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Capitão América: Herói ou Vilão? (Parte 2)
Por Nano Souza
Crise e Queda de um mito
Após
esse "debate ideológico" intenso entre conservadores e liberais nas páginas
de Capitão América, o herói voltou a linha de trabalho "super-herói".
Mais uma vez, esse papel não lhe caiu bem e as vendas despencaram outra
vez. Mas mais do que isso, a queda nas vendas pode também ter sido reflexo
do clima político em que viviam os EUA nos anos 90. Enquanto super-heróis
"durões" como Spawn, Motoqueiro Fantasma, Wolverine, Lobo, entre outros,
cresciam em vendas e popularidade, o Capitão América era quase uma peça
de museu.
A idéia de globalização ganhava a mídia com força e pregava um mundo sem
fronteiras; o neoliberalismo aposentava o conceito de Estado e paralelamente
atacava o nacionalismo; as idéias coletivas - e o nacionalismo sempre
foi uma delas - perdiam espaço frente a propaganda individualista.
Se em países de terceiro mundo o nacionalismo já teve dias melhores, no
chamado "primeiro mundo" não foi diferente. A bandeira norte-americana
foi aposentada por uma nova geração que tinha como pátria não o mundo,
mas a si próprios. Ao invés das liberdades civis, surgiam programas de
segurança que tinham como principais alvos minorias, como o "tolerância
zero"; o movimento neonazista crescia em proporções assustadoras, em resposta
a tudo isso. Que chances teriam o pobre Steve Rogers e seus ideais de
democracia, justiça e modo de vida americano?
A
Marvel tentou uma saída com a contratação da dupla Mark Waid /
Ron Garney, que tentaram trazer de volta os temas políticos como "pano
de fundo". Na primeira saga, o Capitão América é salvo pelo próprio Caveira
Vermelha, que precisa da aliança do Capitão contra uma ameaça ainda pior:
o próprio Adolf Hitler, cuja consciência fora aprisionada dentro do Cubo
Cósmico, artefato de possibilidades mitológicas, capaz de redefinir a
realidade e transformar a América num pesadelo nazista.
A saga a seguir foi a premiada Homem Sem Pátria, na qual Steve
Rogers era acusado de traidor, desterrado do seu país e novamente perdia
o uniforme e a identidade de Capitão América. No final, provou-se que
o Capitão América não tinha traído ninguém, mas sim sua mente havia sido
"lida" pelo vilão conhecido como Mecannus. Num final simbólico, o próprio
Bill Clinton devolve o escudo para o Capitão América, dizendo que ninguém
mais poderia representar esse papel.
Ainda sim, apesar das vendas melhorarem, os editores queriam os números
astronômicos que tantas outras publicações detinham. Numa burrice sem
par, articularam o bizarro projeto Heróis Renascem, na qual a continuidade
de seus mais tradicionais personagens era zerada. Para trabalhar um "novo"
Capitão, foi chamado ninguém mais, ninguém menos, que o nefasto Rob Liefeld
(figura ameaçada de morte por 11 em cada 10 leitores de quadrinhos). Liefeld
é conhecido nas industria de HQs como um dos símbolos da Era Image
- ou seja, super-heróis de moral dúbia, de proporções anatômicas impossíveis,
e de capacidade intelectual questionável.
Apesar
do desastroso traço de Rob Liefeld, e das muitas idéias idiotas que trazia
para a nova série, ele deu uma dentro: percebeu que "política" era o pano
de fundo natural das histórias do Capitão. Não adiantava fazer com que
ele funcionasse como simples super-herói, isso nunca tinha dado certo.
Naquele momento, grupos neonazistas pipocavam em todo canto pela Europa
e Estados Unidos, e esses foram os vilões escolhidos para serem os antagonistas
máximos de Steve Rogers.
Por trás disso, vilões como Caveira Vermelha e Barão Zemo estariam manipulando
tudo, se aproveitando do ódio dos jovens norte-americanos contra negros,
judeus e latinos. Infelizmente, Liefeld nunca foi conhecido por ser um
roteirista muito talentoso... após oito meses, a Marvel reincidia
seu contrato, insatisfeita com as vendas e resultados. A série foi assumida
pelos estúdios Wildstorm (de Jim Lee) até que a editora (graças
a deus!) acabasse de vez com o malfadado projeto.
Tentou-se uma volta com a dupla Mark Waid e Ron Garney, mas mesmo essas
histórias não tinham o brilho da primeira fase da dupla, ainda que apresentassem
qualidade bem razoável, e ainda trouxessem a discussão dos ideais do Capitão
como pano de fundo. Após um ano e meio, a dupla estava novamente fora
do título, e então a série foi para a batuta de um "especialista" em super-heróis,
o roteirista e desenhista Dar Jurgens, conhecido por seus trabalhos em
Superman e Thor. Novamente a linha "super-herói contra supervilões" foi
adotada, e novamente o Capitão conheceu uma franca decadência.
