Arte de Castanha do Pará é censurada em exposição

Por Samir Naliato
Data: 20 abril, 2018

No último dia 13 de abril, uma exposição de quadrinhos foi inaugurada no Parque Shopping Belém, na capital do Pará. Além da mostra, a programação, que vai até o dia 30 de abril, inclui também convidados para bate-papos, palestras, cosplayers e outras atrações.

Entretanto, nos últimos dias, o que chamou a atenção foi algo negativo. A arte de capa de Castanha do Pará, de Gidaut Jr., primeira obra vencedora do Prêmio Jabuti, na recém-criada categoria Histórias em Quadrinhos, foi censurada e retirada da mostra, sendo substituída por outra arte do título.

A imagem em questão é a da capa da edição, que mostra um policial correndo atrás de um jovem com cabeça de urubu, o protagonista da história.

Arte de Castanha do Pará

De acordo com a organização da mostra, o desenho teria incomodado alguns visitantes. Informações dão conta de que policiais também teriam se sentido ofendidos, pois o desenho “fazia uma apologia ao crime”.

A trama de Castanha do Pará se passa na década de 1990, e conta as aventuras de um menino-urubu que vive pelos cenários do tradicional mercado público Ver-o-Peso, em Belém. Ele mora sob o céu aberto e sobrevive dos furtos e das migalhas de atenção que sobram do mundo ao seu redor. Leia o review da edição aqui.

Essa era uma situação corriqueira na época, e longe de estar ausente nos dias atuais. O que torna a decisão de retirar a imagem da mostra ainda mais lamentável.

Em suas redes sociais, o autor Gidalti Jr., que nasceu em Minas Gerais, mas passou praticamente a vida toda em Belém do Pará, se manifestou sobre o ocorrido.

Gostaria de declarar total repúdio aos conceitos arbitrários que classificaram a imagem como uma ofensa à polícia militar. A retirada da obra do evento é um gesto que vai contra valores fundamentais que defendo, dentre estes, a liberdade de expressão. A obra é ficcional, tem caráter lúdico e expõe situações rotineiras nas metrópoles brasileiras. Quem a compreendeu como apologia ao crime e/ou a desmoralização da polícia militar, o faz de forma leviana e sem ao menos ler o livro. A retirada da imagem da exposição é uma vitória parcial da ignorância, do medo e de forças antagônicas à liberdade.

Foto da exposição com a arte censurada

Nota oficial da exposição

Com a repercussão do caso, o shopping e a organização da exposição divulgaram uma nota oficial explicando os motivos da retirada da arte. Veja abaixo:

Diante da repercussão gerada pela retirada da obra da Exposição de Quadrinhos, o Parque Shopping esclarece que apenas cedeu o espaço em sistema de comodato para a montagem do evento. O Parque Shopping reafirma sua missão de incentivar as artes e dar luz ao trabalho de curadores e artistas paraenses.

A coordenação da mostra também se manifestou oficialmente:

A coordenação da Exposição de Quadrinhos esclarece que a decisão de retirar o desenho de Gidalti Moura Jr, ilustração que integra a obra intitulada Castanha do Pará, foi tomada em comum acordo com a curadoria do evento. Outra obra do mesmo autor será colocada na mostra.

A mudança ocorreu diante de manifestações de frequentadores do shopping que se sentiram incomodados com a cena de violência, no espaço que é frequentado por crianças.

A coordenação ressalta, ainda, que a atividade não foi criada pelo Parque Shopping, o empreendimento, apenas cedeu o espaço, gratuitamente, em sistema de comodato.

Segunda polêmica em poucas semanas

Esta é a segunda polêmica envolvendo quadrinhos em poucas semanas. Em marco, alguns pais de alunos do sétimo ano de uma escola em Vitória/ES desaprovaram a leitura da graphic novel O diário de Anne Frank (Record, 2017) e solicitaram que a edição fosse retirada das tarefas.

A obra é um adaptação em quadrinhos do clássico literário de mesmo nome. Publicado pela primeiro vez em 1947, o livro é baseada em acontecimentos reais e faz parte do cânone literário do Holocausto.

A história é sobre a garota judia Anne Frank, de apenas 13 anos, que é forçada a se esconder com a família diante das constantes ameaças dos nazistas. Em seu diário, ela narra a própria história, privada do mundo exterior, enquanto sonha em ter sua liberdade de volta.

A trama aborda preconceito, intolerância, nazismo e horrores que aconteceram no Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, mas o que incomodou os pais reclamantes foi um trecho em que a obra fala sobre o órgão sexual feminino.

De acordo com a escola, nem todos os pais reclamaram, mas a direção achou melhor suspender a leitura. A explicação para isso foi a mesma usada pela exposição no caso de Castanha do Pará: o “desconforto gerado”.

Para saber mais sobre censura nos quadrinhos, ouça o podcast Confins do Universo 002 – A censura nos quadrinhos.

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  • ninguém

    À espera das primeiras queimas públicas de livros brasileiras acontecerem.
    Já estamos, nós brasileiros, a um passo disso, dada a mentalidade retrógrada que cultivamos, cuja vergonha em assumi-la deu lugar a atitudes broncas como a relatada pela matéria acima.

  • Sílvio Raimundo

    É engraçado como ultimamente tem acontecido esse fenômeno do “desconforto gerado” em relação à arte, mas, o desconforto real da falta de saúde, segurança, educação, emprego, da falta de respeito, de moral, enfim, esse desconforto parece não existir para os brasileiros… E continuamos com a involução do País…

  • Gabriel

    A arte é pra ser desconfortável e provocadora. Lamentável.

  • Francisco Cláudio

    Gostei da arte censurada. Vou procurar adquirir essa obra.

  • Felipe Lima

    Tinha que ser.