Quadrinhos de Bolso: o melhor das tirinhas da década de 1970

Por Marcelo Naranjo
Data: 3 março, 2016

Museu dos Quadrinhos

Uma linda coleção que ganhou as bancas e o coração dos colecionadores

 

Na segunda metade da década de 1970, diversas revistas em quadrinhos apresentando coletâneas de tiras, no formato horizontal, estavam à venda nas bancas brasileiras. Na época, algumas das editoras apostaram suas fichas neste segmento.

A Abril publicou revistas deste gênero com os personagens da Turma da Mônica, diversos títulos da Disney, e ainda edições como As Melhores Piadas do Pinduca, As Melhores Piadas da Arca de Nóe, As Melhores Piadas do Professor Tantã, As Melhores Histórias do Popeye e King Tongo.

As Melhores Piadas do Pinduca apresentava tirinhas com o personagem criado por Carl Anderson em 1932. Em 1942, John Liney assumiu o desenho das tiras – são dele as HQs dessa edição. Pinduca, que no original é Henry, também é conhecido como Carequinha no Brasil.

As Melhores Piadas da Arca de Noé trouxe uma seleção de tiras assinadas por Addison, na verdade pseudônimo de Mort Walker, que assinou assim para não expor tanto seu nome na época (já publicava o Recruta Zero e Zezé). Nas tiras, um atrapalhado capitão e sua esposa cuidam de uma arca com seus bagunceiros e quase amotinados bichos, sempre com muito humor.

As Melhores Piadas da Arca de Noé

As Melhores Piadas do Professor Tantã é uma coletânea das tiras criadas pelo norte-americano Bill Yates com um distraído e atrapalhado professor e sua vida em família.

As Melhores Histórias do Popeye publicou tiras do marinheiro assinadas por Bud Sagendorf, com a participação de todo o conhecido elenco de personagens que ajudaram a catapultar a fama do comedor de espinafre: Brutus, Olivia, Gugu, Dudu (aqui chamado de Procopinho) e a Bruxa do Mar.

King Tongo é uma tira baseada no famoso e enorme gorila, criação dos espanhóis Miguel Angel Nieto e Enrique Ventura, que trazia preocupação com as mazelas da civilização, sempre pelo viés do humor.

As Melhores Histórias do Popeye

Outras editoras também apostaram no formato, como, por exemplo, a Ideia Editorial, que publicou Tico e Teca Especial e Don Piloto.

Tico e Teca (Nancy and Sluggo, no original) brindou os leitores com uma seleção de tiras dessa dupla de personagens clássicos. Nancy surgiu em 1933 numa tira chamada Fritzi Ritz e ganhou série própria em 1938, nas mãos do cartunista Ernie Bushmiller. Na trama, as confusões aprontadas pela garotinha Teca e seu amigo Tico.

Don Piloto é uma coletânea de “mil piadas com o aviador mais avoado do mundo”. A série, da United Features Syndicate, trazia as tiras de um atrapalhado piloto da Primeira Guerra Mundial e seu parceiro, o gato Flap.

Tico e Teca

Mas o grande destaque nessa época ficou por conta da RGE, com a coleção Quadrinhos de Bolso. Foram 12 edições com 80 páginas cada uma e algumas das melhores séries da época – a publicação teve início em 1976.

Começou com o impagável Hagar, de Dik Browne. Sempre envolvido em confusão, o viking tenta fugir da esposa Helga para comer até não poder mais e ainda “tomar todas”, ao lado do atrapalhado amigo Eddie Sortudo, da filha guerreira Honi e do filho poeta Hamlet.

Alguns elementos da série seriam deixados de lado décadas depois, em prol do politicamente correto, quando o filho do criador, Chris Browne, assumiu as tiras no lugar do pai, que faleceu em 1989.

Depois foi a vez do não menos famoso Recruta Zero, de Mort Walker. Toda a turma marca presença nas tiras: Sargento Tainha, General Dureza, Dentinho, Roque, Cuca, Tenente Escovinha, Tenente Mironga, Platão, Quindim, Capelão e outros que ajudaram a sedimentar o enorme sucesso dessa tira, que soube como poucas brincar com as agruras da vida militar.

O destaque, sem dúvida, fica para o embate entre o “boa vida” Zero e o estressado, nervoso, comilão e passional Sargento Tainha, um dos maiores personagens coadjuvantes dos quadrinhos de todos os tempos – e não só em função de seu tamanho. Dessa estranha relação de amizade e ódio surgem as melhores piadas da edição.

Recruta Zero

Na sequência, Frank e Ernest, de Bob Thaves. Os dois personagens aparecem em todo tipo de situação imaginável na criação das gags: como vendedores, mendigos, esportistas, turistas, médicos e várias outras atividades, numa tira sutil e inteligente.

A quarta edição apresenta material europeu – é o famoso Asterix, O Gaulês, de René Goscinny (roteiro) e Albert Uderzo (arte). No ano 50 antes de Cristo, toda a Gália está ocupada pelos romanos. Menos uma pequena região que resiste bravamente aos invasores… É lá que estão os divertidos Asterix, seu amigo Obelix e os irredutíveis gauleses que, tomando a poção do druida Panoramix, ficam invencíveis e tem como esportes prediletos caçar javalis e espancar os romanos, não necessariamente nessa ordem.

A HQ desta revista é a mesma publicada no primeiro número da coleção do personagem da editora Record. Na trama, um espião romano tenta descobrir o segredo da força dos gauleses. Para tanto, os homens de César raptam o druida, mas Asterix vai tentar resgatá-lo.

