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Capitão América: Herói ou Vilão? (Parte 2)

Por Nano Souza


Crise e Queda de um mito

Captain America #350 - O confronto entre liberais e conservadoresApós esse "debate ideológico" intenso entre conservadores e liberais nas páginas de Capitão América, o herói voltou a linha de trabalho "super-herói".

Mais uma vez, esse papel não lhe caiu bem e as vendas despencaram outra vez. Mas mais do que isso, a queda nas vendas pode também ter sido reflexo do clima político em que viviam os EUA nos anos 90. Enquanto super-heróis "durões" como Spawn, Motoqueiro Fantasma, Wolverine, Lobo, entre outros, cresciam em vendas e popularidade, o Capitão América era quase uma peça de museu.

A idéia de globalização ganhava a mídia com força e pregava um mundo sem fronteiras; o neoliberalismo aposentava o conceito de Estado e paralelamente atacava o nacionalismo; as idéias coletivas - e o nacionalismo sempre foi uma delas - perdiam espaço frente a propaganda individualista.

Se em países de terceiro mundo o nacionalismo já teve dias melhores, no chamado "primeiro mundo" não foi diferente. A bandeira norte-americana foi aposentada por uma nova geração que tinha como pátria não o mundo, mas a si próprios. Ao invés das liberdades civis, surgiam programas de segurança que tinham como principais alvos minorias, como o "tolerância zero"; o movimento neonazista crescia em proporções assustadoras, em resposta a tudo isso. Que chances teriam o pobre Steve Rogers e seus ideais de democracia, justiça e modo de vida americano?

Captain America #453 - Homem Sem Pátria, história indicada para o Prêmio Eisner e com participação especial de Bill ClintonA Marvel tentou uma saída com a contratação da dupla Mark Waid / Ron Garney, que tentaram trazer de volta os temas políticos como "pano de fundo". Na primeira saga, o Capitão América é salvo pelo próprio Caveira Vermelha, que precisa da aliança do Capitão contra uma ameaça ainda pior: o próprio Adolf Hitler, cuja consciência fora aprisionada dentro do Cubo Cósmico, artefato de possibilidades mitológicas, capaz de redefinir a realidade e transformar a América num pesadelo nazista.

A saga a seguir foi a premiada Homem Sem Pátria, na qual Steve Rogers era acusado de traidor, desterrado do seu país e novamente perdia o uniforme e a identidade de Capitão América. No final, provou-se que o Capitão América não tinha traído ninguém, mas sim sua mente havia sido "lida" pelo vilão conhecido como Mecannus. Num final simbólico, o próprio Bill Clinton devolve o escudo para o Capitão América, dizendo que ninguém mais poderia representar esse papel.

Ainda sim, apesar das vendas melhorarem, os editores queriam os números astronômicos que tantas outras publicações detinham. Numa burrice sem par, articularam o bizarro projeto Heróis Renascem, na qual a continuidade de seus mais tradicionais personagens era zerada. Para trabalhar um "novo" Capitão, foi chamado ninguém mais, ninguém menos, que o nefasto Rob Liefeld (figura ameaçada de morte por 11 em cada 10 leitores de quadrinhos). Liefeld é conhecido nas industria de HQs como um dos símbolos da Era Image - ou seja, super-heróis de moral dúbia, de proporções anatômicas impossíveis, e de capacidade intelectual questionável.

Captain America Vol. 2 #1 - Rob Liefeld reformula o Capitão América para o evento Heróis RenascemApesar do desastroso traço de Rob Liefeld, e das muitas idéias idiotas que trazia para a nova série, ele deu uma dentro: percebeu que "política" era o pano de fundo natural das histórias do Capitão. Não adiantava fazer com que ele funcionasse como simples super-herói, isso nunca tinha dado certo. Naquele momento, grupos neonazistas pipocavam em todo canto pela Europa e Estados Unidos, e esses foram os vilões escolhidos para serem os antagonistas máximos de Steve Rogers.

Por trás disso, vilões como Caveira Vermelha e Barão Zemo estariam manipulando tudo, se aproveitando do ódio dos jovens norte-americanos contra negros, judeus e latinos. Infelizmente, Liefeld nunca foi conhecido por ser um roteirista muito talentoso... após oito meses, a Marvel reincidia seu contrato, insatisfeita com as vendas e resultados. A série foi assumida pelos estúdios Wildstorm (de Jim Lee) até que a editora (graças a deus!) acabasse de vez com o malfadado projeto.

