Marvel punirá Ardian Syaf por mensagens ocultas na revista X-Men Gold

Por Sérgio Codespoti
Data: 11 abril, 2017

Ardian Syaf é um artista da Indonésia, nascido em Tulungagung, na ilha de Java, que já trabalhou para o estúdio Dabel Brothers Publishing, e as editoras Dynamite Entertainment, DC Comics e Marvel Comics.

Seu trabalho mais recente na Marvel, a revista X-Men Gold #1, lançada em 5 de abril, causou muita controvérsia devido a mensagens religiosas que o artista espalhou nos cenários da revista. Essas referências foram percebidas inicialmente por fãs de quadrinhos de origem indonésia, foram espalhados pelas mídias sociais e chegaram à “Casa das Ideias” e a vários sites de notícias especializados.

Existem três referências controversas na edição, ligadas a mensagens antissemitas ou anticristãs.

A primeira delas se refere à origem judaica da personagem Kitty Pryde. Numa cena, ela está de costas para o leitor e é possível ver a palavra “Jewelry” escrita – com a grafia estadunidense – no cenário, no fundo, posicionada visualmente ao lado esquerda da cabeça da heroína. O significado tradicional em inglês é joalheria, mas sua pronúncia é muito similar à de “jewry”, um coletivo para designar os judeus, cujo significado histórico também se refere aos antigos bairros de população judaica numa cidade.

Quadro de X-Men Gold # 1

A segunda referência, no mesmo quadro, é o número 212. Na Indonésia, ele se refere à data 2 de dezembro de 2016, quando ocorreu um grande protesto de indonésios de origem muçulmana contra o governador de Jacarta – a capital do país –, Basuki Tjahaja Purnama, conhecido popularmente como Ahok. Ele é um cristão de origem chinesa e foi acusado de blasfêmia, pelo uso do Alcorão, o livro sagrado do Islã, especificamente o capítulo 5, verso 51, durante uma campanha, usando esses versos contra seus oponentes.

Ainda na mesma cena, também é possível ver o número 51 no boné de um personagem e no peito da camisa de outro. O número volta a aparecer nas páginas seguintes, num quadro no qual Colossus está com uma camiseta com o texto “QS 5:51”. Q (Qur’an) se refere ao Alcorão e S (Surah) ao capítulo, ou seja, capítulo 5, verso 51.

Segundo o site Bleeding Cool, o desenhista Ardian Syaf adicionou as referências após ter participado de uma segunda marcha contra Ahok, no dia 21 de fevereiro, postando a imagem da página a lápis com as referências, em seu Facebook. Vale lembrar que a Indonésia é o mais populoso país islâmico, com aproximadamente 263 milhões de habitantes, sendo que mais de 87% deles é de religião muçulmana. Nesse contexto, crimes de ordem religiosa, incluindo a blasfêmia, são considerados graves; e existem muitos problemas com minorias étnicas (javaneses, sudaneses, malaios, chineses indonésios, filipinos, melanésios etc.).

Anteriormente, Syaf havia postado o rosto do presidente da Indonésia, Joko Widodo, conhecido popularmente como Jokowi, numa edição de Batgirl.

Quadro de X-Men Gold # 1

Dezenas de leitores denunciaram as imagens no Facebook e no Twitter, como sendo anticristãs e antissemitas, e de estar propagando uma mensagem de preconceito e intolerância.

Um leitor de Jacarta, Haykal Al-Qasimi, escreveu uma carta aberta para a Marvel Comics, em sua página no Facebook, acusando Syaf de incluir mensagens subliminares contra minorias. Segundo o leitor, “eu não imagino que vocês queiram que suas HQs sejam usadas para espalhar ódio com base na religião de uma pessoa”.

A roteirista muçulmana G. Willow Wilson, autora da revista Ms. Marvel, repudiou com veemência a atitude de Syaf em seu blog e no Twitter, e acrescentou explicações importantes sobre uma das razões dessa controvérsia referente a discrepâncias na tradução dos versos mencionados, do arábico – a língua na qual o livro sagrado foi escrita originalmente – para o indonésio.

A Marvel publicou uma declaração oficial repudiando a atitude do artista: “O trabalho artístico de X-Men Gold #1 foi inserido sem o conhecimento de seu significado. As referências implícitas não refletem a visão dos editores, escritores ou de qualquer outra pessoa na editora e estão em oposição direta da política de inclusão da Marvel Comics e ao que os X-Men representam desde sua criação. Essa arte será removida das próximas impressões, das versões digitais e dos encadernados. Ações disciplinares serão tomadas contra o responsável”.