O Capitão América pós 11 de Setembro
Foi
quando Joe Quesada assumiu como editor-chefe e decidiu "pôr ordem" na
"Casa das Idéias". Primeiro trabalhou com os títulos líderes de venda
da editora (X-Men e Homem Aranha), para depois se concentrar em outros
"personagens referência".
No caso do Capitão América foi decidido cancelar a revista regular do
herói e criar uma nova série, agora sob o selo Marvel Knigths -
publicações mais "adultas" e mais "realistas" com os tradicionais personagens
da editora. Para essa nova visão do personagem, mais humanista e apresentando
temas políticos, foram contratados o roteirista John Ney Rieber e o desenhista
John Cassaday, ambos selecionados entre uma dezena de candidatos ávidos
por trabalhar com o velho Capitão.
Foi no meio desse processo que ocorreram os atentados ao World Trade
Center: como se a Marvel ganhasse na loteria! Rapidamente,
a editora lançou uma campanha na internet e em cartazes espalhados por
Nova York, convocando as pessoas para doarem sangue para ajudarem no resgate
das vítimas: adivinha quem ocupava 70 % do cartaz, "chamando os americanos
nessa hora de necessidade"!
A sacada rápida de Joe Quesada gerou resultados, e com a volta do nacionalismo
exacerbado, das bandeiras nos pátios e do espírito beligerante dos norte-americanos,
o Capitão América parecia ter o terreno pronto para ocupar de novo o coração
do jovem leitor estadunidense. Mas, o que parecia um "auspício" de uma
gloriosa nova fase na vida do "Sentinela da Liberdade", mostrou-se como
início de uma série de problemas que até hoje atingem o titulo.
John
Ney Rieber tem pinta de pacifista. O escritor ganhou notoriedade com seu
excelente trabalho em The Books of Magic, no qual mais do que a
saga do menino que se tornaria "o maior mago da Terra", na verdade, contou
uma fábula sobre a adolescência, os passos de uma criança rumo à maturidade.
O profundo sentimento humano no texto introspectivo de Rieber foi considerado
como o ideal pelos editores Stuar Moore e Joe Quesada para a nova série
que pretendiam para o Capitão. Mas a série que se imaginava anteriormente
ao WTC era uma série de tempos de paz, com um Capitão América voltado
para si e questionando os valores do "modo de vida americano".
O alinhamento da Marvel à "Guerra ao terrorismo" fatalmente empurraria
o Capitão América a uma direção contrária daquela pretendida por Rieber
& Cassaday. Ao invés de um pacifista introspectivo, o Capitão agora obrigatoriamente
já era apresentado no primeiro número da nova série como um "guerreiro
reticente", alguém que faz "guerra pela paz", que luta contra o terrorismo
porque nada justifica a morte de vítimas inocentes. Ainda assim, mesmo
essa nova orientação editorial, não impediu Rieber de tecer fortes críticas
ao militarismo norte-americano - a verdadeira causa do terrorismo, na
sua opinião.
Já
em Capitão América # 1 (Marvel 2002 # 10), Rieber mostra
o Capitão defendendo um nova-iorquino descendente de árabes
de um ataque de exaltados xenófobos norte-americanos: "Guardem suas forças
para o verdadeiro inimigo", diz ele. Não bastasse isso, Rieber constrói
uma saga na qual mostra que as armas de alta tecnologia usada pelos terroristas
foram de fabricação norte-americana. A crítica à Indústria
da Guerra vai além: Num confronto contra um grupo terrorista, o Capitão
ainda é obrigado a ouvir, pela boca do líder do bando, que a "América
estava colhendo o que plantou". Cenas de vilas palestinas e asiáticas
destruídas permeiam a história, mostrando que, na verdade, o terrorismo
é conseqüência de um outro tipo de terror, plantado pelos próprios norte-americanos.
O programa básico de Rieber agora era levar o Capitão América para uma
"volta ao mundo". Mostrar as barbaridades que os militares norte-americanos
tinham aprontado globo afora, e porque tanta gente odeia os Estados Unidos.
Colocar em questionamento o que é o tal de "sonho americano".
Numa primeira etapa, o herói vai até a Alemanha, e visita uma cidade onde
combateu na Segunda Guerra Mundial. Dai então, vemos de forma surpreendente,
o Capitão lembrando de como os Aliados mataram milhares de civis, mulheres
e crianças alemãs, para poder derrotar os nazistas. Não são poupados detalhes
daquelas mortes, nem o remorso do Capitão, ao refletir que é sempre o
povo quem paga nesse tipo de conflito.
