Faleceu Frank Giroud, um dos maiores escritores das HQs franco-belgas

Por Sérgio Codespoti
Data: 16 julho, 2018

Frank GiroudO roteirista francês Frank Giroud, escritor da série Decálogo, faleceu no último dia 13 de julho, aos 62 anos. Há anos ele lutava contra uma enfermidade, cuja natureza não foi divulgada pela família.

Frank Norbert Henri Giroud-Bit nasceu em 13 de maio de 1956, em Toulouse, na França. Estudou História, cursou a École des Chartes, em 1977, mas abandonou o curso antes de obter o diploma de arquivista paleográfico.

Antes de se dedicar aos quadrinhos, teve diversas profissões e viajou muito. Morou na Itália e no Brasil, e perambulou pela África, Europa e Ásia.

Em 1978, começou a se dedicar aos quadrinhos produzindo roteiros curtos para editoras como Fleurus, Milan e Larousse.

Para essa última, fez HQs para as coleções La Découverte du Monde en Bandes Dessinées e L’Histoire du Far-West, publicadas entre 1978 e 1982. Os desenhos ficam a cargo de nomes como Alarico Gattia, José de Huescar, Pierre Frisano, José Bielsa e Paolo Eleuteri Serpieri.

Junto com o desenhista Pierre Brouchard publicou as HQs Zoom e Pages d’histoire, no semanário Fripounet et Marisette, da Fleurus.

Giroud se associou ao desenhista Jean-Paul Dethorey para produzir algumas histórias, como Big Boogie e Les Enquêtes de L’Inspecteur X, para a revista escolar Amis-Coop.

Em 1982, a carreira de Giroud começou a decolar com a publicação, pela editora Glénat, do primeiro volume da série Louis la Guigne, com arte de Dethorey.

Originalmente, a história foi lançada em partes na revista Circus – e posteriormente na Vécu. Foram publicados 13 álbuns de Louis la Guigne, num período de 15 anos. O último deles, Lo Zio, foi lançado em 1997.

Em 1984, ele escreveu Chaman, uma história policial com elementos fantásticos ilustrada por Ab’Aigre (pseudônimo de Pascal Habegger) e publicada na revista mensal especializada em HQs de crime e mistério Ice Crim’s. Posteriormente, o material foi lançado em um álbum da Coleção Espresso.

Les Patriots, série histórica da Glénat, com três volumes, foi criada por Giroud e Fabien Lacaf em 1988.

Louis la Guigne - volume 1Mandrill - Volume 1

Foi como consequência de Les Patriots, que surgiu Missouri, em 1989, que também tem três edições publicadas pela Dupuis (na coleção Repérages), com arte de Daniel de Carpentrie. Originalmente, essa HQ saiu no semanário Spirou.

Ainda em 1989, Giroud escreveu o faroeste Jackson – em quatro volumes –, com arte de Marc Renier, publicado pela editora Lombard.

Junto com Alain Mounier, Giroud produz o thriller policial Tango, uma edição solo da Glénat.

Entre 1990 e 1991, Giroud e Lax (pseudônimo de Christian Lacroix) publicaram os dois volumes da série Les Oubliés D’Annam (editora Dupuis, coleção Aire Libre). Essa parceria continuaria com La Fille aux Ibis (1993) e com dois volumes de Azrayen’ (1998 e 1999).

Ainda em 1991, Giroud se associou a Philippe Tarral e produziu Le Crépuscule des Braves, lançado pela Lombard.

No mesmo ano, ele lançou, junto com o desenhista Norma (pseudônimo de Norbert Morandière), Le Passe des Cyclopes, a primeira HQ da série histórica Pieter Hoorn, na revista Vécu. A série mudaria de editora e teve seus três volumes publicados pela Glénat.

Seu próximo trabalho foi Zoltan – Chants de Guerre, com arte de Luc Brahy, publicado pela Vents D’Ouest.

Em 1995, lançou Eva K., com arte do desenhista do antigo Zaire – hoje República Democrática do Congo – Barly Baruti (pseudônimo de Baruti Kandolo Lilela). Eva K. é uma série policial com três álbuns publicados pela editora Soleil Productions.

Giroud retornou aos roteiros históricos com os três volumes de Taïga, lançados entre 1995 e 1998, pela Glénat, com arte de Joëlle Savey.

Em 1998, Giroud publicou duas novas séries, ambas pela Glénat: Mandrill e Louis Ferchot.

A série Mandrill tem sete volumes publicados, todos eles com arte de Baruti. O último deles, La Nasse, foi lançado em 2007.

Louis Ferchot é uma série derivada de Louis la Guigne e conta as aventuras desse personagem em sua juventude. Foram lançados oito volumes, todos com arte de Didier Courtois. O desenhista da série original, Dethorey, faleceu em 1999, aos 64 anos.

Em 2001, Giroud iniciou a publicação de sua obra mais famosa, O Decálogo (Le Décalogue). São dez volumes, com arte de Béhé (pseudônimo de Joseph Griesmar), Giulio De Vita, Jean-François Charles, TBC (pseudônimo de Tomaz Lavric), Bruno Rocco, Alain Mounier, Paul Gillon, Lucien Rollin, Michel Faure e Franz (pseudônimo de Franz Drappier).

