Ediouro desiste de comprar a Conrad

Por Sidney Gusman
Data: 22 setembro, 2008

Conrad EditoraA
Ediouro
desistiu de comprar a Conrad.
“Após realizarmos uma auditoria na editora, achamos que não valia a pena.
O preço que nos foi pedido era acima do que gostaríamos de pagar”, declarou
Luiz Fernando Pedroso, diretor-geral da Ediouro, ao Universo
HQ
, sem revelar valores, por telefone, no dia 19 de setembro.

Pedroso garante que a Pixel – cujos lançamentos deram uma diminuída
nos últimos meses em virtude dessa quase parceria com a Conrad
– continuará sua operação normalmente.

Ediouro e Conrad vinham negociando há meses e um acerto
esteve realmente próximo de acontecer. No dia 8 de julho, Pedroso
disse à Folha Online
que até o final daquele mês as negociações
deveriam estar encerradas.

No entanto, nos vários contatos que o Universo HQ fez com Rogério
de Campos, diretor da Conrad, a informação era sempre a mesma:
existia a negociação, mas não apenas com a Ediouro.

Portanto, a Conrad continua à procura de um grande grupo editorial
que esteja interessado em adquirir seu imponente catálogo de quadrinhos
– especulam-se os nomes do espanhol Santillana,
da Editora Sextante
e até da Abril.
Como se daria essa possível associação é uma informação que permanece
em sigilo. No caso da Ediouro, por exemplo, o interesse era apenas
pela área de HQs; os livros que a Conrad publica ficariam fora
do acordo.

Também existe a possibilidade de que o comando da área de quadrinhos,
mesmo após a aquisição, continue sob o comando de Rogério de Campos, em
virtude de seu conhecimento do mercado.

Há mais de um ano, a Conrad vem enfrentando dificuldades financeiras
– o que, infelizmente, acontece também com outras casas editoriais brasileiras.
Títulos regulares passaram a sofrer atrasos significativos, casos de One
Piece
, Battle Royale, Monster e Sanctuary, segundo
a editora, em virtude da renovação dos contratos. Também é fato que está
havendo algumas “queimas” de estoque de seus produtos em algumas livrarias
e inclusive na Loja
Conrad
, que pratica descontos de até 50% em determinados títulos.

EdiouroO
que mudaria

A parceria Ediouro e Conrad, se concretizada, traria grande
impacto para o mercado. A editora carioca não se tornaria líder de quadrinhos
do Brasil, como chegou a ser divulgado na imprensa, mas o segmento – especialmente
nas bancas – ficaria praticamente polarizado entre ela e a Panini.

Como a Ediouro é dona da Pixel
Media
, a intenção era unificar as duas operações em uma, que abrangeria
não apenas os títulos da Vertigo, ABC e WildStorm
e europeus (Corto Maltese e obras de Milo Manara e Guido Crepax),
mas também os mangás, materiais underground e obras nacionais,
que viriam da Conrad. Seria formado, sem dúvida, um catálogo de
respeito.

A forma como isso impactaria no mercado iria além do que o leitor vê nas
prateleiras. Com tamanho “poder de fogo”, Ediouro e Panini
certamente teriam mais facilidades para fechar contratos com editoras
estrangeiras – nessas negociações, um bom catálogo de títulos faz diferença.

Nas bancas, por exemplo, com a saída da Globo
e a presença cada vez menor da Abril, sobrariam a JBC,
que só publica mangás; a Mythos,
que além dos fumetti tem Conan e Hellboy e funciona
como estúdio de produção dos títulos da Panini; a Lumus
e a HQM,
ambas com participações muito pequenas.

E nas livrarias, certamente, Devir,
Zarabatana,
Via Lettera
e HQM encontrariam mais dificuldades para negociar títulos “de
peso” estrangeiros.

A outra mudança que a união da Ediouro e da Conrad efetuaria
seria nos bastidores do mercado de quadrinhos. Desde que André Forastieri
deixou a sociedade da Conrad, em 2005, e montou a Futuro Comunicação
(cujo nome real é Nemo Comercio Importação e Exportação
e era uma das donas da Pixel), a relação com Rogério de Campos
ficou muito ruim.

Pixel Media
O UHQ apurou, pela internet, junto ao Tribunal de Justiça do
Estado de São Paulo
que, em julho de 2007, passou a correr na justiça
um processo da Conrad contra André Forastieri, a Nemo e
a Pixel Media. A alegação é de que Forastieri teria descumprido
os termos estabelecidos numa “carta-acordo” com Rogério de Campos e também
teria havido uma “eventual violação ao dever de sigilo profissional pactuado,
assim como prática de concorrência dentro do período estipulado em contrato”.
O valor inicial da causa é de R$ 100.000,00. Mas hoje está bem maior.

Na prática, Campos entende que Forastieri se beneficiou do know-how
obtido enquanto também foi diretor da Conrad no fechamento dos
contratos da Pixel. Ambos são bastante conhecidos no mercado de
quadrinhos desde o final dos anos 80. Rogério editava a revista Animal
e André mantinha uma páginas sobre quadrinhos na Folha de S.Paulo,
que saía todas as segundas-feiras.

Tempos depois, Rogério de Campos substituiu André Forastieri na Folha
e, em virtude de terem se tornado muito amigos, montaram juntos a Conrad,
em 1993. Nenhuma das partes quis dar declarações oficiais a respeito do
processo.

Caso a negociação com a Ediouro desse certo, possivelmente a Conrad
abriria mão do processo, que, afinal, é movido também contra a Pixel,
que agora pertence somente à editora carioca – desde junho de 2008 a Futuro,
de André Forastieri, não tem mais participação no negócio, pois vendeu
os 20% de que era dona.

Com o fim das negociações (ao menos por enquanto) com a Ediouro,
essa pendenga jurídica deve continuar. E aumentou recentemente. Em julho
deste ano, André Forastieri abriu um processo contra Rogério de Campos
e a Conrad, cobrando aluguéis atrasados do prédio que serve de
sede para a editora – o edifício, no bairro do Cambuci, em São Paulo,
ainda pertence aos dois ex-sócios. O valor inicial da causa é de R$ 122.093,39.

Neste mês de setembro, a Conrad não divulgou sequer o checklist
de lançamentos. Para o mercado de quadrinhos é vital que a editora (talvez
a mais premiada na história do HQ Mix) se recupere o mais rápido
possível. E para o leitor também, pois há diversas séries em andamento,
casos de Vagabond, Monster, Sanctuary, One Piece
etc.

Por isso, o Universo HQ continuará apurando o desenrolar dos fatos
e informará seus leitores assim que algo novo acontecer.

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