Kick-Ass, o filme, caminha entre o escracho e a sutileza

Por Fernando Viti
Data: 17 junho, 2010

Kick-Ass

Por que se lembrar da adolescência se você não era o mais carismático da turma, o mais bonito ou aquele com o maior número de amigos? Por que preservar a memória daquele período de sua vida que vai dos 13 aos 16 anos?

As razões da saudade daqueles dias não são, com certeza, infinitas, mas, para cada uma, sempre se encontra mais de um porquê.

A nostalgia não tem explicação definitiva, mas uma possibilidade é que a maturidade nos faz olhar, por poucos segundos que seja (e tomara que apenas por esse tempo diminuto!), para trás e nos faz rir, simplesmente rir com a inexperiência e tolices daqueles dias.

O filme Kick-Ass – Quebrando tudo, baseado numa HQ de Mark Millar e John Romita Jr., de certa forma, por não se limitar a uma única faixa etária, encontra repercussão entre os trintões e quarentões justamente por lançar um olhar bastante condescendente aos anos de transição entre a infância e a vida adulta.

Uma ideia que permeia todo o filme é a da insegurança.

Insegurança, associada à inexperiência emocional, que cria as condições ideais a uma fantasia fundamental a um segmento da indústria cultural que está no centro da crítica do filme, ou seja, as HQs de super-heróis.

É evidente que quem foi adolescente nos anos 70 e 80 constata, atualmente, que o preconceito que havia a priori contra as aventuras dos heróis de capa, máscara e com ou sem superpoderes foi bastante minimizado.

Os super-heróis, especialmente nos Estados Unidos, adquiriram, como a geração nascida nos anos 1960, status de fenômeno cultural que merece análises acadêmicas e debates apaixonados nos meios de comunicação contemporâneos.

Para além do universo dito nerd, os super-heróis da DC Comics e Marvel ganham reedições críticas de períodos clássicos e, em Hollywood, cineastas e atores de prestígio lançam-se em produções de personagens que, até fins da década de 1980, eram considerados objetos de filmes que beiravam o trash.

É claro que no que diz respeito aos quadrinhos de massa da DC
e Marvel, certas criações como O Cavaleiro das Trevas
e Demolidor, de Frank Miller, e Watchmen, de Alan Moore,
estabeleceram novos paradigmas para as HQs vendidas na banca da esquina.

E o cinemão norte-americano de orçamentos milionários, de imenso investimento em novas tecnologias de produção e efeitos especiais (thanks, George Lucas!) e, consequentemente, ávido por grande faturamento, encontrou nas HQs um filão aparentemente inesgotável: enredos relativamente simples somados a um público gigantesco e fiel.

Kick-Ass

O longa-metragem de Matthew Vaughn, que tem no elenco Nicolas Cage, Aaron Johnson, Lyndsy Fonseca, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse e Chloe Moretz, é um produto que só seria possível nesse novo cenário para as adaptações de quadrinhos. Afinal, é um filme que surpreende pela estapafúrdia combinação de escracho e sutileza.

O escracho é evidente na primeira impressão que causa o filme, ou seja, a violência exagerada e, em alguns momentos, realista das cenas de ação. Mas a uma dessas passagens chocantes, segue-se uma absurda.

Por exemplo: o protagonista, logo em sua primeira missão, apanha feio, é esfaqueado,
atropelado e largado numa rua erma de um bairro barra-pesada. Nada mais realista,
certo? Ok!

Na sequência seguinte, o “herói” é reconstruído milagrosamente num hospital qualquer. Puro escracho. Até pode ser realista nas cenas de ação, mas vamos com calma… Os médicos não precisam ser tão plausíveis.

Uma menininha de 11 anos mata dez, doze gângsteres… Puro escracho!

Um cover do Batman chamado “Paizão”… Puro escracho!

Entretanto, é no campo das sutilezas que Kick-Ass – Quebrando tudo marca os seus maiores e melhores pontos. Os duros anos de aprendizado e insegurança da adolescência ganham nesta produção imagens e situações interessantes.

Se todo super-herói tem um identidade secreta, as glórias de suas conquistas e façanhas não podem ser usufruídas pelo homem que se esconde atrás da máscara. E o campo de batalha mais difícil e doloroso para o jovem é o da conquista amorosa.

E o bobão Dave Lizewski não se torna apenas mais seguro e determinado quando veste a máscara do Kick-Ass, mas também quando consegue ganhar a atenção da garota mais bela da escola ao assumir outra máscara, ou seja, a de um homem mais gentil e menos tolo que, para um cultura machista e preconceituosa, só pode ser gay.

A brincadeira com este jogo de máscaras que revelam as diferentes contradições que movem o personagem é leve e divertida, mas, de forma alguma, abala a relevância e a ousadia deste filme que, na opinião deste resenhista, talvez seja a melhor adaptação de super-heróis para o cinema em todos os tempos.

Kick-Ass - Quebrando tudoKick-Ass - Quebrando tudoKick-Ass - Quebrando tudo

 

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