Ramon Cavalcante fala sobre o Cosmic, o novo serviço digital de assinatura de quadrinhos

Por Zé Oliboni
Data: 13 julho, 2015

Com previsão de lançamento para novembro deste ano, o Cosmic é uma plataforma de leitura de quadrinhos digitais. O modelo adotado é o de assinatura de streaming, no qual um acervo de HQs poderá ser acessado via computador, tablet ou celular por uma mensalidade de R$15,90.

A partir de julho, o aplicativo já estará disponível no site www.intocosmic.com, com a funcionalidade de leitor digital, podendo ser utilizado para ler arquivos de HQs baixadas pelo usuário, organizadas em uma biblioteca pessoal. O aplicativo será gratuito, com versões para desktop (Windows, Mac OS X e Linux) e as versões para celulares e tablets estão previstas para novembro. A versão inicial terá suporte à arquivos CBR e CBZ, que são os formatos mais populares para quadrinhos digitais, e mais formatos podem ser adicionados no futuro, caso exista demanda.

No mesmo site, autores e editoras interessadas em participar da plataforma podem se cadastrar para distribuir seus quadrinhos pelo aplicativo e tirar dúvidas sobre o funcionamento e a forma de remuneração. Segundo o vídeo institucional (veja no final da entrevista a seguir), 30% do valor da assinatura é para a Cosmic e o restante é distribuído entre os artistas de forma proporcional ao número de acessos dos quadrinhos de cada um.

Ramon Cavalcante, que também é autor de quadrinhos (leia aqui o webcomic Barafunda), falou com o Universo HQ sobre o serviço.

Cosmic

Universo HQ: A partir de novembro, vocês lançam o sistema de assinaturas. Existirão planos de assinaturas diferentes ou um único? Terá venda de HQ avulsa?

Ramon Cavalcante: O serviço de streaming será lançado em novembro com apenas uma modalidade de assinatura: o usuário paga R$ 15,90 por mês e tem acesso a todo o acervo. Sem venda de quadrinhos avulsos, sem planos diferentes. Mas vale ressaltar que o projeto Cosmic não se encerra em nenhuma dessas duas ações (o reader e o serviço de streaming). Cosmic é uma plataforma de soluções para o digital e estaremos o tempo todo pensando e testando novas iniciativas, com o objetivo de fomentar esse consumo.

UHQ: O serviço de assinaturas será mesmo um “streaming”, como vocês estão divulgando, ou o leitor baixa a HQ e passa a tê-la disponível para leitura off-line?

Cavalcante: Será um serviço de streaming semelhante ao que Netflix, Spotify e outras empresas fazem. Você pode continuar a ler de onde parou em qualquer dispositivo sem precisar baixar todo o quadrinho. Entretanto, existirá também a possibilidade de armazenar o quadrinho off-line para poder ler sem precisar estar conectado à internet.

UHQ: A venda de quadrinhos digitais já existe há algum tempo, mas até agora não surgiu um aplicativo que seja a “Netflix dos quadrinhos”. Há rumores de que o maior site do gênero, o ComiXology, lançará seu sistema de assinaturas ainda esse ano, mas ainda não se sabe ao certo se as grandes editoras americanas vão ceder à esse formato (leia mais sobre isso aqui). Qual o grande empecilho para a existência desse serviço? E como vocês pretendem contornar isso?

Cavalcante: Muitas plataformas digitais se comportam no mercado de forma contraproducente, vendendo as edições digitais pelo mesmo preço do impresso – uma medida protecionista em relação às comic shops americanas – e demorando bastante para oferecer um serviço que já se estabeleceu em linguagens que envolvem muito mais dinheiro, como a música, e disputas de direitos autorais muito mais severas, como o cinema.

O maior empecilho para uma ideia como essa ser realizada seria visão, mas plataformas de quadrinhos com essa proposta já existem em outros países. Além disso, a ideia não é simples de ser realizada, é um projeto complexo em todas as suas facetas: na programação, no contato com as editoras e autores, no administrativo-financeiro, no jurídico. Para lançar o projeto e dar conta da complexidade da demanda, precisa-se de um esforço inicial muito maior do que a maioria das empresas.

UHQ: Sempre que se fala nesse tipo de serviço a principal questão é o catálogo. Quais editoras vocês terão no catálogo?

Cavalcante: Estamos em negociação com editoras e vamos revelar mais informações à medida que nos aproximarmos do lançamento. Mas podemos assegurar que nosso acervo vai cobrir desde os títulos independentes locais até títulos internacionais importantes. O único grande crivo é o da qualidade das obras: não estamos em busca de fazer um grande volume morto, com obras que já caíram em domínio público ou mesmo obras que estejam disponíveis mas que não sejam representativas da qualidade da produção de quadrinhos, seja daqui ou de fora.

UHQ: Tradicionalmente, o público leitor de HQs no Brasil é mais voltado para a leitura de quadrinhos estrangeiros, principalmente as grandes editoras americanas (Marvel/DC/Image) e mangás. O material estrangeiro que vocês estão prometendo nas redes sociais virá por intermédio das editoras brasileiras? Quais editoras já estão confirmadas e com quais materiais estrangeiros?

Cavalcante: Estamos negociando obras internacionais tanto por meio de editoras brasileiras como direto com editoras de outros países, vamos revelar mais informações à medida que nos aproximarmos do lançamento. A verdade é que estamos começando a negociar algo que até bem pouco tempo não era comercializado e, com isso, estamos aprendendo que cada editora se dispõe a fazer isso de uma forma diferente. Estamos todos aprendendo juntos.

UHQ: Vocês têm um plano bem interessante de remuneração para autores independentes. A remuneração das editoras seguirá o mesmo modelo dos independentes ou vocês tiveram que licenciar materiais separadamente?

