Super-heróis da vida real: movimento cresce e vira tema de estudos

Por Marcus Ramone
Data: 24 abril, 2014

Psicólogos e sociólogos estudam o fenômeno que já dura quase duas décadas e se espalhou pelo mundo

 

No início da década passada, quando o simpático e não menos folclórico Capitão Jackson ficou famoso na cidade de Michigan, nos Estados Unidos, tudo levava a crer que o suposto primeiro super-herói da vida real era apenas um divertido caso de maluquice inofensiva protagonizado por um desocupado de meia-idade.

O que veio depois disso saiu do campo da curiosidade e se transformou em um fenômeno social que passou a perturbar as autoridades dos EUA e de vários outros países, em que pessoas comuns se travestem de super-heróis criados por elas próprias e assumem a missão de combater o crime ou – como reza a cartilha dos supertipos fantasiados dos quadrinhos – ajudar os fracos e oprimidos.

Se nos últimos anos vinham sendo destaques somente em reportagens de jornais, revistas e canais de TV, graças ao apelo midiático que carregam, os super-heróis da vida real já se tornaram alvos de sérios estudos nas áreas de sociologia e psicologia, ao ponto de teses de mestrado e artigos em publicações científicas estarem disponíveis para quem deseja se aprofundar no assunto.

De acordo com o documentário Superheroes, produzido e exibido pela HBO, havia cerca de 300 super-heróis registrados nos Estados Unidos, em 2011 – nem todos fazem parte do Real Life Super Heroes Project, entidade que confere ao movimento o status de organização ativista. Atualmente, esses dados estão defasados, pois somente na Califórnia, desde então, já surgiram 18 novos vigilantes. E outras dezenas se espalharam pelo mundo, como pode ser visto no site World Superhero Registry, que reúne superequipes ou heróis solitários de vários países – como Canadá, Japão, Porto Rico, França, Argentina e outros -, com direito a biografia, relação de armamentos, especialidades de combate e até arqui-inimigos.

Super-Heróis da vida real

Loucos, compulsivos, abnegados ou simplesmente nerds, sejam quais forem as definições para esses homens e mulheres, a verdade é que o vigilantismo não é mais privilégio de personagens dos gibis e ganha cada vez mais a atenção da sociedade, muito além dos risos que desperta.

Robin S. Rosenberg, psicóloga clínica e membro da American Academy of Clinical Psychology, na Califórnia, lançou recentemente o livro Our Superheroes, Ourselves (Nossos Super-heróis, Nós Mesmos), em que analisa o fascínio dos heróis fantasiados nas crianças e como elas são moldadas – ou mudadas – por eles, carregando consigo, até a idade adulta, desejos, frustrações ou traumas que podem levá-las a quererem ser como os (quase) imbatíveis ídolos de papel e tinta.

Para ela, a maioria dos Real-Life Superheroes – como é chamado o movimento dos vigilantes urbanos fantasiados – é fruto disso. “Quando perguntei por que fazem isso, a resposta frequente era que sentiam que a polícia, o sistema legal ou o serviço social não faziam o suficiente e eles queriam preencher essa lacuna”, escreveu em um artigo publicado na revista  The Psychologist, editado pela The British Psychological Society, da Inglaterra.

Rosenberg afirma que vários super-heróis da vida real lhe revelaram ter algum tipo de experiência traumática no passado. “E, como Bruce Wayne (Batman), após testemunhar o assassinato dos seus pais, encontraram uma fresta de esperança na sua experiência traumática e deram um significado a ela, dedicando suas vidas a ajudar os outros.”

Superheroes Anonymous

Há os que ajudam sem oferecer riscos a si mesmos ou aos outros, como o grupo Superheroes Anonymous, que distribui alimentos e roupas aos moradores de rua de Nova York. E na mesma cidade, a jovem Gatuna recolhe e cuida de animais abandonados.

Mas a maioria se presta às patrulhas noturnas e, se a oportunidade surgir, aos confrontos diretos com criminosos.

