Gian Danton comenta A Insólita Família Titã, álbum da Opera Graphica

Por Marcelo Naranjo
Data: 30 abril, 2014

No inicio da década de 1990, o desenhista Joe Bennett ainda não tinha iniciado sua vasta produção para o mercado norte-americano de super-heróis, no qual atuaria com personagens como Batman, Homem-Aranha, Thor e tantos outros. Ele ainda assinava seus trabalhos como Bené Nascimento.

Na época, um segmento que andava em alta era o de quadrinhos eróticos, e Bené tinha total liberdade de criação para realizar seus trabalhos para a Editora Sampa. Foi nessa fase que ele, em parceria com o escritor Gian Danton, produziu diversas HQs focadas no horror e na fantasia.

A Insólita Família Titã (128 páginas, preço não divulgado) foi publicada nessa época, e ganhou muitos fãs, além de ter conquistado novos adeptos a partir do ano 2000, quando foi difundida na Internet.

A primeira aparição desses personagens foi na revista Quadrinhos Adultos # 1, em tramas que misturavam ação, super-heróis e erotismo. Agora, o título é republicado pela editora Opera Graphica e será lançado durante a 20ª Fest Comix.

A edição conta com diversos estudos e ilustrações de Joe Bennett e com a republicação de uma HQ de sua criação, Power.

O Universo HQ conversou com Gian Danton – pseudônimo do professor Ivan Carlo Andrade de Oliveira, roteirista de quadrinhos que escreveu títulos como Manticore, Exploradores do Desconhecido e muitos outros. Confira.

Universo HQ: De onde veio a inspiração para A Insólita Família Titã?

Gian Danton: A HQ surgiu de uma encomenda do Franco de Rosa, que queria uma história de 30 páginas para uma revista pornô. O tempo era curto: duas semanas para fazer tudo. O Bené era fã da Família Marvel e sugeriu que fizéssemos uma homenagem a eles, mas com o nosso estilo. A gente trabalhava com o Marvel Way: criávamos juntos a história, o Bené fazia um rafe e eu colocava o texto em cima. Fizemos isso tudo em uma manhã. O processo de criação foi muito rápido, o que acabou provocando uma situação curiosa. Como não tivemos tempo de conversar sobre a HQ, eu achava que o Tribuno era o herói e o Bené achava que ele era o vilão. Então ele estava lá, no desenho do Bené, cometendo atrocidades, e o meu texto humanizando e explicando as motivações dele. Isso fez com que os leitores se dividissem: alguns acham que ele é vilão, outros que é herói. Mas só percebemos essa dualidade anos depois, devido à reação dos fãs.

UHQ: Qual era o mote das aventuras?

Gian: Foi uma única aventura. Três crianças de um lixão recebem poderes especiais por meio de um artefato vindo de uma nave alienígena. Mas um deles quer usar os poderes para o bem, enquanto os outros querem usar esses poderes para ganhar dinheiro e ficar famosos.

UHQ: Como foi trabalhar com Joe Bennet, na época, Bené Nascimento? 

Gian: Eu e o Bené somos compadres e já tínhamos criado muita coisa juntos. Eu costumo dizer que o Bené é o Jack Kirby brasileiro: ele tem uma capacidade incrível para criar conceitos. A minha função era dar motivações e humanizar os personagens. Por isso funcionava muito bem a parceria. 

UHQ: Quando o título foi lançado, como andava o mercado de quadrinhos?

Gian: Na época em que a HQ foi lançada, o mercado era horrível. Foi na época do Collor e as editoras estava todas quebrando. Só sobraram os gibis pornôs, que foi onde a Insólita Família Titã foi publicada.

UHQ: Como era o contato com os leitores, na época?

Gian: A gente morava em Belém do Pará e não tinha internet, nada. Quando muito, recebíamos uma carta. Eu só fui ter dimensão da popularidade dessa HQ quando comecei a ir em eventos, como congressos de quadrinhos e o pessoal trazia a Insólita Família Titã para eu autografar. O pessoal recortava a história da revista e mandava encadernar. Autografei muitos exemplares assim. E fui percebendo que cada edição que me traziam tinha uma capa diferente. Contei quatro revistas diferentes. Agora, vendo os arquivos do álbum, descobri que a primeira publicação foi em uma revista que nunca vi. Ou seja: a Insólita Família Titã foi publicada em cinco títulos diferentes. Como as tiragens médias da época eram de 30 mil exemplares, no total, foram uns 150 mil exemplares.

UHQ: Como você vê essa republicação, 20 anos depois? 

Gian: Olha, é um sonho nosso e dos fãs. Todo mundo que trazia para autografar perguntava quando a história ia ser publicada de maneira decente, porque ela saiu cinco vezes, mas sempre em revistinhas pornôs, com papel jornal, de fundo de banca. É surpreendente que tenha tido tanta repercussão. 

A Insólita Família Titã

 

 

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