Cavalcante: Estamos negociando tudo no mesmo modelo, de pagamento metrificado a partir de cada usuário, ficando com 30% e repassando 70% para os autores e editoras. As editoras estão aceitando bem esse modelo, já que ele é muito transparente e justo. Algumas editoras ainda estão reticentes com o digital, mas as que já se abriram para essa possibilidade têm aceitado muito bem o nosso modelo.

UHQ: Um dos grandes atrativos da Netflix é a produção de conteúdo exclusivo. Vocês têm planos para isso? Há possibilidade de vermos material tanto nacional quanto estrangeiro que não foi publicado no Brasil ainda?

Cavalcante: A nossa plataforma tem condições de, em pouco tempo, se tornar um laboratório para as editoras. Hoje uma editora de quadrinhos pequena ou média lança de seis a 12 obras por ano e o gargalo dessa produção são os custos de impressão, distribuição e o que fica retido nos postos de venda. Com o Cosmic, essas mesmas editoras podem fazer o que fazem de melhor – editar obras de qualidade, revisá-las, lançar selos, descobrir e revelar autores – em um volume muito maior. Testar a repercussão das obras e, só então, lançar as que comprovadamente tiverem uma demanda real no impresso.

UHQ: A venda de assinaturas será exclusiva para o mercado brasileiro ou será internacional? O material nacional estará disponível em outros idiomas?

Cavalcante: A venda é exclusiva para o mercado brasileiro. Os quadrinhos estarão disponíveis apenas em português do Brasil.

UHQ: Sempre que se fala no formato digital, a primeira questão que vem a mente é a pirataria. O app de vocês inicialmente será um leitor digital, o que favorece a leitura de HQs pirateadas. Como vocês abordam essa questão?

Cavalcante: Entendemos que há uma tendência editorial de lançar quadrinhos digitais DRM-free, em que o consumidor pode baixar o arquivo digital de sua HQ para ler no aplicativo de sua preferência. Isso já ocorre tanto em grandes editoras quanto em sites menores. Queremos contemplar o usuário que tem uma biblioteca própria de HQs e deseja ter acesso a elas em nossa plataforma.

Acreditamos que a chave para disputar com a pirataria é oferecer um modelo pago muito acessível e cômodo, que satisfaça plenamente o usuário e ofereça a ele uma boa alternativa para remunerar seus autores e editoras preferidos.

Não pretendemos nos esquivar desse grande público em potencial. Nas outras experiências semelhantes, especialmente na música e no cinema, o streaming é o que vem se mostrando como a primeira resposta real para a pirataria.

Na Suécia, a pirataria de músicas vem caindo a uma média de 30% ao ano desde o lançamento do Spotify. O Netflix, em 2011, passou a ocupar mais banda nos EUA do que o BitTorrent, principal programa de torrent.
A oferta de um serviço barato, de qualidade, seguro e cômodo via streaming é o que vem dando resposta à pirataria. Queremos chegar mais perto desse público, com muita responsabilidade, entendê-lo e oferecer uma alternativa.

UHQ: Além de vocês, há outro aplicativo prometendo um serviço de assinaturas no Brasil ainda em agosto deste ano. Há espaço para dois serviços semelhantes? Vocês exigirão exclusividade dos autores que quiserem estar na sua plataforma?

Cavalcante: Não exigimos nem buscamos exclusividade dos autores e editoras que querem participar da plataforma. Para nós, isso não faria o menor sentido. Queremos fortalecer e expandir a produção de quadrinhos, movimentar mais dinheiro de forma segura e eficiente para os autores e editoras.

Queremos que as obras boas estejam em todas as plataformas, em venda direta no seu site, na Comixology… estamos entrando nisso para somar nesse cenário, não para dividir.

Nos primeiros contatos com as editoras ficou claro que havia outras ideias parecidas acontecendo mais ou menos na mesma época. A nossa aposta é que, sim, há espaço para mais de um grande serviço de streaming de quadrinhos no Brasil. O público é grande e queremos expandi-lo exponencialmente. Na verdade, uma ideia tão semelhante em vários aspectos faz é nos confirmar que o que estamos pensando faz muito sentido.

UHQ: Em teoria, a equação do modelo de assinatura é perfeita. O leitor ganha porque economiza. O autor ganha porque não é pirateado. O distribuidor (aplicativo) ganha pelo seu serviço. Mas ainda se fala de o modelo não ser sustentável. Vocês têm um estudo de quantos assinantes precisariam, no mínimo, para o serviço ser viável para a sua empresa e para os produtores de conteúdo?

Cavalcante: O modelo é sustentável. Nós temos levantamentos sobre o aspecto econômico da plataforma e eles apontam para a viabilidade do negócio. Não queremos apenas dar conta do público que lê quadrinhos hoje, acreditamos que uma plataforma barata e de qualidade pode expandir as fronteiras desse público e chegar em pessoas que até hoje não se debruçaram sobre a leitura de quadrinhos.

UHQ: O leitor de HQ tradicionalmente tem uma paixão pelo impresso e pelo colecionismo. Vocês veem isso como um empecilho ou pretendem ter material impresso também?

Cavalcante: Acreditamos que, especialmente na indústria de quadrinhos, o mercado digital pode funcionar perfeitamente alinhado ao mercado impresso. O leitor de quadrinhos tem paixão pela obra física, por colecionar e guardar. Isso, inclusive, já é o que acontece hoje com a pirataria. É mais raro um leitor assíduo de quadrinhos esperar uma edição nacional ser lançada para ler. Ainda assim, o leitor compra a história quando ela é lançada no formato impresso.

 

 

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