Como os dois são capturados, eles bolam um plano e fazem uma poção para os romanos, que faz os cabelos, barbas e bigodes de seus adversários crescerem sem parar.

Asterix, O Gaulês

Touro Sentado, de Gordon Bess, é o destaque da edição seguinte. O mote dessa tira nada mais é do que criar as típicas situações familiares, porém vistas numa aldeia de índios.

Em Versus, Artur é um cara com complexo de inferioridade, com medo da esposa, do cunhado e, em especial, do gigante Sherman, que sempre “pisa” nele – literalmente. Um trabalho que brinca como poucos com o fracasso e mazelas do ser humano. Criação de Jack Wohl.

Já a série Mãe, de Mell Lazarus, traz uma família judia e brinca com o arquétipo da matrona – ela é superprotetora, ciumenta, fofoqueira e tem outras “qualidades”, que são levadas ao extremo para criar ótimas gags em meio ao eterno embate entre noras, cunhados, mães e filhos.

Mais material europeu veio com Lucky Luke contra Jesse James, com texto de René Goscinny e arte de Morris. Bem ao estilo do roteirista, o leitor confere divertidas situações enquanto conhece Jesse James, que queria roubar dos ricos para dar aos pobres inspirado em Robin Hood, e acompanha o inusitado embate do vilão e sua quadrilha com o caubói mais rápido que a própria sombra – óbvio que os bandidos vão se dar mal. De quebra, uma biografia de Jesse James, no final da edição.

Lucky Luke contra Jesse James

O Mago de ID, criação de sucesso de Brant Parker e Johnny Hart, mostra um rei tirano, sacana e baixinho, a donzela doida para casar, o cavaleiro covarde, um mago trapalhão, um prisioneiro cínico, o bobo da corte sempre bêbado e outros personagens marcantes, em situações politicamente incorretas.

Zezé (Hi and Lois, no original) é outra bem-sucedida criação dos polivalentes Mort Walker (Recruta Zero) e Dik Browne (Hagar). A tira traz piadas referentes ao cotidiano familiar, tema recorrente em centenas de tiras de sucesso criadas nos Estados Unidos. O curioso é que a família da bebê Zezé surgiu primeiro nas tiras do Recruta Zero, para depois ganhar série própria.

A.C. (que no original tem o título de B.C.), de Johnny Hart, mostra os homens da idade da pedra e diversos animais em situações que o autor aproveita para fazer um painel ácido do modo de vida do ser humano.

Finalmente, Iznogud traz o terrível grão-vizir que queria ser califa no lugar do califa. Mas seus planos invariavelmente acabam em enormes desastres. Texto do polivalente René Goscinny, mestre em fazer quadrinhos para todas as idades, com arte de Jean Tabary.

Apesar de antigos, não chega a ser impossível encontrar esses títulos da RGE, uma ode aos bons quadrinhos produzidos na década de 1970 ou até antes. Vale a peregrinação nos sebos e sites de leilão.

Marcelo Naranjo é um dos nostálgicos do Universo HQ. O pessoal do site desconfia que deve ter sido ele quem incentivou Angelo Agostini (1843 – 1910) a seguir a carreira de cartunista. Mas há controvérsias.

• Outros artigos escritos por

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  • Ótima recordação. Lembro mais claramente da Turma da Mônica nesse tipo de edição. É uma pena que não exista mais… Quem sabe a Pixel poderia editar algo da King nesse formato (em P&B)? Embora eu goste muito dos “Livros de Ouro”.

    • Marcelo Naranjo

      Adoro as edições da Pixel! O Flash Gordon então, ficou demais!

  • Dyel Dimmestri

    A Título De Relato:
    Podemos também lembrar das coletâneas do Garfield,neste mesmo formato,publicada inicialmente nos anos 1980 pela editora Salamandra.
    Ainda na década de 1980,a obscura editora carioca Nova Leitura também publicou os Sobrinhos Do Capitão(no caso,as tiras produzidas no período pelo desenhista A.De Cesare)em 5 volumes,com o título de “Travessuras Dos Sobrinhos Do Capitão”.
    Esta série,a “arca de Noé”,ficou mais conhecida por aqui nos jornais com o nome de A ARCA DOS BICHOS. Inicialmente desenhada por Addison,a série foi posteriormente assumida por Frank Johnson(que também foi o responsável por dar continuidade a tira “Pafúncio e Marocas”)
    Além disso,a abril publicou uma série de revistas em formato vertical com tiras do Pato Donald.
    Isso sem falar na revista FRADIM do Cartunista Henfil e na “Piratas Do Tietê”,do Laerte,que em seus primeiros números,foi no formato vertical.

    • Marco1964

      E também tem As 1001 Noites do Paulo Caruso (Circo), Geraldão do Glauco (Circo), Rango do Edgar Vasques (L&PM), As Cobras do Veríssimo (L&PM, se não me engano), Mafalda (Martins Fontes), Deus do Laerte (Olho D’Água), as tiras do Homem-Aranha (Panini)…

  • Tenho pouca coisa antiga nesse formato: Sobrinhos do Capitão, Garfield e Mafalda! Não tenho certeza se são todos da década de 70 mas acho q não!

  • Tenho algumas destas. Houve uma época que perambulei por vários sebos atrás destas coletâneas de tiras. Gostaria de ter todas elas, mas… Gostei de ler sobre isso aqui no UHQ.

    • Marcelo Naranjo

      Valeu! ;-)
      E outras matérias do gênero estão chegando logo, logo.