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Capitão América: Herói ou Vilão? (Parte 1)
É grande a polêmica sobre o status quo do famoso personagem nos dias de hoje. Confira uma retrospectiva da carreira do Sentinela da Liberdade, e tire suas próprias conclusões
Por Nano Souza
Pesquisa
recentemente divulgada pela rede norte-americana NBC aponta que,
no mundo inteiro, cresceu a antipatia contra os norte-americanos, e principalmente
contra o governo Bush. Um dos motivos mais recentes para essa nova onda
de "antiimperialismo ianque" foi a invasão ao Iraque. Nem mesmo o fato
de Saddam Hussein ser um dos ditadores mais sanguinários da História,
tornou menor a indignação contra a morte de milhares de civis inocentes
no conflito, os abusos das tropas aliadas durante a "guerra" ou a falta
de provas de que Hussein era mesmo uma ameaça a paz mundial.
As conseqüências desse sentimento antiestadunidense fazem-se sentir até
mesmo nas HQs. Enquanto os mangás - quadrinhos japoneses - ocupam mais
e mais os corações dos leitores e são sinônimos de boas vendas, mesmo
com qualidade renovada os tradicionais "comics" - quadrinhos norte-americanos
- têm suas tiragens reduzidas.
Os
brasileiros vivem um momento histórico de recuperação de uma "identidade
nacional", e parte desse "novo nacionalismo" se manifesta muitas vezes
em xenofobia aos estadunidenses: a mesma pesquisa da NBC aponta
o Brasil como o terceiro país do mundo onde a população tem maiores sentimentos
anti norte-americanos.
Um capítulo especial dessa polêmica no mundo das HQs vem se dando nas
revistas da Marvel/Panini do Brasil, onde alguns leitores se manifestaram
para que a editora pare de publicar as histórias do Capitão América em
nosso país, devido ao conteúdo "político" da atual série do personagem.
Segundo esses leitores, essas histórias seriam "propaganda velada" da
política de intervenção estadunidense nos demais países e também estariam
passando a idéia de que os terroristas árabes estariam totalmente errados
no conflito, enquanto os norte-americanos seriam "os santos".
Não é a primeira vez que o Capitão América é acusado de "imperialista".
Uma das acusações que muitos estudiosos em Comunicação sempre fizeram
contra os comics foi de seu papel enquanto "propaganda ideológica".
Um dos maiores alvos nessa crítica sempre foi o Capitão América, personagem
que, mais que qualquer outro, carrega o estigma de ser norte-americano:
além da bandeira dos EUA ser o seu uniforme, até o aniversário do personagem
seria em 04 de julho, dia em que se comemora a independência do país!
Segundo
muitos estudiosos, o Capitão seria a síntese da ideologia militarista
norte-americana: um herói intervencionista, que toma a justiça pelas próprias
mãos, contra governos estrangeiros que representariam "o mal", justamente
por seguirem outro modo de vida que não o norte-americano. A única arma
usada pelo Capitão - um escudo - representaria a idéia de que os EUA só
atacam para se defender; o fato do Capitão agir de forma independente
- do governo ou de instituições - faz parte da ideologia liberal capitalista
da "livre iniciativa", onde pessoas vestem uniformes e saem caçando criminosos
(no caso do Capitão, espiões e agentes terroristas) por sua própria conta.
Assim como todo e qualquer personagem de ficção, o Capitão América é fruto
de uma época em especial, foi criado em determinada situação histórica,
refletindo assim seu ambiente sócio-econômico. Como personagem típico
de HQs norte-americanas, o Capitão continuou sendo publicado através dos
anos, em diversos momentos históricos e políticos diferentes, refletindo
cada um deles. Ou seja, o personagem sempre foi o retrato de seus criadores,
não haveria um "Capitão América" pronto, definitivo, mas uma personagem
que expressa mais o que pensam seus atuais autores e editores do que um
projeto pronto e acabado.
Quem foi o Capitão América?
