Autores franceses ameaçam fazer greve e desistir das HQs

Por Sérgio Codespoti
Data: 13 junho, 2014

Ministra da Cultura, Aurélie FilippettiA indústria franco-belga de quadrinhos é o maior mercado de HQs do Ocidente. Mas a situação não está boa. Apesar das vendas, nos últimos anos, os autores estão bastante insatisfeitos.

Segundo um artigo do site BDZoom, a ministra da cultura da França, Aurélie Filippetti, recebeu uma carta, assinada por 748 autores de quadrinhos, protestando sobre as condições de trabalho, o aumento dos impostos e a diminuição dos salários.

Alguns dos pontos destacados na carta são:

– O empobrecimento que vem acometendo os autores de quadrinhos devido à redução dos adiantamentos, a redução das porcentagens sobre as vendas e o aparecimento de um número quase ilimitado de fórmulas para vender HQs digitais que não remuneram ninguém exceto os distribuidores.

– O agravamento da situação, devido a uma carta do RAAP – Régime de retraite complémentaire des artistes et auteurs professionnels (Pensão suplementar de artistas e autores profissionais), enviada pelo correio, sem nenhum tipo de consulta ou negociação de qualquer tipo, na qual a entidade informa que, a partir de janeiro de 2016, os autores terão que contribuir com 8% de suas rendas para financiar sua pensão complementar obrigatória. Atualmente, cada autor pode contribuir a essa instituição privada pagando uma taxa mínima de 200 euros por ano.

– Os autores não se beneficiam de nenhuma das outras vantagens oferecidas a outros, como férias pagas, 13º salário ou auxílio-desemprego.

– As mudanças do RAAP são consideradas injustas e inaceitáveis.

– A nova contribuição representaria o equivalente à renda de um mês de trabalho, sendo que os autores ganham valores diferentes e muitos abaixo do salário mínimo e têm dificuldade para pagar os impostos e sobreviver .

– Os autores são favoráveis a um sistema de pensão fixa, e não se opõe a uma reforma justa e equilibrada.

– Qualquer reforma precisaria considerar o fato de que metade dos autores de quadrinhos não recebem nem mesmo o salário mínimo – na França ele é de 1.445,38 euros por mês, ou 9,53 euros por hora de trabalho. Na Bélgica, os valores variam dependendo da idade do trabalhador e do seu tempo de serviço, mas estão situados na faixa de 1.500,82 euros a 1.559,38 euros por mês.

– Depois desse anúncio, vários autores, entre eles alguns que estão em posição precária e outros que já venderam milhares de álbuns, decidiram abandonar a profissão e procurar outras áreas de atuação. Se a situação não se modificar, muitos outros seguirão esse caminho.

– Num país onde o desemprego está crescendo, os autores de quadrinhos não apenas criam seus próprios empregos, mas são responsáveis por centenas de outros.

– Em termos econômicos, a indústria do entretenimento é a quarta mais rentável da França. Sem mencionar a vitrine que representa para o público estrangeiro. O mercado livreiro – como um todo – emprega aproximadamente 80 mil pessoas e gera uma receita de 5,6 bilhões de euros (na França). Nós, os autores, somos a origem dessa riqueza.

– Pedimos que a implementação dessa reforma seja suspensa e que a Sra. Ministra pense em como avançar de uma maneira que essa reforma financeira crie um verdadeiro progresso social. Existem outros exemplos de sistemas de pensão no qual as empresas que atuam junto com os autores colaboram com esse financiamento sem que isso cause grande perdas líquidas.

– Caso não existam mudanças ou diálogo, em setembro de 2014 organizaremos ações coletivas e de mídia em oposição a isso e utilizaremos de todos os meios legais permitidos.

– Ideias não faltam , afinal esse é o nosso negócio.

A carta é assinada por “Os autores, Grupo de História em Quadrinhos do Sindicato Nacional de Autores e Compositores”.

O presidente do RAAP, Frederick Buxin, respondeu às críticas numa carta curta, dizendo que as mudanças só ocorrerão em 2016, permitindo ampla oportunidade de negociação e que já está negociando acordos com o governo. A resposta não agradou aos autores – que até agora continuam sem participar diretamente do processo de discussão. Pelo contrário, os deixou irritados.

A Ministra Aurélie Filippetti garantiu que está procurando soluções para o problema.

Dentre os autores que aparentemente desistiram de fazer quadrinhos estão Philippe Bonifay e Bruno Maiorana.

Aproximadamente 1.500 autores vivem exclusivamente de quadrinhos na França.

Abaixo alguns dos nomes da lista dos 748 autores que assinam a carta.

  • Gotlib – Officier des Arts et Lettres, Chevalier de la Légion d’Honneur, vencedor do Grand Prix d’Angoulême e Mad Award;
  • Enki Bilal – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Jacques Tardi – vencedor do Grand Prix d’Angoulême e Prêmio Eisner;
  • Frank Margerin – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Jean-Claude Mezières – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Régis Loisel – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • André Juillard – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Martin Veyron – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Baru – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Daniel Goossens – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Florence Cestac – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Charles Berberian – vencedor do Grand Prix d’Angoulême e Prêmio Inkpot;
  • Philippe Dupuy – vencedor do Grand Prix d’Angoulême e Prêmio Inkpot;
  • Jean-Claude Denis – vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Lewis Trondheim – Chevalier des Arts et Lettres e vencedor do Grand Prix d’Angoulême;
  • Pénélope Bagieu – Chevalier des Arts et Lettres;
  • Christophe Blain – Chevalier des Arts et Lettres;
  • Jean-Yves Ferri – Chevalier des Arts et Lettres;
  • Philippe Geluck – Chevalier des Arts et Lettres e Ordre de la Couronne de Monaco;
  • Yslaire – Chevalier des Arts et Lettres;
  • Voutch – Commandeur des Arts et Lettres;
  • Benoît Sokal – Chevalier des Arts et Lettres;
  • Riad Sattouf – Vencedor dos prêmios César de Melhor Filme de Estreia e Prêmio de Melhor Álbum do Festival Internacional de Angoulême;
  • Joann Sfar – Vencedor dos prêmios César de Melhor Filme de Estreia e César de Melhor Filme de Animação;
  • Manu Larcenet;
  • Christophe Arleston;
  • Pascal Rabaté;
  • François Bourgeon;
  • René Petillon;
  • Etienne Davodeau;
  • Alejandro Jodorowsky;
  • Juanjo Guarnido;
  • Denis Bajram;
  • Cyril Pedrosa;
  • Eric Corbeyran;
  • Didier Convard;
  • Jean-Pierre Dionnet;
  • Xavier Dorison;
  • Jean Dufaux;
  • Fabien Nury;
  • Mathieu Lauffray;
  • Fabien Vehlmann;
  • Emmanuel Lepage;
  • Maëster;
  • Serge Le Tendre;
  • Nicolas Tabary;
  • Nicolas De Crecy;
  • Lorenzo Mattotti;
  • Jean-David Morvan;
  • Frank Giroud;
  • Patrice Pellerin;
  • Chabouté;
  • Bengal;
  • Max Cabanes;
  • Manuele Fior;
  • Stéphanie Hans;
  • Herval;
  • Benoît Peeters;
  • David Sala;
  • Hervé Tanquerelle;
  • Jean-Louis Tripp;
  • Olivier Vatine;
  • Claire Wendling;
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