Conheça mais detalhes sobre o álbum Na Trilha do Prazer

Por Marcelo Naranjo
Data: 18 julho, 2003

Na Trilha do PrazerO
álbum Na
Trilha do Prazer
(formato 16 x 23 cm, 144 páginas, R$ 24,00),
da Opera
Graphica
, causou confusão ao ser assinado por um artista com o
sobrenome “Zéfiro”. Confira a seguir a explicação da editora:

Nos anos 80, com a abertura da censura em nosso país, surgiram nas bancas
as primeiras revistas de quadrinhos eróticos brasileiros. Uma editora
de Curitiba/PR, chamada Grafipar, teve esta iniciativa. O trabalho
de um jovem artista, devido aos seus desenhos vigorosos e roteiros irônicos,
mereceu destaque dos demais. Seu nome: Sebastião Seabra.

Poucos anos depois os quadrinhos eróticos passaram a ser pornográficos
e Seabra resolveu adotar um pseudônimo – para desvincular seu nome deste
gênero, porque ele estava também se dedicando à área de ilustração didática.
Resolveu assinar Sebastião Zéfiro. É que a palavra “Zéfiro” era uma espécie
de código, que alguns quadrinhistas da “geração Grafipar” utilizavam ao
se referirem ao gênero em que trabalhavam, para não dizerem as palavras
“sacanagem” ou “quadrinhos eróticos” diante de pessoas desinformadas.

Era uma homenagem a Carlos Zéfiro, nome de um misterioso autor de mini-gibis
pornográficos que circularam no início dos anos 60, em edições vendidas
às escondidas por jornaleiros e livreiros em todo o país. Ninguém sabia
de onde vinham aqueles gibis.

“Zéfiro era um nome esquisito. Uma espécie de código de nossa geração.
Adotei por ser uma referência contra o sistema e a censura que nos oprimia.
Quando passei a assinar com esta marca, por volta de 1983, também começamos
a publicar os quadrinhos de Carlos Zéfiro, revelando para uma nova geração
os clássicos brasileiros da sacanagem, que muitos passaram a cultuar a
partir dali” – lembra Seabra, que ajudou a editar as revistas Sexo
em Quadrinhos
e Close, Quadrinhos Eróticos, da editora Maciota.

Aos poucos, nos anos seguintes, o nome Zéfiro ganhou status. Tanto o de
Carlos quanto o de Sebastião. O respeitado jornalista e intelectual Geraldo
Galvão Ferraz escreveu um dos primeiros artigos sobre este tema. Logo,
o jornalista e cartunista Otacilio D’Assunção Barros, o Ota, da revista
Mad, escreveu um livro que também coletou algumas das revistinhas
de Carlos Zéfiro e logo se tornou um best seller da Editora
Record
, merecendo várias reimpressões.

Sebastião Zéfiro foi alçado à condição do mais solicitado autor do gênero
nos gibis de sexo explícito brasileiros. Principalmente devido à alta
qualidade de seus desenhos.

Com o passar dos anos os nomes desses autores foram se confundindo. Sebastião
Zéfiro teve seus trabalhos pirateados por editores europeus e também publicados
oficialmente na Europa. Enquanto Ota não suportava o assédio da mídia
a respeito do misterioso e secreto Carlos Zéfiro, que nem ele sabia quem
era, pois os gibizinhos assinados por Carlos Zéfiro eram irregulares e
grotescos. Não pareciam feitos por uma mesma pessoa e sim por uma equipe.
Havia unidade de estilo apenas no acabamento.

O tempo avançou e outro jornalista, Worney Almeida de Souza, autor do
fanzine Quadrix, descobriu que Carlos Zéfiro decalcava seus desenhos
de gibis românticos mexicanos, misturando cenas tórridas com quadros de
sexo explícito decalcados de páginas de revistas de fotonovelas pornográficas
suecas muito comuns no Brasil no início das décadas de 1960 e 1970.

“A mídia é muito tonta. Trabalho nela e sei como é. Fabricam-se mitos
apenas com o fato da repetição de informações que ninguém sabe de onde
partiu”, diz Seabra. “Muitos perguntam se sou filho ou neto do Carlos
Zéfiro. E a maioria não consegue distinguir minha obra da dele. A verdade
é que ninguém conhece o meu trabalho nem o dele. Só estão repetindo o
que ouviram falar”, completa o artista.

O nome de Carlos Zéfiro só passou a ser badalado quando a revista Playboy
investiu no tema. E revelou com muito estardalhaço quem realizava os “catecismos”.
Nome este dado às tais “revistinhas” proibidas dos anos 1960, que doutrinavam
a iniciação sexual da juventude brasileira. A Playboy identificava
então um senhor de sobrenome Caminha, que veio a falecer logo depois,
como o famoso Carlos Zéfiro. E que aquele senhor jamais havia antes se
revelado por ser um funcionário público aposentado que temia perder seus
benefícios.

A famosa revista masculina ignorou a existência de Sebastião Zéfiro, ídolo
de pequenas revistas concorrentes que já abocanhavam uma boa fatia do
mercado erótico. Assim como ignorou a existência de Barbosa, conhecido
quadrinhista baiano que desenhava para a Rio Gráfica nos anos 1950
e 1960, que se identificou como o verdadeiro Carlos Zéfiro – enquanto
que o senhor Caminha nem sequer comprovou que sabia desenhar, sendo apenas
identificado pelo gráfico que imprimia os catecismos e encomendava a ele
as histórias, mas que também nunca o havia visto realizar qualquer desenho.

O fato é que cerca de 20 anos antes de Sebastião Zéfiro havia um desconhecido
Carlos Zéfiro. Que o próprio Sebastião tratou de mitificar ao adotar tal
pseudônimo e a incentivar a publicação dos clássicos dos anos 60 nos gibis
da Editora Maciota, nos quais os dois Zéfiros foram publicados,
lado a lado, por alguns anos.

A editora Opera Graphica distingue os dois Zéfiros da seguinte
maneira:

Carlos Zéfiro é o pseudônimo de uma equipe de autores da marginalidade,
que sabiam narrar com mestria excelentes histórias pornográficas. Obras
desenhadas com um único quadrinho por página. Impressas no Rio de Janeiro.
Que educou sexualmente os brasileiros dos anos 60 de forma preconceituosa.

Sebastião Zéfiro é o pseudônimo de um artista reconhecido e de renome
internacional. Considerado como um dos melhores anatomistas de toda a
história das artes gráficas brasileiras. E que escreve histórias pornográficas
repletas de bom humor, que vem quebrando os tabus e preconceitos criados
por aqueles que foram educados pelos “catecismos”. Ele realiza obras com
total domínio da linguagem dos quadrinhos. Com acento ao “noir” e ao policial
“chandleriano”. Um artista que se diverte realizando o que gosta: quadrinhos
eróticos autenticamente brasileiros e irônicos.

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