Morreu Fernando Bonini, grande desenhista da Disney e de outros títulos

Por Franco de Rosa
Data: 11 outubro, 2005

Fernando BoniniMorreu
no dia 8 de outubro um dos principais desenhistas brasileiros do Zé Carioca,
Fernando Bonini. Ele era alcoólatra, mas teve um enfarto fulminante enquanto
dormia. O sepultamento ocorreu no Cemitério São João Batista, em Valinhos,
cidade do interior de São Paulo, onde estava residindo nos últimos meses.

No começo deste ano, Bonini lançou o que considerava sua obra mais importante,
o álbum Luciano,
escrito por Primaggio Mantovi e publicado pela Via
Lettera
. O autor disse isso no último dia 17 de setembro, quando
completou 50 anos e viu, pela primeira vez, a edição impressa.

Emocionado ao identificar cenários e personagens secundários da história,
naquelas páginas registrou graficamente muito de sua vida. Bonini passou
o dia lendo e relendo a obra. Ele levou mais de quatro anos desenhando
a história, pois realizava o trabalho nas horas vagas de um período de
intensa produção para a Editora Abril, para a qual realizava trabalhos
anônimos, como Zé Carioca e Urtigão, para os quadrinhos
Disney.

Luciano
Desde antes do lançamento de Luciano, Bonini havia se internado
em uma clínica evangélica de recuperação para alcoólatras, ficando meses
sem contato com o mundo exterior.

Fernando Bonini nasceu em Niterói e começou sua carreira aos 15 anos,
como assistente de arte na Rio Gráfica e Editora, onde teve Primaggio
como mentor, orientando-o nos desenhos de Sacarrolha e Recruta
Zero
. Depois, passou a fazer parte da equipe de jovens autores da
RGE que desenvolveu projetos que nunca deslancharam, como
Comix
(estrelado por Jô Soares) e A Vaca Voadora.

Mas o terceiro projeto daquela fase deu certo: O Sítio do Pica-Pau
Amarelo
, no qual Bonini permaneceu como um dos principais artistas.

No final dos anos 70, Bonini passou a produzir quadrinhos de terror para
a Vecchi, desenhando inclusive A
Namorada de Julinho
, HQ escrita por Ota que foi transformada em
projeto para cinema da Lemúria Filmes. Em seguida, produziu quadrinhos
eróticos para a Editora Grafipar, de Curitiba, cidade onde foi
morar em 1980.

Fernando Bonini
Com o declínio das HQs de terror e erotismo em 1987, Bonini voltou aos
quadrinhos da Abril, após uma experiência frustrada no campo do
desenho animado – chegou a integrar a equipe do longa O Grilo Feliz.

Os Trapalhões, Zé Carioca e Gugu foram alguns dos
títulos em que Bonini mais atuou até 1998, quando, deliberadamente e tomado
pelo vício do álcool, resolveu ir morar na rua e tornar-se um sem teto
e catador de papel.

Em 2002, auxiliado por amigos, saiu das ruas e voltou a desenhar. A partir
de então, realizou dezenas de revistas infantis para a Editora Escala,
histórias em quadrinhos eróticas para a Editora Heavy Metal e publicou
a revista Os
Exterminadores Sem Futuro
, pela Opera
Graphica
.

Desde junho de 2005 vinha realizando as revistas infantis para colorir
da Escala, Filhotes de Dálmatas, Turminha do Pica-Pau,
Princesinhas, Rei Leão e Olhe e Pinte. Seu ultimo
trabalho foi a edição de novembro de Brincando com os Animais,
da mesma editora.

Antes destas duas obras, porém, ironicamente, Bonini prestou uma homenagem
a Luiz Sá, que também foi alcoólatra, ao desenhar várias páginas com Reco-Reco,
Bolão e Azeitona (estrelas de O Tico-Tico) para o Almanaque
Pic-Nic
, que deverá circular em novembro.

Fernando Antonio Bonini da Silva estava assinando seus trabalhos infantis
como Sil. Sempre foi uma pessoa muito divertida. No entanto, a bebida
o deixava muito deprimido. Com o passar dos anos, tornou-se extremamente
depressivo e autodestrutivo, afastando-se dos amigos e parentes e mergulhando
na miséria. Repetia sempre que esperava completar 50 anos para morrer.

Bonini era um personagem tão interessante quanto os que desenhava. Foi
centenas de vezes assaltado, algumas das formas mais absurdas. Foi atropelado
quase uma dezena de vezes. Surrado por muitas mulheres. E perseguido por
toda uma noite por um drogado que lhe tirou parte da visão do olho esquerdo,
com uma paulada. Assim como teve seu par de meias, furtado em uma noite
fria, enquanto dormia, bêbado. Mas o ladrão teve a caridade de recolocar
os calçados em seus pés.

Suas últimas palavras, proferidas a um companheiro de pensão foram “Vou
dormir. Estou muito cansado.”

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