Terry Moore e as estranhas que nós amamos

Por Renato Félix
Data: 3 março, 2020

A série Estranhos no Paraíso está sendo republicada pela Devir e o terceiro volume, Santuário, trouxe as primeiras histórias de Katchoo e Francine inéditas no Brasil em seis anos.

Os leitores podem, enfim, seguir a trama do triângulo amoroso das duas garotas e David, e as ligações com a organização criminosa com a qual Katchoo esteve envolvida durante anos.

O escritor e desenhista Terry Moore falou ao Universo HQ sobre o surgimento da série, as reviravoltas na trama, algumas edições que não estão na coleção e em que pé está a futura adaptação do quadrinho para o cinema.

Universo HQ: Já que Katchoo e Francine surgiram em tiras separadas, como você teve a ideia de colocá-las juntas?

Terry Moore: É, eu tinha as personalidades delas: a emoção ardente de Katchoo e a natureza doce de Francine. No começo, elas não estavam na mesma história em quadrinhos, mas então descobri que elas ficavam muito bem juntas. Só desenhei várias tiras e brinquei com ideias. Era fácil escrever para elas, do jeito que elas conversavam e interagiam. Essas foram as tiras que mais gostei. Então, quando chegou a hora de fazer um gibi, fui com minhas duas personagens preferidas e mais confiáveis: Francine e Katchoo.

UHQ: Há uma grande virada da primeira série de histórias para a segunda: da comédia romântica passa-se ao suspense. E você começa a terceira em um “futuro” no qual as meninas estão separadas há anos. É um choque. Por que tomou essa decisão da interrupção no relacionamento delas?

Moore: Eu queria mostrar que elas lutavam pelo que tinham. Não era uma história da Disney, era a vida real na qual as pessoas mudam e você deve decidir se deseja essa pessoa em sua vida a longo prazo, à medida que você muda e elas mudam.

É uma paixão a curto prazo ou um amor a longo prazo que não pode ser parado? Se for a longo prazo, você precisa lutar para mantê-lo. Essa foi a história.

Terry Moore

UHQ: Por que as edições # 25 e # 33 não estão em Strangers in Paradise Pocket Book, que é a base para esta nova edição brasileira?

Moore: Essas duas edições foram histórias isoladas. Eu fazia isso no verão, para dar aos leitores uma pausa divertida do drama da série. A # 25 era com férias na praia e a # 33 era um sonho de Freddie com super-heróis. É claro que acabei incluindo-as na história principal, de qualquer maneira. Mas você não mencionou a edição # 16, a paródia de Xena. Foi divertida (Nota do UHQ: embora seja também uma história isolada, a edição # 16 está no segundo volume da coleção, Ama-me com Ternura).

UHQ: Como está a adaptação para o cinema?

Moore: Leva um tempão para você ter respostas para qualquer coisa, hoje em dia. Você tem uma reunião e todo mundo está muito animado, então você nunca mais recebe notícias deles. Não sei se isso vai acontecer. Se acontecer depois que eu morrer, vou ficar muito bravo. Agora digo ao pessoal de Hollywood: “Enquanto eu estiver vivo, por favor”.

UHQ: Qual a função de David na dinâmica do relacionamento de Katchoo e Francine?

Terry: Ele é o nosso avatar nesse jogo. Ele é o mais parecido conosco, a quem é permitido entrar no quarto com essas duas e estar com elas durante a história de suas vidas. Ele é a Suíça, o personagem não ameaçador que testemunha a história e se apaixona.

UHQ: Quando Estranhos no Paraíso foi lançada, a cena independente dos quadrinhos ainda estava no começo. Como era trabalhar em um título independente naquela época e agora?

Moore: Foi como os primeiros dias de um movimento musical e você fazendo parte dele. Foi divertido e emocionante. Todo mundo conhecia todo mundo e se ajudava. Foi ótimo fazer parte de algo novo e crescente. O negócio era muito saudável e as lojas pediam muitos exemplares.

Hoje é muito diferente. Nossos corações estão no lugar certo, mas o mundo e os quadrinhos são diferentes agora. É complicado, mas as pessoas que amam histórias sempre encontrarão uma maneira de fazê-las e de encontrá-las.

UHQ: Devemos esperar a publicação de Strangers in Paradise XXV no Brasil?

Moore: SiP XXV acontece após a série principal. Então, se você quiser ler a história cronologicamente, sim. Mas minha atitude é sempre: “leia-as assim que os encontrar!”. E se um gorila arrancar sua cabeça amanhã e você passar o resto da vida desejando que tivesse lido SiP XXV quando teve a chance? E ter sua cabeça de volta, é claro.

UHQ: Essa é uma época em que a representação feminina é um assunto cada vez mais importante. E você é um homem celebrado por contar a história de duas mulheres. Já foi questionado a respeito disso?

Moore: As pessoas me fazem perguntas genéricas sobre como escrever mulheres, mas não da maneira atual, me desafiando a respeito. Talvez eu tenha permissão para continuar porque faço isso há tanto tempo? Eu não sei. Espero que meu trabalho fale por si. Espero que a história seja importante, não quem a escreveu.

Mas se a história é boa pelo padrão da cultura de hoje, e um homem a escreveu, não é isso que todo mundo espera? Há muitos homens por aí que apoiam os direitos das mulheres. Um desses homens escreveu uma história chamada Estranhos no Paraíso e tentou mostrar como as mulheres são magníficas, corajosas e fortes. Simples assim.

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Renato Félix não é estranho ao trabalho de Terry Moore, e há anos aguardava a chegada de histórias inéditas de Estranhos no Paraíso no Brasil!

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  • Rogerio Araujo Ferreira

    Estranhos no paraíso estará sempre no meu top 10 de quadrinhos. A emoção e personalidade que Terry Moore dá aos personagens é inigualável.