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![]() Um artista adjetivado por um V... de Valoroso Durante o 3º FIQ de Belo Horizonte, David Lloyd, o desenhista inglês de V de Vingança, concedeu uma entrevista exclusiva ao Universo HQ, na qual falou sobre sua carreira, contou quem ensinou Alan Moore a escrever quadrinhos, detonou os super-heróis e mangás e muito mais
Por Sidney Gusman, Sérgio Codespoti e Heitor Pitombo
Um dos convidados estrangeiros do 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, ele foi de uma simpatia ímpar com os fãs, sempre pronto a sacar do bolso os dois lápis que carregava, já prevendo a quantidade de autógrafos que daria.
Lloyd, como bom inglês, esteve o tempo todo com uma lata de cerveja por perto (apesar de ter feito uma careta quando questionado sobre a qualidade da nossa "loira gelada") e contou inúmeros detalhes de sua carreira, que começou com trabalhos como Halls of Horrors, TV Comic e Tales of Terror. Além disso, falou sobre a importância da pesquisa visual em seu trabalho; revelou quem, na sua opinião, ensinou Alan Moore a escrever quadrinhos; conclamou os artistas brasileiros a se unirem para não deixar os mangás tomarem de vez o nosso mercado; e disse que o lugar dos super-heróis é na sarjeta.
Aos 53 anos, David Lloyd mostra nesta entrevista que não tem papas na língua. E, traçando um paralelo com o principal trabalho de sua carreira, V de Vingança, você vai confirmar que, se ele encarnasse o personagem principal da obra, o significado do V poderia ser Verdadeiro, Vitorioso, Valoroso ou Valente. Universo HQ: Qual sua formação? David Lloyd: Eu nasci num subúrbio, de Londres. Era um garoto de classe operária. Sempre fui bom de desenho, amava desenho. Obviamente, quando somos pequenos, achamos que vamos crescer e fazer dinheiro com aquilo.
Nossa geração foi muito diferente da que nos antecedeu, que era, em sua maioria, de ilustradores que voltaram da guerra e, como não conseguiam arranjar empregos, acabavam fazendo quadrinhos. Porque este era o trabalho mais fácil de se fazer. Eles não eram inspirados pelas técnicas das HQs. Quando saí da escola, eu realmente queria ser um artista, mas não pensava em fazer quadrinhos especificamente. Pretendia cursar a escola de arte, mas não o fiz, porque, no final do período escolar, acabei perdendo o prazo de inscrição. Na escola, nunca recebi muita informação sobre a carreira. Saí de lá sem ter o que fazer, e minha mãe me arranjou um emprego.
Lloyd: Como cursei uma escola normal, quando saí entrei para um estúdio de arte comercial, como trainee. Era um daqueles que só fazem propaganda e anúncios, sabe? Fiquei lá por dois anos e meio aprendendo o ofício e, depois de um tempo, decidi sair. Aí, comecei a desenhar quadrinhos por diversão. UHQ: Você lembra o que desenhava naquela época? Lloyd: Quando tinha 13 ou 14 anos, fiz uma tira que era um tributo à EC Comics, chamada Vampiros. Era sobre uma criatura que saía do túmulo. E isso foi engraçado. Meu professor de arte achou que era ótimo. Eram duas páginas apavorantes. Ele falou: "David, coloque no corredor", porque todos os bons trabalhos ficavam afixados lá. E eles colocaram lá. Depois, recebi uma ligação do diretor. Haviam tirado o trabalho, e eu não sabia o porquê do telefonema. Afinal, eu era um bom aluno. Achei que estava encrencado. Eles me disseram que o diretor queria me ver, e eu fiquei me perguntando "o que aconteceu?". Ele achou que o desenho era apavorante demais pra ficar no corredor, mesmo que a arte estivesse ótima. Por isso, o tiraram de lá. Depois disso, ainda na adolescência, fiz uma adaptação de uma das histórias de Arthur C. Clark (o escritor de 2001, uma Odisséia no Espaço).
Lloyd: Tinha um artista inglês chamado Ron Embleton (Nota do UHQ: Ronald Sidney Embleton: 1930-1988), que fazia um história ótima, chamada Wrath of the Gods, para a revista Boy's World, na qual havia um splash de página dupla colorida, que eu achava incrível. Outro foi o inglês John Burns. Não é o John Byrne! Ele fazia uma tira de jornal, que eu achava ser material americano, mas descobri que o artista era inglês. Era muito bacana. Parecia o Rip Kirby (Nota do UHQ: batizado como Nick Holmes no Brasil), do Alex Raymond. Fiquei muito impressionado com aquilo.
