Por que ver o site Alan Moore – Senhor do Caos?

Por Gazy Andraus
Data: 30 abril, 2004

Alan MooreNão é de agora que o britânico Alan Moore é respeitado como um dos pilares da HQ adulta mundial. A questão tomou forma a partir de V de Vingança, entronando-o com a aclamada maxi-série Watchmen, que trazia, entre outras informações, a própria ciência fractal inserida sutilmente como parte do corpo estético da obra.

Alan Moore – Senhor do Caos, foi inteligentemente construído por José Carlos Neves (além de idealizador do projeto e fã do autor, é também formado em direito, ilustrador, pesquisador, construtor de aeromodelos, fanzineiro, tradutor, já morou em Hong Kong, e escreveu para jornais do Brasil e do exterior), que quis expandir sua vontade de comungar a obra do genial Moore, criando este site de acesso democrático na grande rede.

E fez mais: além de entrevistas com Alan Moore, uma das seções traz especificamente profissionais nacionais e estrangeiros entrevistados por José Carlos. São autores, pesquisadores, escritores e editores em conversas bem conduzidas, incluindo figuras da ciência e outras áreas, como por exemplo o físico Fritjof Capra.

Muitos deles, além de questionamentos pertinentes às suas áreas, foram inquiridos igualmente a respeito das obras de Alan Moore (o que significa muita informação essencial e importante sobre o universo das HQs). Aqueles que procuram conhecimentos relacionados à obra de Moore e da nona arte em geral, bem como a outras áreas, podem neste site colher importantíssimos dados de alguns entrevistados, como, por exemplo:

Eddie Campbell– Abs Moraes: ratifica o processo de criação de um roteirista (o solve et coagula) mencionado por Moore, e traz uma amostra interessante de seus roteiros, que pode ser conhecida pelo público;

– Amit Goswami: o respeitável físico indiano disserta sobre as teorias que põem o universo como um “ser” autoconsciente;

– André Carneiro: fala de Ficção Científica, de HQs e conhecimentos gerais, como a psique humana. Explica como uma universidade norte-americana valorizou seu trabalho, levando-o a lecionar, mesmo sem ter titulação “oficial”;

– Cláudio Seto: o autor que praticamente trouxe o estilo original do mangá ao Brasil, muito antes de se tornar conhecido e uma febre mundial, esclarece de forma original e curiosa como se deu seu interesse pelas HQ, graças a um incidente com seu avô, que lhe expôs um poema hai-kai, despertando-lhe para o poder informacional contido nas imagens seqüenciadas.

– Dario Chaves: o editor e roteirista (ex-funcionário da Gibiteca Henfil de São Paulo) traz interessantes dados e confirma tendências que têm recorrido na área de edição de HQs, reforçando que são os próprios autores que precisam se firmar como auto-editores;

– Eddie Campbell: o autor australiano conta como foi trabalhar com Moore, e seu processo de criação. Também confirma as tendências atuais de os próprios artistas da arte seqüencial serem seus próprios editores;

– Edgar Franco: o fanzineiro, autor e pesquisador doutorando da USP resvala nas questões místicas, científicas e pós-humanas, confirmando o vanguardismo informacional em seu doutoramento (conseqüentemente, em suas obras artísticas);

– Flávio Calazans: atualmente livre-docente pela Unesp, o também autor revela que a HQ nacional é como qualquer outra produção artística-cultural nacional, que só será valorizada quando puder existir solidamente, já que ainda está se formatando;

Mozart Couto– Ivan Carlo Andrade de Oliveira (Gian Danton, roteirista e pesquisador de HQ, mestre em Comunicação e professor universitário): traz informações acerca das obras de Alan Moore, principalmente Watchmen, e suas imbricações com a Física Fractal e Ciência Quântica. Ivan foi um dos pioneiros que perceberam o grau elevado de informação que permeia a obra do roteirista britânico, defendendo numa dissertação de mestrado a função desta obra como divulgadora de paradigmas científicos, indo muito mais além, já que desconstruiu detalhe por detalhe (fractal) a saga de Watchmen;

– Michael Moorcock: o escritor de Elric de Melniboné (o guerreiro Albino) comenta sobre FC e comics.

