Crás! A hora e a vez dos quadrinhos nacionais

Por Marcelo Naranjo
Data: 14 agosto, 2005

Seis números de uma divertida empreitada do quadrinho nacional

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A revista Crás! durou apenas seis edições, sendo as duas primeiras em formato magazine e as quatro seguintes em formatinho. Mesmo assim, marcou época. Foram publicadas diversas histórias em estilos diferentes, voltadas principalmente para o público infanto-juvenil, por vários autores brasileiros.

A publicação esteve nas bancas, sem periodicidade definida, entre os anos de 1974 e 1975.

No time dos colaboradores estavam nomes conhecidos como Zélio, Xalberto, Ciça, Ivan Saidenberg, Jayme Cortez, Nico Rosso, Primaggio Mantovi, Waldir Igayara de Souza, Miguel Paiva e muitos outros.

Com uma proposta ousada da Abril para a época, o editorial afirmava “Crás! abre suas páginas com o objetivo de mostrar o trabalho de argumentistas e desenhistas, profissionais ou amadores, que, nos mais variados gêneros e estilos, buscam valorizar as histórias em quadrinhos brasileiras“.

E o pessoal sabia o que estava fazendo.

Crás! #1Crás! #2

Entre os destaques, o talentoso Renato Canini apresentava Kactus Kid, um agente funerário que, para fabricar “clientes”, transformava-se no cowboy mais rápido do oeste, com um disfarce que incluía uma peruca, uma dentadura e um furinho no queixo.

Canini, além de ter um traço único (muitos lembram de suas histórias do Zé Carioca), demonstrava sempre uma incrível capacidade de criar gags em quase todos os quadros.

Outro que chama a atenção é o Satanésio, de Ruy Perotti, personagem que chegou inclusive a ter título próprio, com duração de quatro números pela Abril. O traço peculiar do autor tornava as histórias um atrativo à parte.

Satanésio é um “diabão”, que, triste pelo fato de ninguém mais ir ao inferno, já que os humanos transformaram o próprio planeta num lugar similar, resolve dar um pulo “no andar de cima” para conseguir clientes. Constantemente desmoralizado, acaba tendo até que agüentar um anjo da guarda que quer protegê-lo, o Anjoca. Os roteiros do autor buscavam sempre uma crítica social.

Perotti, quadrinhista de mão cheia, criador também de Sujismundo, sucesso em tiras na década de 1970, soube explorar de maneira singular seus personagens nas histórias do Satanésio, com liberdades criativas que levaram o atrapalhado diabo, no último número, a queimar as páginas de seu próprio gibi. E ainda dispara: “revista imbecil, onde sempre levo a pior”, para logo em seguida tomar um verdadeiro banho numa chuva provocada pelo Anjoca.

Estes dois criadores, Renato Canini e Ruy Perotti, autorizaram o Universo HQ a publicar histórias de sua autoria. Não deixe de conferir online, com sabor de nostalgia, uma divertida trama de Kactus Kid, e as encrencas de Satanésio.

Satanésio #1Lobisomem

De volta para a Crás!, merecem elogios também outras séries da revista, como o Lobisomem, um monstro com ótimas histórias (num traço muito divertido), que tenta atacar as pessoas, mas nunca tem êxito em suas empreitadas.

Algumas histórias, como Vavavum e Alex e Cris, traziam grande influência da Banda Desenhada européia, mostrando que o pessoal tinha ótimas referências para criação.

A revista apresentou ainda os personagens Filomena, Bingo, Plutônio, Januária, Rei Nanicão, Os Detetives, Onofre, Aragão e outros. No geral, todos os textos e roteiros mantinham um ótimo padrão de qualidade. Principalmente nas duas primeiras edições, uma forte tendência foi a busca de uma identidade regional em algumas tramas, trazendo elementos do folclore nacional, como lendas, personagens típicos e passagens históricas.

Também era permitida aos roteiristas e desenhistas uma boa dose de liberdade criativa, pois alguns roteiros e especialmente a arte tinham forte aspecto autoral.

A Crás! apresentava na contracapa um breve histórico da história em quadrinhos no Brasil, contando como eram as revistas O Tico-Tico, Suplemento Juvenil, O Globo Juvenil e outras.

Os Mil e Um Mundos de DanielKactus Kid

Em entrevista ao Zine Virtual, Primaggio Mantovi contou que a Crás! chegou a vender 80 mil exemplares, mas o esperado era, no mínimo, 100 mil.

Disse também que a editora teve problemas com o material publicado, que por vezes não chegava a tempo, ou tinha que ser adaptado, pois temas como sexo e drogas não eram a proposta da publicação.

Para Ruy Perotti, o grande problema que determinou a curta carreira da revista foi a mistura entre quadrinhos para adultos com material infantil. Isso aconteceu principalmente nas duas primeiras edições. Depois, o material adotou a linha mais jovem.

Infelizmente, seis edições foi pouquíssimo para uma publicação tão divertida. O fato, infelizmente, é que esse tipo de revista, trazendo um mix de autores nacionais, nunca permaneceu por muito tempo em bancas.

E o sonho do tal mercado nacional forte e diversificado de quadrinhos continua mais que distante!

Marcelo Naranjo fez diversas colunas sobre séries antigas para o Universo HQ. Para conferir, clique aqui.

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