Tintin au pays des soviets e os perigos do totalitarismo

Por Fernando Viti
Data: 8 setembro, 2003

Tintin au Pays des SovietsEscrever sobre Tintim (no Brasil, a grafia original teve o “n” do final trocado pelo “m”), a maior criação do belga Hergé (cujo nome real era Georges Remi), é um destes trabalhos que envolvem prazer e uma grande dose de autocrítica.

O excesso de critério é conseqüência direta da importância dos seus álbuns para a história das HQs. Se fosse possível fazer uma comparação entre os mundo do rock e o dos quadrinhos, poder-se-ia afirmar que Tintim, Batman e Flash Gordon têm a mesma importância dos Beatles, Rolling Stones e The Who.

Como as criações de Bob Kane e Alex Raymond, o personagem de Hergé é paradigmático, fundamental para o desenvolvimento da linguagem e indústria das HQs.

HergéTintim há mais de cinqüenta anos tem encantado gerações de leitores com aventuras que levam o repórter belga e o fiel Milu (Milou, no original), um fox terrier que vive praguejando, ao mais remotos e perigosos locais do planeta.

Comentar ou tentar descrever os roteiros e desenhos de álbuns como O Loto Azul, O Templo do Sol e Tintim no pais do ouro negro não é tarefa para um artigo, mas sim para uma dissertação na área de comunicações. Possuidor de um grau de exigência só comparável ao seu talento, Hergé permeava os desenhos e enredos das aventuras com informações e detalhes provenientes de sólidas pesquisas histórica e geográfica.

No cinema e nos quadrinhos, há, respectivamente, dois notórios filhotes de Tintim: Indiana Jones e Martin Mystère!

Há uma “lenda” segunda a qual George Lucas e Steven Spielberg criaram o arqueólogo Indiana Jones quando não conseguiram concretizar o sonho de um filme de grande orçamento para Tintim!

O grande clássico cinematográfico Lawrence da Arábia, a maior aventura cinematográfica de todos os tempos, do mestre David Lean, tem algo de um imaginário Tintim entre os Árabes.

Falando de maneira clara: sentar e ler um álbum deste personagem é embarcar em aventuras de roteiros cheios de reviravoltas e desenhos encantadores para a criação de paisagens e sociedades exóticas e distantes.

Tanto esmero e cuidado não tornaram a criação de Hergé imune a leituras críticas, que denunciaram o caráter reacionário e etnocentrista do personagem. Tintim foi acusado, a um só tempo, de ser reflexo da antigo colonialismo europeu , e um personagem assexuado, um celibatário convicto, pouco ou nada dado a apreciar a companhia do sexo feminino.

As Aventuras de Tintim no País dos SovietesTais considerações não deixam de fazer sentido, mas é preciso que se diga que ninguém, ao abrir um álbum de Hergé, espera encontrar um mix de National Geographic, gibi da Bonelli, Milo Manara ou Crepax. Tintim é uma HQ de aventura e humor físico desde sua origem, em 1929, com a aventura Les Aventures de Tintin – reporter du “Petit Vingtième” – au pays des Soviets.

Esta estréia, passados 74 anos, tornou-se assustadora e divertidíssima. Poucas HQs foram tão radicais na denúncia de uma das ditaduras mais violentas e sanguinárias da História. Tintim, em sua viagem à Rússia, pós-revolução de 1917, enfrenta as contradições, injustiças e repressão do ditador Joseph Stalin.

Mediante um ritmo vertiginoso, que lembra aquele das comédias do cinema mundo, Tintim e Milu usam da astúcia e trocam tapas e murros, quando necessário, para se livrar da repressão ou impedir as artimanhas da polícia política de Stalin contra o povo russo.

Arte de Tintim no País dos SovietesUma das passagens mais assustadoras desta aventura coloca Tintim junto a socialistas ingleses, que prestam atenção ao discurso de um camarada soviético que afirma que o barulho ensurdecedor e a poluição das fábricas são sintomas da pujança econômica da Rússia stalinista.

O topetudo (literalmente) herói, curioso por verificar a verdade por trás das palavras, descobre que a indústria em questão não passa de um cenário, no qual trabalhadores batem martelos em pedaços de ferro, com o intuito de se produzir o som de uma produção inexistente, enquanto que a fumaça das chaminés é obtida pela simples queima de madeira. Em seguida, Tintim presencia um pequeno plebiscito ser decidido sob a mira de armas de membros do exército vermelho.

Tintim e Milu como fantasmasNada se compara a uma reunião de comitê na qual Tintim descobre que se decidiu roubar trigo dos camponeses como forma de compensar o fracasso da administração stalinista.

Com este pano de fundo, a diversão é garantida pela “química” entre o repórter e seu cão, em incansáveis correrias e lutas contra os stalinistas. Vale a pena destacar que, a certa altura, quando tentavam dormir, os nossos heróis livram-se de agentes da KGB fingindo ser fantasmas, com a ajuda de prosaicos lençóis brancos. Hilário!

Contagiado pelo espírito desta HQ, fica o apelo para que esta aventura de Tintim seja lançada no Brasil. Sua única edição em português é de 2000, da editora lusitana Difusão Verbo. Les Aventures de Tintin – reporter du “Petit Vingtième” – au pays des Soviets é leitura obrigatória para George W. Bush, Saddam Hussein e José Rainha.

Fernando Viti adora os albuns de Tintim há anos, mas o que ele queria mesmo é ter um cabelo com aquele topete!

 

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