Quando
o personagem foi criado, em março de 1941, os Estados Unidos estavam às
vésperas de entrarem na II Guerra Mundial. Embora se costume culpar o
"ataque traiçoeiro" dos japoneses à base de Pearl Harbor, o certo é que
há algum tempo as autoridades militares e políticas estadunidenses já
haviam escolhido seu lado na Guerra, só precisavam do motivo certo para
angariar o apoio da Opinião Pública. Diversos personagens da ficção -
rádio, cinema, pulps, histórias em quadrinhos - já estavam fazendo
seu trabalho, pintando os alemães e japoneses como vilões facínoras e
denunciando os "espiões" e "traidores" entre a própria população.
A editora Timely Comics (que viria a se tornar a Marvel)
entrou no clima, e encomendou ao estúdio de Joe Simon e Jack Kirby um
personagem que encarnasse os "ideais" do país, alguém que fosse um "Super-Americano".
Os motivos eram puramente editoriais: um personagem "patriota" deveria
fazer muito sucesso entre as crianças norte-americanas, já que as convocações
em massa estavam sendo realizadas, e dificilmente havia uma família na
América onde não houvesse um pai, um tio ou um irmão maior na lista de
convocados.
Simon e Kirby decidiram transformar um desses soldados no seu "super-herói".
Baseados numa nota publicada num jornal, sobre um jovem que queria se
alistar mesmo que o departamento médico do exército o tivesse considerado
inapto, os criadores elaboraram a origem do herói: ele seria um voluntário
franzino de um experimento secreto do governo para criar um supersoldado
para as tropas norte-americanas. Infelizmente o cientista que elaborou
o experimento seria morto por um espião nazista, razão esta que só haveria
um supersoldado, e este seria o Capitão América.
Kirby
projetou o visual clássico do personagem, vestindo-o com as cores da bandeira
dos Estados Unidos, e dando-lhe um escudo como única arma, símbolo de
que ele só atacava para se "defender" e também porque o uso de armas de
fogo por um personagem que deveria ser "modelo" para as crianças era visto
como tabu naquela época.
O Capitão ganhou um pré-adolescente como parceiro, Buck, uma cópia descarada
de Robin, com quem os leitores se identificariam. Sidekicks eram
comuns naquela época, e praticamente uma "obrigação editorial" em histórias
de super-heróis.
A identidade secreta do Capitão América era Steve Rogers, e, apesar de
ser o Capitão América, ele se disfarçava como um simples e incompetente
soldado de um destacamento do exército estadunidense. Seria por essa "identificação"
em especial para com o personagem, que mais tarde o Capitão América também
se tornaria popular entre os combatentes, e não somente entre as crianças
nos EUA. O próprio Exército chegou a comprar e encomendar edições da revista
para que ela fosse distribuída para suas tropas e servisse de "inspiração".
E
que inspiração as histórias do Capitão América eram! Apresentando os alemães
e japoneses como facínoras, burros e sanguinários, as histórias eram recheadas
de ação e de bandidos antológicos, como o Caveira Vermelha e o Barão Zemo.
Sim, era estranho que a "raça ariana perfeita" que pregava o nazismo tivesse
gente deformada e aterrorizante como o Caveira Vermelha como modelo e
"herói", mas essa história estava sendo contada pelos norte-americanos
e não pelos alemães. Os meios de comunicação trataram a II Guerra Mundial
como um simples confronto entre o bem e o mal, e esse maniqueísmo foi
muito forte nas histórias do Capitão. Mas mais do que isso, essas histórias
estabeleceram o primeiro "super-herói" político de fato, onde não havia
mensagens implícitas ou meios termos: Steve Rogers dizia com todas as
letras que era o defensor da democracia, da justiça e do modo de vida
americano.
Finda a Guerra e o herói teve de voltar para casa. Qual seria a solução?
Transformaram-no em combatente do crime, como tantos por aí - bem mais
competentes, diga-se de passagem. Tanto é que o herói não agüentou a concorrência
na nova "linha de trabalho", e sua revista foi cancelada em 1948, em meio
a crise de vendas que também seria uma das causas do fim da chamada "Era
de Ouro das HQs".
Em
1954 tentou-se uma "ressurreição" do título, voltando ao tema "político".
