FIQ corre risco de não acontecer neste ano

Por Samir Naliato
Data: 11 abril, 2017

O FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte é realizado a cada dois anos, desde 1999. Com o apoio da prefeitura da cidade, por meio da Fundação Municipal de Cultura, se tornou o principal evento dedicado aos quadrinhos do Brasil.

A nona edição aconteceu de 11 a 15 de novembro de 2015, na Serraria Souza Pinto. Assim, seguindo o formato de bienal, este ano deveria ser comemorada a décima realização do FIQ.

Mas isso corre sério risco de não se concretizar.

O calendário oficial de eventos de Belo Horizonte não traz o FIQ listado em nenhuma data. Tradicionalmente, o festival acontece no mês de novembro, o que passou a ser tema de preocupação devido à proximidade com a CCXP, com apenas duas semanas de diferença – isso foi abordado até em um episódio do podcast Confins do Universo.

Essa ausência chamou a atenção e causou estranheza. Além de não incluir o FIQ, a programação orçamentária da Fundação Municipal de Cultura deixa de fora outras ações tradicionais da cidade, como a Virada Cultural e o FAN – Festival de Arte Negra.

FIQ - Festival de Quadrinhos de Belo Horizonte

A Câmara Municipal de Belo Horizonte divulgou dados da Lei do Orçamento Anual para 2017. Os recursos para a cultura são de R$ 62 milhões à Fundação, com mais R$ 12 milhões destinados ao Fundo de Projetos Culturais. A previsão de investimento real deve ser a metade, algo em torno de R$ 31 milhões destinados à FMC e R$ 5 milhões ao FPC.

Deste total, a fundação deve investir boa parte em sua estrutura, reservando pouco mais de R$ 7 milhões para as atividades da pasta.

Ainda segundo reunião na Câmara Municipal, o FIQ 2017 foi orçado em R$ 900 mil, de acordo com previsão feita em 2016. Este valor viria direto dos fundos do tesouro. A captação, via leis de incentivo, pode complementar ou substituir este montante, caso haja algum corte.

Mesmo com todos este imbróglio e informações desencontradas, até o fechamento deste artigo não houve confirmação oficial de nenhuma parte sobre a não realização do FIQ.

Posição oficial sobre o caso

O Universo HQ entrou em contato com a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte algumas vezes nos últimos dias, tanto por telefone quanto por e-mail, para buscar esclarecimentos sobre o assunto.

Foi informado que o órgão não responderia nenhuma pergunta sobre o tema, mas uma nota oficial explicando a situação seria divulgada.

Cinco dias após a previsão inicial, a nota ainda não foi enviada.

O Universo HQ a divulgará na íntegra tão logo seja disponibilizada pela Fundação.

FIQ 2015

Repercussão

Em virtude da possibilidade da não realização, começou um movimento de diversos setores do meio, desde quadrinhistas até jornalistas e editores, com o objetivo de chamar a atenção ao problema e pensar em alternativas para o FIQ continuar.

Em Belo Horizonte, um grupo de artistas locais se organizou e prepara ações políticas e de sensibilização para gerar um maior debate sobre o tema.

“Após a grande repercussão da notícia nas redes sociais, fizemos uma convocação e promovemos um debate. Foram levantadas uma ampla diversidade de assuntos, questionamentos e conclusões de grande importância. O grupo definiu ações de manifesto e a construção de uma estratégia conjunta. Estamos acompanhando o que acontece no campo político da cultura da cidade, que anda passando por um período de transição neste momento, para definir nossa melhor estratégia de ação”, destaca o porta-voz do grupo, o ilustrador Régis Luiz.

Dentre as iniciativas dos artistas estão a busca pelo apoio de empresas e um levantamento de informações históricas relativas aos eventos. O grupo também prepara contatos políticos com a fundação, vereadores e o prefeito, Alexandre Kalil, em busca de soluções.

Grupo de artistas de Belo Horizonte se reúnem para debater futuro do FIQ

• Outros artigos escritos por

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  • Ultra #FICAFIQUISTA

    #FICAFIQ !

  • Lucas Saad

    Poderiam pensar também em algum tipo de financiamento coletivo na internet pra complementar o custo, talvez fosse uma outra saída

    • Igor Marques

      Não é possível. Ou é no mínimo complexo. 900 mil reais é muito dinheiro para um financiamento coletivo e um evento desse porte não tem como fazer com menos. Foi discutido na reunião.

      Estamos pensando nas alternativas, mas financiamento nesse caso é muito complexo. Fora que por se tratar de um evento público e muitos dos visitantes serem crianças da rede pública de ensino tem outras dificuldades.

      • Moroni Machado

        Por que o FIQ precisa de 900 mil, o espaço não é público? os artista não tem que pagar pela mesa (hotel,transporte, alimentação)? Por que precisa trazer artistas internacionais já que tem tanto artistas feras nacionais? O marketing custa tão caro assim?

        • Igor Marques

          O espaço não é público. O artistas internacionais vem em parcerias, como com embaixadas e empresas, o evento geralmente não paga pela participação deles. O evento não anuncia não TV igual a CCXP.

          A informação do valor é da Prefeitura. Não sei os detalhes discriminados.

          • Stephan

            Ainda assim, tal valor, diante das atuais circunstâncias, poderia ser melhor empregado em áreas como Segurança e Saúde, que estão à míngua. Não seria o caso de se adiar o evento até que as coisas melhorem um pouco?
            Da mesma maneira que não é correto o gasto de dinheiro público com Carnaval, Copa e eventos afins(cujas lucratividades, aliás, são questionáveis) também não o é para outros voltados ao público “nerd”, por mais que eles tenham a importância cultural merecidamente reconhecida.