A partir daí, tudo vira caso de polícia. Em 2011, o herói Phoenix Jones, do Arizona, nos EUA, quebrou o nariz ao levar um soco de um assaltante. No ano seguinte, George Zimmerman (sem codinome), da Califórnia, matou um adolescente negro e gerou protestos antirracistas nos Estados Unidos – o fato de ele ter sido inocentado, pois teria apenas reagido a um assalto, não amenizou a desconfiança contra os vigilantes.

Em Ciudad Juárez, no México, a polícia local procura a vigilante (ou anti-heroína) Diana, autointitulada Caçadora de Motoristas de Ônibus. No ano passado, ela matou – com tiros na cabeça – dois motoristas, assumindo a autoria do crime e alegando “vingança pelo estupro brutal e tortura de mulheres na área”. Segundo testemunhas, a assassina andava trajada de roupa colante preta, mas sem máscara.

Muitos motoristas da rota que leva até a fronteira com a cidade americana de El Paso, no Texas, foram acusados de, durante o percusso noturno, assediar sexualmente, estuprar e assassinar mulheres. Não é preciso fazer grande esforço para entender por que razão uma boa parte do público feminino demonstrou simpatia por Diana e aprovou suas ações.

É para esses e muito mais exemplos semelhantes que os estudiosos se convergem para analisar um possível caráter patológico que envolve os vigilantes da vida real.

A psicóloga Nathalie Rodrigues, de Recife/PE, aponta traços distintos no comportamento dos super-heróis da vida real. “É preciso averiguar os objetivos de cada ato”, disse ela ao Universo HQ. “Se essas pessoas põem em risco a  própria integridade e a de terceiros, isso pode ser algo patológico. Mas também pode ser uma fantasia para satisfazer o ego, um desejo de fazer coisas que, enquanto estiverem sob a própria identidade, não teriam coragem ou não conseguiriam fazer.”

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Na visão do sociólogo Sérgio Coutinho, de Maceió/AL, o ego também estaria por trás das ações dos vigilantes mascarados. “Os heróis da vida real pouco têm feito de heroico, mas ‘carregam’ no caráter espalhafatoso de seus uniformes. É preciso dar mais atenção a eles como expressão do culto à celebridade em nossos dias. O que fica evidente nas reportagens de TV sobre o assunto, bem como nos vídeos que os próprios divulgam, é que eles querem ser famosos, como uma compensação pelas frustrações da ‘identidade secreta’. Isso fica mais flagrante com a negligência que quase todos têm com a preservação da identidade secreta.”

Coutinho salienta que, nos Estados Unidos, existe a cultura da vigilância de bairro, feita por moradores de uma mesma rua saindo em patrulhas para prevenir pequenos delitos e informar irregularidades às autoridades. “Se isso for feito com um uniforme de super-herói, não haverá qualquer risco maior ao cidadão, mas parecerá que ele age de modo diferente dos demais.”

Ele diz que “é necessário observar as práticas culturais de cada estado dos EUA onde eles atuam, quais são as formas comuns de ação comunitária voluntária de lá, para saber se, de fato, há super-heróis da vida real envolvidos ou apenas ‘quase famosos’”.

O sociólogo finaliza fazendo uma comparação com o Batman do Rio de Janeiro. “Ele tem aparecido em diversas manifestações. Sabe-se seu nome e, para evitar problemas com a polícia, ele divulga até seu RG. Já foi preso, ridicularizado por grupos de direita, apenas fala com a imprensa sobre os ideais que defende – não sobre a própria vida pessoal – e, portanto, está mais próximo de um herói do que a média dos equivalentes norte-americanos.”

Seriam os super-heróis da vida real uma moda efêmera, um engodo ou o despertar de uma nova consciência social? Para essa pergunta, a resposta de Robin S. Rosenberg ao UHQ foi comedida. “Só o tempo dirá”, disse ela, sem arriscar um desfecho para esse fenômeno que, em breve, completará duas décadas e continua angariando adeptos.

Marcus Ramone é fascinado por super-heróis do mundo real e já escreveu mais de 15 artigos sobre o tema. Durante a noite, faz rascunhos em seu caderno, tentando bolar uma identidade heroica para combater o crime.

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