Grilo, um importante momento dos quadrinhos no Brasil

Por Marcelo Naranjo
Data: 10 fevereiro, 2004

Museu dos Quadrinhos, por Marcelo Naranjo

Contracultura, moda psicodélica, ácido e Beatles são palavras que remetem diretamente a um importante momento cultural na história da humanidade. A década de 1960 rompeu paradigmas e influenciou toda uma geração, na música, no cinema e, como não poderia deixar de ser, nos quadrinhos.

A revista Grilo, da Espaço-Tempo Veículos de Comunicação Ltda., trazia reflexos desta época. Foi publicada entre 1971 e 1972, em 48 edições, a princípio semanais e, posteriormente, quinzenais. A tiragem por número era de 30 mil exemplares e boa parte do material nela encontrado surgiu justamente na década de 1960.

Grilo teve o grande mérito de apresentar, pela primeira vez no Brasil, diversos autores que marcaram época no universo dos quadrinhos.

O título era publicado no formato tablóide, com duas capas distintas e 16 páginas.

Grilo # 1Grilo # 2

As duas capas eram por um motivo curioso: a revista chegava às bancas dobrada uma segunda vez (o que escondia a capa principal, sempre maior), ficando próxima do tamanho hoje convencionado como formato americano, tudo para facilitar sua exposição aos leitores.

A partir do número # 25, ela passou a sair em formato magazine. A mudança marcou também a ampliação dos títulos publicados na revista.

Do número 1 até o 24, o conteúdo era formado principalmente pela publicação de tiras. Confira:

Peanuts, por Charles M. Schulz – A turminha do Charlie Brown e o famoso cachorrinho Snoopy dispensam grandes apresentações;

Peanuts

Tumbleweeds, por Tom K. Ryan – Também conhecida como Kid Farofa. Heróis covardes e atrapalhados, apaches divertidos (quando não estúpidos), um bêbado impagável e outras figuras do Velho Oeste, em tiras engraçadas;

Tumbleweeds

B.C. (a.C. em português), por Johnny Hart – A conhecida série dos homens pré-históricos, com problemas típicos dos nossos dias;

The Wizard of Id (O Mago de Id em português), por Brant Parker e Johnny Hart – O Reizinho querendo impor autoridade e nunca conseguindo, um mago e sua mulher mandona, o bobo da corte, o guerreiro preguiçoso, um prisioneiro há muito na masmorra e outros divertidos personagens, já publicados em diversos jornais;

Horace & Buggy, por Don Edwing e Paul Coker – Uma prova que o mundo dos insetos pode ser muito engraçado, quando não complicado;

Pogo, por Walt Kelly – Criado em 1948, trata de diversos animais em situações remetendo ao mundo de fábulas, com o autor refletindo sobre os valores da sociedade;

Luther, por Brumsic Brandon Jr. – Um garotinho negro e sua turminha de amigos;

Little No-No & Sniffy, por George Fett – O relacionamento entre pai e filho (cachorros) e muita confusão entre diversos animais;

Grilo # 3Grilo # 4

Miss Peach, por Mell Lazarus – Um grupo de crianças vivendo a problemática dos adultos;

Valentina, por Guido Crepax – Uma grande estréia no número # 7 da revista. Pela primeira vez, a famosa criação do “papa” dos quadrinhos eróticos aparecia, com direito a uma introdução para o material que começava a ser publicado. Neste número, também teve inicio a seção de cartas;

Jules Feiffer – Espaço dedicado ao artista que iniciou carreira trabalhando com Will Eisner, em The Spirit. Com estilo próprio, faz críticas à sociedade em geral e à classe política.

Bristow, por Frank Dickens – Um homem filosofando em meio às minúcias do ambiente de trabalho;

Andy Capp, por Reg Smythe – Mais conhecido como Zé do Boné, esse malandro, que quer mais é ficar num boteco tomando umas, voltando quase sempre bêbado para casa, para desespero da mulher – e vivendo às custas dela, faz sucesso por aqui há tempos. Aliás, difícil não simpatizar com ele.

A segunda fase da revista começou a partir do número # 25 (dedicado exclusivamente a Charlie Brown e sua turma), com novo formato e mais páginas (36). Grilo apresentou novos personagens, e trouxe o underground americano ao Brasil.

Além das séries, diversas histórias foram publicadas. Essa mudança pode ser conferida no estilo das capas adotadas a partir de então, com cores fortes predominando.

Mr. Natural, de Robert Crumb Paulette, por Wolinski e G. Pichard

E, falando em cores, o título, que era em preto-e-branco, passou a apresentar-se como “a cores” (nota do UHQ: o correto seria “em cores”), embora elas só existissem na capa e num pôster central. A seguir, o que foi apresentado nas edições:

Robert Crumb – A revista foi a primeira a publicar no Brasil histórias do famoso artista, considerado o maior nome do quadrinho underground americano. Crumb chegou no número # 26, com Whiteman, seguido por Mr. Natural e outros personagens e histórias;

Paulette, por Wolinski e G. Pichard – Uma deliciosa e voluptuosa garota que passa por grandes perigos após ser raptada, por ser herdeira de uma fortuna, em ritmo de art nouveau;

Wolinski – Um artista europeu que quebrou regras, com conteúdo sarcástico, principalmente erótico e também abordando outros assuntos;

Reiser (Jean-Marc Reiser) – Artista francês com charges e histórias de humor forte e, por vezes, cruel;

Willem (Bernard Willem Holtrop) – Outro quadrinhista da Europa, nascido na Holanda, com bom humor crítico e erótico;

Na Grilo # 27, a estréia de artistas nacionais. Começou com Cláudio Martins, de Minas Gerais, com a história SR. Outra mudança ocorreu neste número: as páginas internas, em vez do tom preto, passaram a ser impressas em azul. Nas edições seguintes, outras cores foram utilizadas.