          • Larrous

            Carnaval é ópio do povão.
            FIQ é ópio nerd. E deste ópio eu não abro mão, rsrs.

          • Stephan

            Boa sorte então, ainda mais se a caminho do FIQ você for assaltado por falta de segurança e se, dependendo da situação, você precisar ser atendido em alguma unidade de saúde municipal…
            O problema do Brasil é inverter as prioridades: muitas “autoridades” agem como se estivéssemos em Primeiro Mundo, onde, de fato, eles podem se preocupar em gastar milhões do dinheiro público em eventos semelhantes, pois, além desses eventos darem retorno financeiro – coisa que não acontece por aqui, onde o prejuízo é líquido e certo para os contribuintes – muitos de seus problemas básicos foram, ao menos, consideravelmente diminuídos.
            Ópio por ópio, que sejam gastos então recursos privados, já que tem muita gente por aí dizendo que Quadrinhos dá bastante dinheiro, certo? E se assim o é, por que a necessidade do Erário bancar tudo isso?
            Outro detalhe que chama a atenção: nesses anos todos de FIQ, nenhuma editora de quadrinhos sequer surgiu na “capital dos botecos” ou seja, um dos argumentos usados para a sua promoção – a de que ele fomentaria a produção local/nacional – não procede, a não ser que você leve em conta os quadrinhos publicados ocasionalmente por valorosos artistas independentes, os quais, não raro, são obrigados a se valerem de plataformas como as do Catarse para verem o seu produto chegarem às mãos dos leitores.
            Onde estão as prometidas editoras FIXAS(e não aquelas que duram alguns meses, no máximo) que surgiriam na esteira desses tipos de eventos? Que eu saiba, não chegam a dez, destacando-se a Marsupial e a Nemo, entre outras.

          • Larrous

            Stephen, acho mesmo que o FIQ não deveria ter dinheiro privado, senão vira CCXP, com ingressos a mais de R$100,00. Nem todo mundo tem essa grana. Já que falei em dinheiro… Quem disse que rende a esse ponto? Aqui no Brasil tem pouca editora e uma andorinha só não faz verão. Se desse tanta grana, tinha editora abrindo a torto e a direito e fazendo muito sucesso. Quanto às promessas do FIQ, se isso foi mesmo prometido, foi ridículo, mas não invalida o público alcançado.
            No mais, concordo que precisamos mesmo de mais investimento em outras áreas mas, convenhamos, se soubéssemos escolher bem os nossos representantes, não precisaríamos discutir isso. Escolhemos pessoas com processos judiciais por diversos crimes financeiros, inaptas ou simplesmente de má vontade com o povo. Não pense que tirar o FIQ vai resolver, nem carnaval, nem qualquer outra coisa. Esse dinheiro vai continuar indo pro bolso de alguém. Prefiro que vá pro FIQ, então.

          • Stephan

            Uma parte do patrocínio da CCXP é público, o que torna mais gritante ainda o fato de se cobrar esse absurdo por um ingresso. Vira e mexe tem gente que diz que Quadrinhos rende uma boa grana, mas, em geral, são aqueles que não perdem a boquinha num evento patrocinado por dinheiro público para anunciarem seus nada baratos cursos particulares de Arte Sequencial e afins…
            Em algumas edições do FIQ alardeou-se que, graças à visibilidade que esse evento traria à cidade, BH entraria na rota editorial de gibis(ué, mas aqui não é a capital MUNDIAL dos quadrinhos, conforme veiculado diversas vezes por dispendiosas peças publicitárias?) mas, pelo que se vê, essa foi mais uma promessa vazia das dezenas de outras lançadas ao vento. De que adianta um pomposo evento se não há editoras para absorverem os talentos que aqui se formam? Resumindo: muito lápis para pouco papel!
            Quanto à sua afirmação de que “Esse dinheiro vai continuar indo pro bolso de alguém” talvez você não saiba, mas o que mais tem por trás desses eventos são políticos e apadrinhados doidos pra meterem a mão no que puderem roubar, a não ser que você ache que apenas o Cinema e a Música, por exemplo, sejam passíveis de desvios de recursos, conforme tem sido demonstrado pela CPI da Lei Roubanet. O triste fato é de que TODOS os setores culturais estão maculados pela politicagem brasileira, por isso que, dadas às atuais circunstâncias, o ideal é que PROVISORIAMENTE todos os eventos deveriam ser cancelados até que o País ficasse um pouco mais aliviado a nível financeiro e social…

          • Larrous

            “… mas o que mais tem por trás desses eventos são políticos e apadrinhados doidos pra meterem a mão no que puderem roubar…”
            Você pode dar nomes aos bois ou algum link corroborando isso? Desconheço alguém usando evento público para ganhar dinheiro.

  • Putz, que bad isso. Fui em 2015 e até hoje foi um dos meus eventos favoritos.

  • Josival Fonseca

    Já estava aguardando ansioso, e vem isso. Tava até me resguardando de ir a CCXP Tour no estado vizinho com intenção no FIQ. Fui em 2015 e foi muito bom, mais centrado em quadrinhos, conversando com os autores e tudo mais. Foi divertidíssimo e trouxe muitos gibis de lá. Bem, só espero que possam conseguir outras alternativas para que aconteça. Ficaremos todos na torcida!

  • Fernando Amaral

    Uma pena, não só pela FIQ, mas ppr todos os outros eventos. BH é uma cidade muito bacana, sempre com eventos animados e uma ótima recepção em todas as vezes que fui lá. Que a população não deixe que políticos e burocratas acabem com a vocação da cidade.

  • Marquito Maia

    Não sei porquê, mas lembrei-me da famosa frase do Romário, um dos nossos “digníssimos” representantes na República de Banânia: “O Pelé calado é um poeta”.

  • Brasil-sil-sil!…