Tentou-se uma volta com a dupla Mark Waid e Ron Garney, mas mesmo essas histórias não tinham o brilho da primeira fase da dupla, ainda que apresentassem qualidade bem razoável, e ainda trouxessem a discussão dos ideais do Capitão como pano de fundo. Após um ano e meio, a dupla estava novamente fora do título, e então a série foi para a batuta de um "especialista" em super-heróis, o roteirista e desenhista Dar Jurgens, conhecido por seus trabalhos em Superman e Thor. Novamente a linha "super-herói contra supervilões" foi adotada, e novamente o Capitão conheceu uma franca decadência.

O Capitão América pós 11 de Setembro

Capitão América chora pelas vítimas dos atentados de 11 de setembro. Desenho do brasileiro Mike Deodato Jr.Foi quando Joe Quesada assumiu como editor-chefe e decidiu "pôr ordem" na "Casa das Idéias". Primeiro trabalhou com os títulos líderes de venda da editora (X-Men e Homem Aranha), para depois se concentrar em outros "personagens referência".

No caso do Capitão América foi decidido cancelar a revista regular do herói e criar uma nova série, agora sob o selo Marvel Knigths - publicações mais "adultas" e mais "realistas" com os tradicionais personagens da editora. Para essa nova visão do personagem, mais humanista e apresentando temas políticos, foram contratados o roteirista John Ney Rieber e o desenhista John Cassaday, ambos selecionados entre uma dezena de candidatos ávidos por trabalhar com o velho Capitão.

Foi no meio desse processo que ocorreram os atentados ao World Trade Center: como se a Marvel ganhasse na loteria! Rapidamente, a editora lançou uma campanha na internet e em cartazes espalhados por Nova York, convocando as pessoas para doarem sangue para ajudarem no resgate das vítimas: adivinha quem ocupava 70 % do cartaz, "chamando os americanos nessa hora de necessidade"!

A sacada rápida de Joe Quesada gerou resultados, e com a volta do nacionalismo exacerbado, das bandeiras nos pátios e do espírito beligerante dos norte-americanos, o Capitão América parecia ter o terreno pronto para ocupar de novo o coração do jovem leitor estadunidense. Mas, o que parecia um "auspício" de uma gloriosa nova fase na vida do "Sentinela da Liberdade", mostrou-se como início de uma série de problemas que até hoje atingem o titulo.

Captain America Vol. 4 #1 - Começa o período pós-atentados de 11 de setembro John Ney Rieber tem pinta de pacifista. O escritor ganhou notoriedade com seu excelente trabalho em The Books of Magic, no qual mais do que a saga do menino que se tornaria "o maior mago da Terra", na verdade, contou uma fábula sobre a adolescência, os passos de uma criança rumo à maturidade. O profundo sentimento humano no texto introspectivo de Rieber foi considerado como o ideal pelos editores Stuar Moore e Joe Quesada para a nova série que pretendiam para o Capitão. Mas a série que se imaginava anteriormente ao WTC era uma série de tempos de paz, com um Capitão América voltado para si e questionando os valores do "modo de vida americano".

O alinhamento da Marvel à "Guerra ao terrorismo" fatalmente empurraria o Capitão América a uma direção contrária daquela pretendida por Rieber & Cassaday. Ao invés de um pacifista introspectivo, o Capitão agora obrigatoriamente já era apresentado no primeiro número da nova série como um "guerreiro reticente", alguém que faz "guerra pela paz", que luta contra o terrorismo porque nada justifica a morte de vítimas inocentes. Ainda assim, mesmo essa nova orientação editorial, não impediu Rieber de tecer fortes críticas ao militarismo norte-americano - a verdadeira causa do terrorismo, na sua opinião.

Captain America Vol. 4 #2 - A luta contra o terrorismoJá em Capitão América # 1 (Marvel 2002 # 10), Rieber mostra o Capitão defendendo um nova-iorquino descendente de árabes de um ataque de exaltados xenófobos norte-americanos: "Guardem suas forças para o verdadeiro inimigo", diz ele. Não bastasse isso, Rieber constrói uma saga na qual mostra que as armas de alta tecnologia usada pelos terroristas foram de fabricação norte-americana. A crítica à Indústria da Guerra vai além: Num confronto contra um grupo terrorista, o Capitão ainda é obrigado a ouvir, pela boca do líder do bando, que a "América estava colhendo o que plantou". Cenas de vilas palestinas e asiáticas destruídas permeiam a história, mostrando que, na verdade, o terrorismo é conseqüência de um outro tipo de terror, plantado pelos próprios norte-americanos.

O programa básico de Rieber agora era levar o Capitão América para uma "volta ao mundo". Mostrar as barbaridades que os militares norte-americanos tinham aprontado globo afora, e porque tanta gente odeia os Estados Unidos. Colocar em questionamento o que é o tal de "sonho americano".