Na mesma época, em termos artísticos, havia ainda o Steve Ditko, no Homem-Aranha, e o material inicial do Quarteto Fantástico. Minhas influências eram bem variadas. Além disso, não quero fazer uma enorme lista de pessoas, mas nas revistas da Warren, Creepy e Eerie, que eu também lia, tinha Alex Toth, Neal Adams, o próprio Steve Ditko, Angelo Torres, que fazia um trabalho fantástico, e Gray Morrow, que é americano. Eu me impressionava muito com aquilo. Mas acho que minha maior influência foi Ron Embleton, mesmo. Eu adorava aquele material, e me dava muita vontade de desenhar.
UHQ: Apesar de não gostar muito de super-heróis, existe algum personagem que gostaria de desenhar? Você tem algum favorito?
Não quando ele estava na guerra (Nota do UHQ: Sgt. Fury and his Howling Commandos), mas o Nick Fury: Agent of S.H.I.E.L.D. (Nota do UHQ: o desenhista se refere ao material do personagem que começou a ser publicado em 1965, na revista Strange Tales, de Stan Lee e Jack Kirby), quando os filmes de James Bond estavam no auge, nos anos 60. E não me refiro ao material do Jim Steranko (Nota do UHQ: a revista Nick Fury: Agent of S.H.I.E.L.D., com arte de Steranko surgiu em 1968), mas antes dele. A Marvel queria fazer algo tipo 007, e transformou Nick Fury num espião. Mas eu queria fazê-lo realista, na linha James Bond, mas duro. Acho que se eles fizessem isso, teriam uma grande "franquia". Você sabe, tem o Pierce Brosnan. Os filmes de 007 sempre deram bilheteria. E esse é o único. Não tenho vontade de fazer material de super-herói. UHQ: Você conhece a versão do Garth Ennis, na minissérie Fury, de 2001? Lloyd: Sim, e não estou interessado nisso. Inclusive, ouvi dizer que George Clooney estava na fila para fazer o personagem no cinema.
Lloyd: Estavam pensando em produzir um novo filme, quem sabe com George Clooney, mas quando ele viu o que haviam feito recentemente, não quis participar. A minha versão seria algo que interessaria a Clooney. Acho que, quando Garth (Ennis) pega um personagem, o leva ao extremo. Mas isso nem sempre faz muito bem ao personagem ou à editora. Eu, pessoalmente, acho que poderia fazer um grande Nick Fury, mas pré-Steranko, algo como foi feito em meados nos anos 60. UHQ: Você já trabalhou com Garth Ennis. Fale um pouco sobre essa fase.
Muitos confundem com O Horrorista (The Horrorist), que fiz com Jamie Delano, outro roteirista fantástico. Ele não é muito apreciado atualmente, porque é muito político; e isso algumas pessoas não querem. UHQ: Quando realmente começou sua carreira nos quadrinhos e qual foi seu primeiro trabalho? Lloyd: Vamos lá. Na Inglaterra tínhamos anuais dos seriados americanos de televisão, como Os Gatões (Dukes of Hazzard), Duro na Queda (The Fall Guy), Esquadrão Classe A (The A-Team).
UHQ: Quem publicou? Lloyd: A Brown & Watson, que depois se tornou uma outra editora.
Lloyd: Sim, foi. O editor de Hulk Weekly era um cara chamado Dez Skinn, que depois ficou famoso na revista Warrior. Os quadrinhos surgiram porque o seriado, com Lou Ferrigno, estava sendo exibido na TV inglesa. E Dez convenceu a Marvel, de que era um bom negócio ter uma revista com o personagem. Dez queria mais personagens, e não só o Hulk. Ele queria contratar artistas que conhecia, com quem já tinha trabalhado. Então, havia este personagem parecida com o Sombra.
Mas o maior valor deste personagem para mim, é que, ao fazê-lo, eu podia usar novas técnicas artísticas, com muitas sombras. Foi publicada em preto-e-branco, inclusive o Hulk. Naquela época, era bem barato, e a maioria dos quadrinhos era publicada na Inglaterra dessa forma.
Então, ele nos procurou, eu e Alan, para criarmos personagens parecidos. Porque V é parecido com Night Raven e, justamente por isso, é tão importante. A única vez que pude fazer Night Raven como realmente gostaria, foi quando, uns cinco anos depois, fui chamado pela Marvel UK para ressuscitá-lo. E disse que só faria se o fizesse isso do meu jeito. |