Nem
é preciso dizer que essa história (Marvel 2003 # 3) promoveu
o maior bafafá dentro da Marvel. Reza a lenda que Joe Quesada ficou
tão irado que passou a interferir diretamente no titulo. Já na edição
seis, a tal "volta ao mundo" do Capitão é interrompida, ficando na Alemanha
mesmo, antes que mais danos pudessem ser feitos à "imagem americana".
Afinal, em época de guerra, não cabe lembrar aos leitores que as tropas
americanas também matam civis, mulheres e crianças, mundo afora.
Como se não bastasse, o Capitão ainda passa um discurso moralista para
cima do súbito "líder terrorista" revelado, num clima que destoa completamente
daquele apresentado nas edições anteriores: sinal claro de intervenção
editorial (confira em Marvel 2003 # 4). Assim, Captain América
# 6 foi a última edição desenhada por John Cassaday, que teve
de redesenhar páginas da história em questão, e se mostrou indisposto
a continuar fazendo um trabalho regular num título tão atribulado,
preferindo ficar somente com as capas.
Quanto ao roteirista John Ney Rieber, a partir daí teve mais atritos com
Joe Quesada, a ponto do editor chamar seu amigo Chuck Austen (autor da
"patriótica" The Call of Dutty) para ser parceiro de Rieber no
título, começando na edição # 9. Recentemente, foi anunciado
que Austen substituirá Rieber em definitivo a partir da edição # 14.
Sobre sua saída, John Rieber admitiu que ocorreu em virtude dos conflitos
editoriais: "O Capitão América que eu estou escrevendo não é o Capitão
América que eles querem. A minha saída é o melhor para todos", chegou
a dizer.
Chuck
Austen já havia sido cogitado para escrever a nova série do Capitão, mas
os editores Stuart Moore e o próprio Joe Quesada haviam preferido as idéias
de Rieber. A proposta de Austen, conforme ele próprio admitiu, é fazer
um "Capitão América mais ativo na luta contra o terrorismo, combatendo
o terror ao redor do mundo". Uma das idéias de Austen inclusive seria
o Capitão liderar uma "equipe anti-terror" que contaria com a participação
de heróis, como o Gavião Arqueiro, por exemplo.
Paralelamente a isso, estourou a invasão Norte Americana do Iraque. No
meio das HQs se preferiu ficar em silêncio diante de tamanha polêmica:
embora grande parte dos autores de comics sejam figuras progressistas,
a maior parte dos leitores - 70% da população norte-americana foi a favor
da guerra - poderia não receber muito bem críticas quanto ao conflito.
Os editores optaram pelo silêncio, então, do que criticar ou apoiar a
ação.
As almas mais beligerantes da opinião pública estadunidense não se deram
por contentes com essa atitude. Queriam mais: queriam engajamento explícito
e declarado. E um dos principais "desertores" dessa Guerra de Propaganda
foi o Capitão América. A ponto de muitos críticos de entretenimento cobrarem
uma postura mais "ativa" do velho Capitão na questão iraquiana, coisa
que a Marvel decididamente não estava fazendo.
O
reacionário crítico de cinema da revista National Review, Michael
Medved, chegou a publicar, em 04 de abril, artigo acusando o Capitão América
de "traição". No texto, Medved diz que, em sua nova série, "o Sentinela
da Liberdade parece desiludido, amargo e surpreendentemente simpático
aos terroristas".
Ao que parece, Joe Quesada e a Marvel decidiram se render aos espíritos
beligerantes, o que explica em muito a saída de Rieber e a confirmação
em definitivo de Austen. Uma pena. No entanto, isso serve muito bem para
ilustrar: os Estados Unidos passam hoje por uma nova fase na sua História,
de aspecto mais bélico e xenófobo. Que o Capitão América acompanhe a consciência
dos norte-americanos não seria uma surpresa. Mas, em nenhum momento o
problema é o personagem em si, e sim aqueles que o escrevem. Estes são
os vilões: Steve Rogers, há muito tempo, provou para milhares de leitores
de todo mundo que é um herói, independente das causas espúrias que o forçam
a abraçar. Porque justiça, liberdade e igualdade são princípios universais
e não podem ser usurpados por este ou aquele governante, de "esquerda"
ou "direita". Exatamente pela "universalidade" desses princípios, o personagem
é tão amado em outros países, inclusive no Brasil.
Nano Souza é jornalista,
escritor amador, e adora escrever fanfictions, entre eles, muitas e muitas
histórias de Capitão América, Quarteto Fantástico
e sua "série autoral", Clarim Diário.
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