiro semestre, num álbum da Editora Edra. A obra é uma poesia satírica, na qual são narrados os desmandos do governador Cunha de Meneses. Os diversos acontecimentos, sempre em seqüências curtas, fizeram que Foot optasse por contar essas histórias em formato de tiras, ainda INÉDITAS, e que você só confere aqui, no Universo HQ.


Cartas Chilenas - clique para ampliar

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