Tributo a Tex

Por Adilson Thieghi
Data: 30 setembro, 2008

Tex
As águas de março fechavam o verão daquele 2004 enquanto eu, no auge da
minha primeira gravidez, subia com esforço as escadas de uma antiga casa
na rua Jorge Lacerda, na cidade de Mafra, Santa Catarina, para passar
a tarde cavalgando com Águia da Noite e seus pards. Tudo o que
o corpo pesado e redondo não me permitia fazer, a imaginação cumpria ao
ler aquelas revistas amareladas e empoeiradas que meu pai me deixou quando
mudou para a Europa.

Tive a sorte de ter um pai colecionador. Ele colecionava desordenadamente diversas coisas, como selos, moedas, cachimbos, parafusos (!) e, o grande xodó, Tex. Minha mãe, obviamente, odiava. Mas como ela própria era dona de uma grande coleção de livros de literatura, não podia fazer muita coisa para evitar que todos os meses mais uma revista fosse se acumular na estante.

Quando criança, fui uma leitora voraz de quadrinhos. Contudo, o traço carregado do nanquim nunca me atraiu, sendo indubitavelmente preterido pelas aventuras empolgantes do Tio Patinhas e toda a Família Pato.

Somente muitos anos depois, quando meus vínculos familiares já se encontravam enfraquecidos por uma rusga parental que levou meu pai para o outro lado do Atlântico, resolvi prestar atenção àquele legado que por tantos anos ele cuidara tão bem. Porque muitas de suas coisas se perderam em sucessivas mudanças, mas a coleção de Tex estava sempre em dia, embalada em caixas de papelão, rigorosamente organizada. Talvez fosse a única coisa organizada na vida do meu velho…

Em Mafra, os dias eram absolutamente tediosos para uma gestante tão gorda e infeliz, presa dentro de casa por causa da chuva e de uma licença maternidade ligeiramente precoce. O simples fato de saber que havia tantas revistas me aguardando ali em cima já era suficiente para não me deixar dormir direito.

Numa tarde solitária, a chuva castigava as minhas janelas e minha gata miava preguiçosa sobre a poltrona. Subi as escadas com esforço e abri as caixas que já estavam mofando em meu sótão por mera curiosidade, à revelia dos conselhos médicos e conjugais que me ordenavam ficar longe de qualquer tipo de poeira enquanto meu estado “interessante” não me permitisse usar a famigerada e viciante bombinha de bronquite.

Acho que comecei a ler Tex apenas para afastar o tédio. Primeiro li Pacto de sangue, que uma vez meu pai havia indicado, achando que eu gostaria muito. Gostei, e como a coleção inteira estava em minhas mãos, resolvi ler também a revista número 1. Mas não me impressionei muito. Achei meio maniqueísta, simplória.

Entretanto, já que havia me esgotado subindo a escadaria e abrindo a caixa poeirenta, resolvi ler também a número 2.

Vingança de Índia me capturou do início ao fim. Mesmo sem estar inteirada dos laços familiares, das relações entre os pards, de quem era fixo e quem era coadjuvante, a história do absurdamente alienado Coronel Arlington me conduziu imediatamente ao número 3, depois ao 4, 5, 6… E daí eu já estava fisgada! “Comi” aquelas revistas como se fossem um delicioso pacote de castanhas, que a gente simplesmente não consegue parar enquanto não vê o fim.

Tex literalmente me acompanhou ao hospital quando entrei em trabalho de parto. Estava aproximadamente no número 300 e não queria parar de ler antes de acabar todas as 400 revistas herdadas. Claro que foi impossível ler na sala de parto… Droga de médicos e sua maldita mania de limpeza!

Depois de terminar de ler as revistas que papai havia deixado, resolvi ir até a banca de jornais mais próxima e ver em que número a revista estava, no momento. Naquele mesmo dia comprei a minha primeira revista Tex, Kiowas!, e comecei a correr atrás de recuperar o tempo perdido. Afinal, tinha um intervalo de cerca de dois anos de coleção interrompida.

Meu pai foi às alturas quando comuniquei que não mais venderia a coleção, mas sim continuaria alimentando-a apenas com histórias inéditas. E me confessou que começou a comprar, em 1977, quando mamãe engravidou de meu irmão, que seria seu primeiro filho homem. Pensara em deixar as revistas para ele. Ironias do destino, meu irmão detesta Tex

Ao longo de todos esses números, torci, ri e me emocionei. Confesso que algumas histórias me levaram às lágrimas (derramadas com todo cuidado, para não manchar a revista), enquanto outras me deixaram com vergonha de ser branca e outras, ainda, me fizeram gargalhar em voz alta, em geral com as provocações entre os dois rangers ou com algumas participações especiais, como de Pat McRyan e do povo de Frisco.

Que Kit realmente viva os cem anos que espera. E que Tex permaneça sempre saudável (e que saúde!), longe dos campos de caça de Manitu e sob a proteção atenta de Pequeno Falcão.

E que Jack Tigre, meu personagem favorito que me faz beijar a revista cada vez que solta seu lacônico “Ugh”, continue sempre ali, firme e forte, consertando a bagunça dos outros três.

Whoa!

Adriana Couto Pereira é a prova de que há, sim, mulheres leitoras de Tex. E que seu gosto pelas aventuras do ranger tenha sido passado para sua próxima geração!

 

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