O emprego de dez artistas permitiu que a Glénat publicasse toda a obra entre 2001 e 2003. Ainda em 2003, foi publicado um último livro da série, com enredo de Luc Révillon e Frank Giroud, com cinco HQs curtas, desenhadas por TBC, Mounier, Rocco, Faure e Rollin.

A série Decálogo gerou duas continuações: Le Décalogue – le Légataire, de Giroud com arte de Camille Meyer e Béhé, com cinco volumes; e Le Décalogue – Les Fleury-Nadal, de Giroud, com arte de Lucien Rollin, Daniel Hulet, Didier Courtois e Gilles Mezzomo, com seis volumes.

Le Decalogue - volume 1Le Cercle de Minsk- volume 1

Outra série com início em 2003, com roteiro de Giraud, foi L’Expert, que tem desenhos de Brada (Miroljub Milutinović Brada), artista nascido em 1962, na Sérvia (antiga Iugoslávia). A Glénat publicou quatro volumes, o último deles em 2007.

Em 2005, publicou a série Quinttet, com cinco volumes – e uma edição especial feita em parceria com Luc Révillon – lançados pela editora Dupuis, com artes de Giulio De Vita, Cyril Bonin, Paul Gillon, Steve Cuzor, Jean-Charles Kraehn, Giancarlo Alessandrini e Uriel (pseudônimo de Michel Gibrat, irmão de Jean-Pierre Gibrat)

No ano seguinte, Giroud lançou Le Circle de Minsk, série em cinco volumes, com arte de Jean-Marc Steiner, publicada pela editora Albin Michel.

Em 2010, lançou mais uma série coletiva, Destins, pela Glénat. São dez volumes com artes de Michel Durand, Dahpné Collignon, Luc Brahy, Yves Lécossois, Daniel Hulet, Espé (pseudônimo de Sébastien Portet), Gilles Mezzomo, Jean-Luc Serrano, Loïc Malnati, Olivier Berlion e Sébastien Goethals.

Alguns roteiros foram feitos em parceria com outros escritores. Le Fils, foi escrito junto com Virginie Greiner; Le Piége Africaine, com Pierre Christin; Paranöia, com Valérie Mangin; Le Fantôme, com Éric Corbeyran; Déshonneurs, com Kris (pseudônimo de Christophe Goret); Un Belle Histoire, com Rodolphe (pseudônimo de Rodolphe Daniel Jacquette); Family Van, com Philippe Bonifay; Le Procès, com Denis Lapière; e Le Mur, com Florent Germaine.

Outras obras do escritor incluem: Madagascar, com Laurent Vimconte (2001); L‘Écorché, com roteiro feito em parceria com Florent Germaine e arte de Ruben Pellejero (2006); Samsara (dois volumes, parte da série Secrets), com Michel Faure (2007); Pâques avant les Rameaux, um volume da série Secrets, com texto coescrito por Virginie Greiner e arte de Marianne Duvivier; Secrets- Cavale (2013), obra em três volumes, com arte de Florent Germaine e Magda – pseudônimo de Magda Seron); XIII Mystery – Martha Shoebride, lançado em 2015, com arte de Colin Wilson; L’Avocat, série em três volumes, da Le Lombard, escrita em parceria com Laurent Galandon e ilustrada por Frédéric Volante; Le Vétéran, dois volumes lançados pela Glénat, em 2017, com arte de Gilles Mezzomo.

Seu último trabalho é a HQ Churchill et Moi, com arte de Andréa Cucchi, que foi lançada pela Casterman, no final de junho.

Frank Giroud também foi o letrista da cantora francesa Juliette Noureddine.

Em 2002, ele ganhou o prêmio Max un Moritz – premiação da HQ alemã que existe desde 1984 – de melhor roteirista internacional. Em 2006, foi o vencedor do Prix Uderzo, uma premiação criada por Sylvie Uderzo e promovida pela Éditions Albert René.

• Outros artigos escritos por

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  • Pedro Bouça

    Uma enorme perda para os quadrinhos. Embora desconhecido no Brasil, Giroud era um dos mais talentosos argumentistas do quadrinho mundial.

    • Leandro Banner

      Desconhecido, infelizmente, porque aqui no Brasil nenhuma editora tem coragem suficiente para investir em publicações das pérolas europeias dos quadrinhos, que não são poucas. Reflexo, talvez, da nossa própria limitação mental!

      • Pedro Bouça

        Agora já há algumas editoras que investem, só que o retorno ainda é muito limitado.

  • Brontops

    Algumas edições portuguesas de O Decálogo foram encontradas em poucas livrarias daqui do Brasil.

    Pensei que seria algo como o Decálogo de Kieslowsky, uma série de histórias modernas comentando a relevância (ou não) dos princípios dos mandamentos . O que me fez não me animar muito com a série.

    Porém – diferente do que imaginava – as histórias (fechadas, com pouca ou nenhuma integração umas com as outras) vão penetrando passado adentro, seguindo a pista de uma tábua com mandamentos ligeiramente distintos do bíblico.

    Esse número 4 – Não levantar falso testemunho – é brilhante, uma das melhores hqs realistas que já li. Mais tarde, descobri que havia muitos elementos reais integrados à história.

    • Pedro Bouça

      Essa série é muito inteligente. Uma obra-prima!

  • Jotape Ferreira

    Que Descanse em Paz.