Em sua página do Facebook, Syaf continuou postando mensagens sobre a controvérsia, pedindo para as pessoas não acreditarem na mídia social e que ele enviou explicações sobre os números para a Marvel Comics e está aguardando a resposta.

Como era de se esperar, a revista X-Men Gold #1 já esgotou em diversas comic shops dos Estados Unidos e os lojistas já preveem que a edição se tornará rara e colecionável, em virtude da controvérsia.

A revista dos X-Men sempre esteve ligada ao discurso de inclusão, contra o preconceito racial e religioso, e possui dezenas de histórias que lidam com esses problemas. É ainda mais irônico que essa edição em particular fale especificamente do preconceito.

Os X-Men foram criados por Stan Lee e Jack Kirby, dois autores de origem judaica, em 1963.

X-Men Gold # 1

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• Outros artigos escritos por

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  • W.Santos

    Acompanhei a polêmica desde seu início e acho que a editora deveria suspender o contrato desse desenhista. Independente do teor das tais mensagens, o artista excedeu sua liberdade criativa e, de certa forma, traiu a confiança de seus contratantes, pois não foi para isso que o mesmo foi contratado, se aproveitando de um produto do qual não detém direito de propriedade para propagar ideias particulares e, o que é pior, sem o conhecimento e permissão prévias da editora em questão.
    Quanto às ideias religiosas, o tal artista deveria ser, no mínimo, coerente com o que professa enquanto fé e parar de ganhar dinheiro às custas da cultura ocidental promovida pelo “grande satã”. Não é assim que eles chamam os EUA e todo o Ocidente?

    • Homem Simpson

      Por isso que eu digo: errar é humano, acertar é muçulmano!

      • A cara das esposas eles acertam muito bem!

        • Homem Simpson

          Não precisa ser muçulmano para que isso aconteça, hein?

        • Pedro Ribeiro

          verdade!

  • W.Santos

    Acabou de ser divulgado que Syaf não é mais desenhista da Marvel.
    (Agora, façam o favor de liberar meu comentário que vcs bloquearam!)

    • Não sei a o que você se refere. Nenhum comentário seu foi bloqueado. Se estiver se referindo ao que está logo abaixo, falando que acompanhou a polêmica desde o início, foi publicado há quatro horas, tão logo foi feito.

      • W.Santos

        Perdão. No meu navegador não estava mais aparecendo, mas agora está OK. Abraços.

  • Mauro

    É uma pena que o Syaf tenha feito essa cagada.Gosto dos trabalhos dele.

  • Fabio Alcantara

    Ó fiéis, não tomeis por amigos os judeus nem os cristãos; que sejam amigos entre si. Porém, quem dentre vós os tomar por amigos, certamente será um deles; e Alá não encaminha os iníquos. Surata 5:51. Para quem tiver curiosidade.

    • Glaydson Melo

      “A roteirista muçulmana G. Willow Wilson, autora da revista Ms. Marvel, repudiou com veemência a atitude de Syaf em seu blog e no Twitter, e acrescentou explicações importantes sobre uma das razões dessa controvérsia referente a discrepâncias na tradução dos versos mencionados, do arábico – a língua na qual o livro sagrado foi escrita originalmente – para o indonésio”.

      • Dyel Dimmestri

        Eu penso assim: nem tudo que está nos Livros Sagrados-Bíblia,Alcorão,Torá,Vedas,etc.,deve ser seguido ao pé da letra. Certas ideias e (pre)conceitos que faziam sentido há,digamos,mil,dois mil,quinhentos anos atrás,não servem para os dias de hoje.

  • É. Dois judeus criaram os X-mens, mutantes que sofrem preconceito, mas são designados como Homos Superiores. ;)

  • W. Santos se refere à hipocrisia do muçulmano radical trabalhar para os (na visão dele) infiéis. Todo seu esforço de responder citando políticos e/ou pastores oportunistas, falsos profetas ou quer quer que seja, é desvio do assunto.
    Se qualquer livro religioso fará diferença na vida de alguém, depende, mais do que interpretação, sobretudo da avaliação da relevância das mensagens, uma vez que muitas delas são diretas. No caso do Alcorão, nós temos visto as diferenças.