Numa primeira etapa, o herói vai até a Alemanha, e visita uma cidade onde combateu na Segunda Guerra Mundial. Dai então, vemos de forma surpreendente, o Capitão lembrando de como os Aliados mataram milhares de civis, mulheres e crianças alemãs, para poder derrotar os nazistas. Não são poupados detalhes daquelas mortes, nem o remorso do Capitão, ao refletir que é sempre o povo quem paga nesse tipo de conflito.

Captain America Vol. 4 #3Nem é preciso dizer que essa história (Marvel 2003 # 3) promoveu o maior bafafá dentro da Marvel. Reza a lenda que Joe Quesada ficou tão irado que passou a interferir diretamente no titulo. Já na edição seis, a tal "volta ao mundo" do Capitão é interrompida, ficando na Alemanha mesmo, antes que mais danos pudessem ser feitos à "imagem americana". Afinal, em época de guerra, não cabe lembrar aos leitores que as tropas americanas também matam civis, mulheres e crianças, mundo afora.

Como se não bastasse, o Capitão ainda passa um discurso moralista para cima do súbito "líder terrorista" revelado, num clima que destoa completamente daquele apresentado nas edições anteriores: sinal claro de intervenção editorial (confira em Marvel 2003 # 4). Assim, Captain América # 6 foi a última edição desenhada por John Cassaday, que teve de redesenhar páginas da história em questão, e se mostrou indisposto a continuar fazendo um trabalho regular num título tão atribulado, preferindo ficar somente com as capas.

Quanto ao roteirista John Ney Rieber, a partir daí teve mais atritos com Joe Quesada, a ponto do editor chamar seu amigo Chuck Austen (autor da "patriótica" The Call of Dutty) para ser parceiro de Rieber no título, começando na edição # 9. Recentemente, foi anunciado que Austen substituirá Rieber em definitivo a partir da edição # 14. Sobre sua saída, John Rieber admitiu que ocorreu em virtude dos conflitos editoriais: "O Capitão América que eu estou escrevendo não é o Capitão América que eles querem. A minha saída é o melhor para todos", chegou a dizer.

Captain America Vol. 4 # 10Chuck Austen já havia sido cogitado para escrever a nova série do Capitão, mas os editores Stuart Moore e o próprio Joe Quesada haviam preferido as idéias de Rieber. A proposta de Austen, conforme ele próprio admitiu, é fazer um "Capitão América mais ativo na luta contra o terrorismo, combatendo o terror ao redor do mundo". Uma das idéias de Austen inclusive seria o Capitão liderar uma "equipe anti-terror" que contaria com a participação de heróis, como o Gavião Arqueiro, por exemplo.

Paralelamente a isso, estourou a invasão Norte Americana do Iraque. No meio das HQs se preferiu ficar em silêncio diante de tamanha polêmica: embora grande parte dos autores de comics sejam figuras progressistas, a maior parte dos leitores - 70% da população norte-americana foi a favor da guerra - poderia não receber muito bem críticas quanto ao conflito. Os editores optaram pelo silêncio, então, do que criticar ou apoiar a ação.

As almas mais beligerantes da opinião pública estadunidense não se deram por contentes com essa atitude. Queriam mais: queriam engajamento explícito e declarado. E um dos principais "desertores" dessa Guerra de Propaganda foi o Capitão América. A ponto de muitos críticos de entretenimento cobrarem uma postura mais "ativa" do velho Capitão na questão iraquiana, coisa que a Marvel decididamente não estava fazendo.

Captain America Vol. 4 #15O reacionário crítico de cinema da revista National Review, Michael Medved, chegou a publicar, em 04 de abril, artigo acusando o Capitão América de "traição". No texto, Medved diz que, em sua nova série, "o Sentinela da Liberdade parece desiludido, amargo e surpreendentemente simpático aos terroristas".

Ao que parece, Joe Quesada e a Marvel decidiram se render aos espíritos beligerantes, o que explica em muito a saída de Rieber e a confirmação em definitivo de Austen. Uma pena. No entanto, isso serve muito bem para ilustrar: os Estados Unidos passam hoje por uma nova fase na sua História, de aspecto mais bélico e xenófobo. Que o Capitão América acompanhe a consciência dos norte-americanos não seria uma surpresa. Mas, em nenhum momento o problema é o personagem em si, e sim aqueles que o escrevem. Estes são os vilões: Steve Rogers, há muito tempo, provou para milhares de leitores de todo mundo que é um herói, independente das causas espúrias que o forçam a abraçar. Porque justiça, liberdade e igualdade são princípios universais e não podem ser usurpados por este ou aquele governante, de "esquerda" ou "direita". Exatamente pela "universalidade" desses princípios, o personagem é tão amado em outros países, inclusive no Brasil.

Nano Souza é jornalista, escritor amador, e adora escrever fanfictions, entre eles, muitas e muitas histórias de Capitão América, Quarteto Fantástico e sua "série autoral", Clarim Diário.




 

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