– Mozart Couto: fala de técnicas, de publicações no estrangeiro, mas, acima de tudo, revela como é a alma de um verdadeiro e profundo artista, já que está sempre, de uma forma ou outra, filosofando ao construir suas obras (que refletem seus estados de consciência);

– Oscar Kern: criador do Historieta, fanzine até hoje em atividade, traça interessante panorama que resgata como registro histórico informações sobre o universo das histórias em quadrinhos nacionais e o que tem sido a luta e os percalços quadrinhísticos brasileiros;

– Roberto Elísio dos Santos: o professor-doutor e membro do Núcleo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP revela que já publicou HQs, além de demonstrar ser um exímio teórico no assunto, já que professa aulas de comunicação em faculdades. Defende o universo Disney autoral, desvelando segredos e mistérios dos bastidores, por meio de seu livro Para Reler os Quadrinhos Disney;

– Rupert Sheldrake: o renomado biólogo escancara a questão científica dos campos mórficos;

Sonia Bibe Luyten– Sonia Bibe Luyten: professora doutora, autora do livro Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses e colaboradora do Universo HQ tece um pouco mais sobre a importância midiática das HQs e conta como ajudou a criar o fanzine acadêmico Quadreca, da USP, quando foi a primeira a introduzir um curso de história em quadrinhos na Universidade de São Paulo.

– Waldomiro Vergueiro: professor doutor e coordenador do NPHQ na Escola de Comunicações e Artes da USP defende e sempre atualiza seus dados acerca dos quadrinhos como veículos de informação altamente necessários, situando natural e sutilmente a nona arte no meio acadêmico universitário. Tem produzido diversos artigos para eventos e revistas acadêmicas, tanto brasileiras como estrangeiras (como no excelente International Journal of Comic Art), movimentando o núcleo que coordena, num constante enriquecimento teórico que fundamenta cada vez mais a necessidade de se estudar e se utilizar as HQ pelos setores de todos os níveis educacionais brasileiros;

– E muitos outros!

Site Alan Moore Senhor do CaosCom isto, algo de muito valioso e relevante está sendo apresentado neste site, e em específico na seção de entrevistas. Além de estar disponível também em inglês (para que pessoas de outros países possam acompanhar), existem outras seções igualmente interessantes, como a de Artigos, que abarca trabalhos teóricos sobre HQs (como um que demonstra os aspectos psicanalíticos freudianos contidos na obra inédita no Brasil A Small Killing, de autoria de Alan Moore e Oscar Zarate), e a de Notícias, que divulga eventos (palestras, exposições, congressos) pertinentes ao mundo dos comics.

E parece que José Carlos Neves (que também possui uma página pessoal) tenha percebido a extensão real e a importância que seu site está tendo para o bom desenrolar da divulgação séria das HQs no Brasil. Não só para os amantes da nona arte, mas, acima de tudo, para os autores e pesquisadores. Cada entrevista lida é como uma aula assistida.

Por isso, ele acaba de lançar o CD Alan Moore Senhor do Caos, compilando o trabalho que está disponível no site, cujo preço é R$ 19,80.

Enfim, um trabalho ao mesmo tempo despojado e profundo, principalmente referente a este objeto comunicacional e artístico, de função imperiosa social, tão pouco compreendido, mas tão injustiçadamente perseguido, que é o veículo paradoxalmente conhecido em vários países como Histórias em Quadrinhos (ou gibis – as revistas que as publicam), Bandes Dessinées, Bandas Desenhadas, Fumetti, Mangás, Arte-seqüencial, Literatura imagética, Comics, e-comics, Hqtrônicas…

Gazy Andraus é pesquisador de História em Quadrinhos, Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e doutorando em Ciências da Comunicação da ECA-USP, bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

 

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