O legado do mal azar, obra de Augusto Figliaggi, revisita folclore brasileiro

Por Samir Naliato
Data: 24 janeiro, 2020

Ela foi levada por uma cobra gigante! É assim que Lina relata a Baltazar Malasartes o sumiço de sua namorada, Sara, e leva o leitor a companhar as 128 páginas de O legado do mal azar (formato , 128 páginas, capa cartonada, R$ 35,00), com roteiro e arte de Augusto Figliaggi.

Vencedor do ProAC (Programa de Apoio à Cultura), voltado a projetos de criação e publicação de histórias em quadrinhos no Estado de São Paulo, o quadrinhos é publicado pela Editora Lura.

Na obra, Lina e Baltazar, protagonista e coprotagonista, estão na cidade de São Paulo nos dias atuais. E poderiam ser facilmente encontrados no centro entre decadentes seres encantados, cantoras com poderes mágicos e corpos amaldiçoados. A antagonista é a Maria Caninana. No folclore, ela é uma cobra, filha de um boto com uma índia. Por causa de suas perversidades, acaba sendo morta por seu irmão.

Em O legado do mal azar, Caninana é revisitada, levanta a bandeira do extermínio e ganha um discurso extremista e autoritário.

É com causos e cantigas que as referências no folclore brasileiro ganham novo significado por Augusto. “Durante a leitura, encontramos um mundo onde sobrenatural e natural se fundem, passado e presente se mesclam, polos opostos se unem e vidas se resignam ao destino”, explica o autor.

“Em nossa atual polarização, criei a obra também para acreditar com quem a lê de que duas pessoas bem diferentes podem conviver juntas e ainda se ajudar. O Baltazar é um cara de 50 e tantos anos, branco, hétero e tem um jeito tradicional em sua forma de dialogar e viver. E a Lina é jovem, negra e lésbica. Na relação entre os dois, suas lutas, sejam elas internas ou públicas, se manifestam”, relata Augusto.

A história atualiza o folclore tal como nossa sociedade foi transformada e lembra que, historicamente, o pequeno produtor do campo e o trabalhador da periferia, que, em comum, foram para o centro da cidade à procura da sobrevivência, acabam tragados por um sistema excludente. Com personagens folclóricas não foi diferente. O saci não tem mais onde viver, já que a expansão das cidades engoliu o terreno rural no Brasil.

 

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