Agora o Capitão América e seu parceiro Buck enfrentam agentes e espiões
comunistas. Estamos na Guerra Fria e muitos outros personagens das HQs
e do cinema foram chamados para desempenharem seu papel na luta contra
a "opressão e subversão" vermelhas. Chegaram, inclusive, a transformar
o Caveira Vermelha em agente comunista, afinal os autores de HQs e norte-americanos
médios nunca foram especialistas em política, nem teriam como saber das
diferenças irreconciliáveis entre nazistas (extrema-direita) e comunistas
(extrema-esquerda). Bastava dizer que eram todos iguais, que comunistas
e nazistas eram sanguinários, facínoras, covardes e burros.
Não deu certo. Após três anos, o herói foi novamente aposentado pelas
baixíssimas vendas. A figura do herói como "anticomunista" não colou tanto
quanto a do Superman, por exemplo, que na mesma época lutou contra a "ameaça
vermelha" com mais sucesso.
Chegam os anos 60, e os EUA vivem outro momento político. Depois da "Caça
as bruxas" e a paranóia anticomunista dos anos 50, são agora tempos de
"abertura". A luta pelos direitos civis, principalmente das minorias,
ganha força, tendo como ícones Martin Luther King, John Kennedy e o movimento
hippie. Nas HQs, surge a Marvel Comics (antiga Timely),
que humaniza o mito dos super-heróis.
A
medida em que novos heróis vão surgindo, a Marvel se volta para
seu passado e traz de volta alguns de seus antigos personagens, entre
eles, o até então aposentado Capitão América. Stan Lee resolve dar uma
nova chance ao antigo herói, o colocando na superequipe "Vingadores" ao
lado de Homem de Ferro, Thor, Homem Formiga e Vespa. Em Avengers #
4 (1964) é explicado que o herói não envelhecera porque havia sido
congelado ao final da II Guerra Mundial. Ou seja, resolveram desconsiderar
a diáfana fase do personagem nos anos 50. O Capitão América "macarthista"
seria outro, não Steve Rogers.
Isso quer dizer que o Capitão não enfrentava a "ameaça comunista" nos
anos 60? É claro que sim, mas essa não era sua prioridade. Stan Lee o
via como um super-herói que havia se tornado mais do que humano não por
ter superpoderes, mas por ter um "supercaráter". Apesar de ser um cara
"normal", o Capitão era tratado como um herói absoluto e invencível, longe
de dúvidas e de falhas, bem ao contrário de outro ícone da editora, o
Homem-Aranha, que apesar dos superpoderes era tão suscetível de falhas
como qualquer um de nós.
Nesse cenário ainda de Guerra Fria, o Capitão teve alguns atritos contra
espiões comunistas, chineses ou soviéticos, mas esse nunca foi o "centro"
de suas histórias. Como o próprio Stan Lee reconheceu muitos anos mais
tarde, a Guerra Fria era mais do que um confronto entre o bem e o mal,
por isso essas histórias não "funcionavam tão bem quanto aquelas contra
os nazistas". Afinal, não haveria ninguém em sã consciência que apoiasse
a causa nazista, quando esta estava tão identificada com o genocídio e
o preconceito. A solução? Trazer os nazistas de volta, sobre a forma de
velhos vilões como o Caveira Vermelha e o Barão Zemo, e também com a criação
da Hidra, organização terrorista neonazista, com objetivo de dominar o
mundo.
Essas
histórias de fins dos anos 60 em muito se assemelhavam com outro sucesso
de mídia: James Bond. Assim como 007, o Capitão América lutava contra
organizações criminosas espalhafatosas, que abusavam de equipamentos de
alta tecnologia, e até convivia com sedutoras espiãs, como a sua namorada
de então, Sharon Carter, agente da Shield - o equivalente Marvel
ultratecnológico à Cia.
Mas voltando a luta pelos direitos civis: em tempos de Martin Luther King,
Malcom X e Panteras Negras, porque não identificar o Símbolo da Liberdade
também com a luta de emancipação das minorias? Assim, no fim dos anos
60, o Capitão trocou de parceiro: ao invés de Buck - agora vivido pelo
adolescente Rick Jones - foi apresentado aos leitores Sam Wilson, o Falcão.
