Nova polêmica envolvendo charges do jornal Charlie Hebdo

Por Sérgio Codespoti
Data: 16 setembro, 2015

Charlie Hebdo, capa da edição de 9 de setembro de 2015O jornal Charlie Hebdo, tradicional publicação francesa de humor e sátira, está mais uma vez envolvido numa grande polêmica.

No dia 9 de setembro, o jornal lançou uma edição cuja capa trazia o título “Bem-vindos, imigrantes”, e a ilustração com o texto “Minha casa é a sua casa”, que mostra um sujeito sentado numa poltrona, com os pés sobre as costas de um imigrante que está de quatro, no chão. A imagem foi assinada por Coco, pseudônimo da desenhista Corinne Rey.

Mas não foi esta a charge que incomodou o público internacional. Duas outras ilustrações rejeitadas como capa da mesma edição – e divulgadas na internet, fora de seu contexto –, cujo foco está relacionado à morte do menino sírio Aylan Kurdi, de apenas três anos, são a causa do ultraje do público.

É importante notar que o furor contra a revista é essencialmente estrangeiro, e que na França o material causou uma reação bem menor. Muitas das charges do jornal – costumeiramente contundentes – são bastante específicas sobre o contexto político e social do país e da Europa, e fáceis de serem mal interpretadas. No entanto, isso não evita, nem justifica, que independentemente do contexto, algumas ideias sejam de mau gosto.

A foto de Aylan Kurdi, falecido numa praia da Turquia, no dia 3 de setembro, circulou o mundo, gerou muita comoção e forçou a revisão da postura de diversos políticos da Europa. O incidente gerou uma crise de relações públicas para muitos países do Velho Continente.

O Charlie Hebdo está sendo acusado de racismo e xenofobia (mais uma vez), por causa das charges com o menino. Isso, apesar do editorial assinado por Riss, no qual condena a hipocrisia dos líderes europeus e suas atitudes em relação à crise dos imigrantes.

Na primeira delas, de autoria de assinada por Riss, pseudônimo de Laurent Sourisseau, o menino aparece representado como na foto, com o texto “Tão perto de seu objetivo…”; e um cartaz na praia traz os dizeres “dois combos infantis pelo preço de um”, acompanhado de uma imagem de palhaço que, obviamente, é uma referência à Ronald McDonald, mascote da rede de lanchonetes McDonalds.

A imagem é chocante e de mau gosto. Mas existe um contexto específico para a França e para a Europa nela. Depois de um incidente ocorrido no dia 25 de julho, num McDonalds da Riviera Francesa, envolvendo um atendente da lanchonete que ofereceu a um mendigo a sua refeição gratuita, um comunicado interno foi feito a todos os funcionários da franquia em Hyeres, na França. O texto dizia: “É proibido dar comida aos mendigos. As refeições dos funcionários devem ser comidas dentro do restaurante (lanchonete), são um benefício pessoal destinado apenas aos funcionários e, portanto, devem beneficiar apenas os funcionários em questão. O McDonalds não existe para alimentar todos os famintos do país! Qualquer divergência do procedimento descrito acima poderá resultar em sanções ou demissões.”

Esse comunicado foi divulgado online pelo grupo francês 60 Millions de Consummateurs (60 Milhões de Consumidores), e o McDonalds se desculpou formalmente pelo comunicado daquela unidade em particular, e deixou claro que a rede de restaurantes existe para atender a todo e qualquer cliente, sem distinção.

A critica aos líderes europeus – que continuam debatendo e brigando sem sucesso para achar uma solução para a crise que dura muitos anos, mas que alcançou recentemente proporções catastróficas – é mais sutil e fácil de ser mal-interpretada. O uso do termo “objetivo” no texto ridiculariza os títulos e legendas usadas em conjunto com a foto do menino, em diversas publicações que sensacionalizaram a tragédia de Aylan Kurdi.

Na segunda charge, também de Riss, tão chocante quanto a primeira e de mau gosto similar, um cristão anda sobre as águas, como Jesus, enquanto o menino muçulmano se afoga. O texto diz: A prova de que a Europa é Cristã. Os cristãos andam sobre a água. As crianças muçulmanas afundam.

A charge faz referência a diversas personalidades europeias (incluindo Viktor Orban, o primeiro-ministro da Hungria) que defendem a superioridade cristã sobre os muçulmanos, e políticos de alguns países que anunciaram que só aceitariam os refugiados da Síria que fossem cristãos.

Grande parte da indignação começou com os tabloides da Inglaterra – país que está sendo muito criticado por sua política de imigração – e foi seguido por alguns veículos norte-americanos, e parece que o contexto do material francês ficou perdido na tradução.

Se essas charges polêmicas não bastassem, uma outra imagem mostrando imigrantes africanos se afogando no mar Mediterrâneo, feita pelo ilustrador Ali Dilem, e publicada no jornal Liberte, na Argélia, também está sendo atribuída erroneamente ao Charlie Hebdo.

Também é relevante notar que o Charlie Hebdo está publicando charges contra a política de imigração da União Europeia, de seus países membros e da França, em particular (contra a Frente Nacional, um partido direitista, e o político Jean Marie Le Pen), há muitas semanas. Uma outra imagem de capa, de uma edição anterior, dizia: “Um Titanic por semana!” Um aviso claro de que sem uma intervenção enérgica das autoridades, morrerão mais pessoas do que no naufrágio do Titanic, em 1912.

A desenhista Coco estava entre os reféns na redação da Charlie Hebdo, no atentado ocorrido em 7 de janeiro, quando morreram 12 pessoas. O desenhista Riss também, e tomou um tiro no braço direito. Ele sucedeu Charb, falecido no ataque, como editor-chefe da publicação.

Numa entrevista realizada no Twitter, Corrine Rey disse que a revista usou a imagem do menino para denunciar a inércia europeia e da sociedade capitalista. “A Europa, o racismo e o capitalismo são os alvos dessas charges. Aylan é a vítima de tudo isso”, disse ela.

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