Wolinski Lucy

A edição # 35 trouxe mais um aumento no número de páginas (56 páginas). E dois números depois, mais um salto: 64 páginas e a inclusão de fotonovelas de humor, a seção As Dicas do Professor Choron (criação de Wolinski), com pérolas ensinando, por exemplo, como transformar uma cueca velha em camiseta; e HQs completas. Seguem algumas:

Sonhos Cruzados, por Gore;

Os Herdeiros da Terra, por Gore;

O Karma de Gaargot, por Sérgio Macedo;

Casarão de Harvey, o Horrível, por Gore;

O Mensageiro, por Jim Osborne;

Bonnie & Clyde, por Guido Crepax;

Testicles o Tautologista, por Jaxon;

O Perdedor, por Jim Osborne;

O Segredo, por Jaxon;

Freak Brothers, por Gilbert Shelton;

As Aventuras de Zimmerman – Tony Hendra e Sean Kelly (roteiro) e Neal Adams (arte);

O Espírito, por Will Eisner;

A Queda da Casa de Usher, por Dino Battaglia;

Como Howie achou a saída no mundo real, por Gore;

Na Calada da Noite, por Jim Osborne;

As Aventuras do Super-Morto – Henry Beard e Dick Giordano (roteiro) e Neal Adams (arte);

Chapeuzinho Rasgado, por Max Bunker e Gianpaolo Chies;

Cacete em Quadrinhos, por Robert Williams;

Emma contra os Rebeldes, por Willem;

Perseguição, por Archie Goodwin e Alex Toth;

Conflito na Guerra, por Gore.

Grilo # 5Grilo # 6

Boa parte das histórias acima é assinada pelo artista Gore, pseudônimo utilizado pelo hoje mundialmente conhecido Richard Corben, que tem desenhado várias HQs de super-heróis nos últimos tempos, como Cage, que foi publicada aqui em Marvel MAX, da Panini Comics.

Já a história O Karma de Gaargot traz o brasileiro Sérgio Macedo, que posteriormente iria trabalhar no exterior, na França, desenhando para a Métal Hurlant, Linus e para a Heavy Metal americana.

Algumas das HQs, como as desenhadas por Neal Adams, foram publicadas originalmente na famosa revista americana de humor National Lampoon.

Na edição # 39 houve mais uma estréia de peso, com Gilbert Shelton, criador dos Freak Brothers, na história Bem, eu não tenho ninguém. E, no número # 44, foi a vez de Don Martin, conhecido por seu trabalho na Mad.

Em relação às HQs publicadas, autores como o quadrinhista Jaxon (Jack Jaxon), Jim Osborne, Jim Franklim, Larry Welz e Robert Williams fazem parte da escola do underground americano. Inclusive alguns consideram Jaxon com o primeiro artista do gênero.

Merece destaque também A Queda da Casa de Usher, com belas ilustrações do grande artista italiano Dino Battaglia.

Grilo # 7Grilo # 8

Na derradeira edição da Grilo, a número # 48, uma ótima entrevista com o saudoso Henfil.

Outro diferencial na trajetória da revista foi a publicação de contos curtos, geralmente de ficção e terror. Além disso, a partir da edição # 22, as seções Grilos e Super Grilos traziam informações sobre o que estava sendo publicado no exterior, os artistas, super-heróis, revistas estrangeiras, livros sobre quadrinhos e outros.

Algumas liberdades foram tomadas pelos editores. Por exemplo, a edição # 1 formava um pôster, na contracapa, com Lucy (de Snoopy) grávida, gritando “Você me paga, Charlie Brown!”.

Já o segundo número tinha, também na contracapa, o mago de Wizard of Id conjurando um feitiço, e uma bela garota nua saindo do caldeirão.

Grilo também teve dois almanaques publicados:

Almanaque Grilo – Uma edição aumentada da revista, com HQs, tiras e textos sobre Feiffer, Crumb e Valentina;

Almanaque Underground – Diversas histórias completas de Crumb (inclusive Fritz the Cat), Richard Corben, Larry Welz, Gilbert Shelton e Jim Franklim.

Personagens da revista Grilo

Foram lançadas também três edições especiais: Valentina, por Crepax, e Paulette, por Wolinski e Pichard, como álbuns; e Mr. Natural, por Crumb, em formato pocket.

Embora alguns aspectos deixassem a desejar, como a tradução de algumas histórias ou impressão ruim neste ou naquele número, ainda assim, Grilo foi um grande passo, um diferencial em relação aos quadrinhos até então direcionados para o público jovem e adulto no Brasil. E virou referência e inspiração para inúmeras publicações posteriores.

Marcelo Naranjo gostaria de ter aproveitado os anos 1960, com aquela história toda de liberdade e mulheres sem roupa. Nós achamos que o cara anda tomando muito chá de cogumelo, mas… sem grilo!

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  • Leomax Souto Ribeiro

    Fantástica! Divertiu-me, ensinou-me e me deu alguma cultura.