Negro, ex-marginal, e militante da luta de seu povo, Sam foi um legítimo
representante dos guetos nas histórias do Capitão. Ao invés de um "discípulo",
o Falcão era realmente um parceiro para Steve Rogers, lutando juntos,
de igual para igual, por um país melhor, livre do Caveira Vermelha, da
Hidra, ou outros facínoras.
Nos anos 70, a derrota na Guerra do Vietnã e o Escândalo Watergate - que
derrubou o presidente Nixon - colocaram a tal "consciência americana"
em crise. Com o Capitão não foi diferente. Nas páginas de sua revista,
aparecia uma nova organização criminosa - O Império Secreto. Ao contrário
da Hidra, o Império era formado por criminosos norte-americanos que pretendiam
tomar o poder nos EUA e no mundo, e, pior do que isso, ao fim da série
de lutas contra o Império, o Capitão América chega até o misterioso líder
da Organização, nada mais, nada menos, que um Chefe de Gabinete da Casa
Branca, uma das figuras mais respeitadas do país.
Em "crise de valores", Steve Rogers abandona o uniforme de Capitão América
e passa a circular o país sob a identidade de "Nômade", procurando a verdadeira
"alma" da América. Após esse período de "auto-exílio", o herói retorna
sua identidade como Capitão e define que sua luta não é por nenhum governo
ou política, mas sim pela gente simples e comum, que vive em cada cidade
e em cada região do grande território dos Estados Unidos.
Essa "mudança de orientação" teria transformado o Capitão América num
super-herói comum, não fosse continuar usando as roupas e o "nome" da
América. Nos anos 80, em meio aos escândalos da Nicarágua e do Irã-Contras,
mais uma vez a consciência norte-americana sofria um duro golpe, e isso
iria se refletir nas páginas de Capitão América, numa das melhores fases
já escritas para o personagem.
Numa trama brilhantemente elaborada pelo roteirista Mark Gruenwald, Steve
Rogers é pressionado por uma Comissão de Assuntos Super-humanos para que
passe a trabalhar sob os auspícios do governo, uma vez que seu uniforme,
seu escudo e seu nome foram criados pelo Governo dos Estados Unidos.
Indisposto a seguir ordens que poderiam fazer com que colaborasse na queda
de regimes de outros países, a fazer espionagem contra outros povos e
a participar talvez de lutas e ações injustas, Steve Rogers decide ceder
seu "cargo". O discurso proferido por ele nesta ocasião é de uma simbologia
toda especial, porque definiria por completo quem realmente é o Capitão
América e o que ele defende:
"Eu não represento os Estados Unidos, o presidente dos EUA faz isso.
Por toda minha vida o que representei e o que lutei foram os ideais pelos
quais foram fundados o nosso país: os ideais de liberdade, justiça e igualdade,
que são comuns a todos os povos, e não só o norte-americano. Se eu aceitasse
as regras da Comissão estaria traindo esses ideais. Por isso não poderia
continuar sendo o Capitão América".
Enquanto a Comissão escolhe um substituto para Steve Rogers - um individuo
militarista e sem escrúpulos, perfeito seguidor de ordens, que interpreta
aquele Capitão América que os estudiosos em comunicação tanto falam -,
o herói original segue sua luta, adotando uma nova identidade, um uniforme
semelhante, mas com as cores vermelho, branco e preto (representando luto,
talvez?).
Por
quase um ano, o confronto ideológico entre o novo Capitão América (John
Walker) e Steve Rogers, o Capitão original, permeou as páginas da revista,
reinterpretando as motivações do personagem e seu papel no universo dos
Quadrinhos.
No final da saga foi revelado que o Caveira Vermelha - que havia adquirido
uma identidade civil de alta respeitabilidade no governo norte americano
- havia manipulado a Comissão para que destituíssem Steve Rogers do seu
papel de Capitão América.
Ou seja, os próprios Estados Unidos estavam nas mãos do maior Inimigo
da justiça, da liberdade e do "modo de vida americano".
Caveira desmascarado, Steve Rogers volta ao uniforme e a identidade de
Capitão América, assumindo agora o papel de comandante máximo dos Vingadores.
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