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Lloyd: Se não tivesse trabalhado lá, nunca teria feito Night Raven, nem teria conhecido Alan Moore. Passei a trabalhar com Alan em Dr. Who Weekly. Ele estava começando, e o conhecia vagamente, porque tinha feito ilustrações para os fanzines em que Alan publicava. Eu estava comentando com outros jornalistas, que Steve Moore foi quem ensinou a Alan como escrever quadrinhos; e quem o introduziu no mercado. Steve estava escrevendo para a Hulk Weekly e também na Dr. Who. Ele é um escritor extraordinariamente inteligente, que não é tão conhecido quanto Alan, porque não se destacou tanto. Quanto maior um negócio, mais você tem que estar no lugar certo, na hora certa. E tem que ter sorte. Mas Steve Moore é um grande escritor, muito criativo. Mas, retornando: se eu não tivesse me envolvido com a Marvel UK, não teria feito Hulk Weekly e Dr. Who; e teria perdido estas oportunidades.
Lloyd: Não cheguei a desenhar o Dr. Who, porque suas histórias iam para o Dave Gibbons, que fez coisas fantásticas. Eu ficava com as aventuras de backup, com personagens como Cyberman, Daleks e coisas assim. Mas era melhor, porque tinha mais liberdade. Se você trabalhasse no Dr. Who, existiam limites no que podia ser feito. Coisas como caracterização, licenciamento, BBC pedindo por mudanças. Mas com os personagens secundários, ninguém se importava e poucos conheciam as histórias deles. Portanto, os escritores podiam fazer muita coisa. E, para mim, era muito divertido. UHQ: Por que a Inglaterra, apesar de ter tantos autores e artistas talentosos, permanece tendo um mercado de HQs pequeno?
De modo geral, do meio dos anos 70 e na década seguinte, só havia duas grandes editoras de quadrinhos: IPC Fleetway e a DC Thompson. A DC Thompson é uma antiga firma escocesa, com uma visão estacionária, que faz muito material infantil e histórias de guerra, tipo Comandos em Ação e coisas do tipo. Histórias simples. A IPC fazia todo o outro material. Ela teve um sucesso imenso com a 2000 A.D. A revista foi lançada em 1977, no mesmo ano de Guerra nas Estrelas, e era o que as pessoas queriam. Mas os editores britânicos não capitalizaram este sucesso. Olhe os artistas e escritores que eles tinham: Alan Moore, Alan Grant, Steve Parkhouse, John Wagner, Steve Moore, Cam Kennedy, Brian Bolland e eu. Tinham todos estes caras, e não davam muito valor. Em meados dos anos 80 a DC Comics foi à Inglaterra e deu um grande jantar no Hotel Savoy, em Londres.
Se os editores britânicos tivessem acreditado nos talentos que tinham, poderiam ter rivalizado com os Estados Unidos. Mas não quiseram. Não tiveram energia. E realmente não viram o futuro. Nos anos 80, os quadrinhos haviam se tornado algo grande, algo importante. Depois disso, passaram por alguns momentos delicados. E os editores britânicos continuaram sem se mexer. E isso é típico do gerencialmente inglês. Não possuem energia e gana. Estão sempre procurando algo seguro. São assustados: não podemos investir ou vamos perder dinheiro. UHQ: Você acredita que muitos artistas só são reconhecidos depois de terem seus trabalhos publicados nos Estados Unidos? Foi o caso, por exemplo, de Brian Talbot, Alan Moore, John Bolton, entre outros. Com você foi assim?
Eu fiz V de Vingança na Inglaterra, mas se o trabalho não tivesse saído completo, nos EUA, não seria conhecido. É uma tragédia. Tem muitos talentos na Inglaterra. É como nos filmes. Temos muitos diretores, escritores e atores, mas os editores e o pessoal de produção não dão suporte. Ou seja, você sempre precisa ir aos Estados Unidos para ser reconhecido. É um absurdo. UHQ: Quais as diferenças que você vê entre a publicação de V de Vingança pela Warrior e, posteriormente, pela DC, além do fato de a editora americana ter completado a série?
Naquele tempo, o processo era muito cru, comparado aos atuais. Mas eu queria colorido, mesmo que houvesse muitos fãs do material em preto-e-branco. Com V, primeiro me ofereceram para lançar em preto-e-branco. Na época, havia muitos quadrinhos independentes assim bem-sucedidos. Então, um dos executivos da DC me perguntou se eu topava. E minha resposta foi não! Disse que preferia colorido, pois sabia que, dessa forma, o material teria um alcance maior. E isso era importante. Se tivéssemos qualidade na cor, seria ótimo. E ela ficou boa nos originais, mas perdeu muito devido à impressão.
UHQ: Você gostaria de imprimi-la novamente, com cores feitas por computador? Lloyd: Adoraria. Mas a DC nunca vai deixar, porque não vai gastar dinheiro nisso. Seria ótimo como promoção. No entanto, eu mesmo gostaria de fazer a cor. Faria até de graça. Mesmo assim, acho que eles não aceitariam, pois ninguém lá parece preocupado com isso. UHQ: V de Vingança saiu duas vezes no Brasil: uma pela Globo, em edições coloridas; e outra pela Via Lettera, em preto-e-branco. Você viu as edições? Se sim, o que achou?
UHQ: Muita gente vê seu trabalho em V de Vingança, artisticamente, como um experiência gráfica fundamentada no trabalho de Jim Steranko, em Chandler, principalmente pelo fato de os personagens não possuírem uma linha de contorno. Você realmente se baseou no estilo dele para achar o visual distinto de V? Lloyd: Sim, Jim Steranko e Chandler, porque ele usava esse efeito para obter um visual soturno. Por isso, achei que era perfeito. É preciso lembrar que, quando se conta uma história, cada narrador, cada desenhista, cada escritor, tem que usar todas as técnicas para conseguir o efeito desejado. Se pudesse, eu passaria minha vida inteira fazendo histórias curtas. Uma comédia aqui, um romance ali, uma história de guerra etc... porque cada uma delas exige um estilo diferente. E V exigia aquilo. Era um futuro aterrador e clamava por uma arte assim.
Lloyd: (Risos e suspiros) Todos perguntam isso. E eu suspiro. Para mim, não teve mistério. Existe esta lenda sobre os roteiros gigantes dele. Quando fizemos V, Alan estava começando a carreira, fazia apenas dois anos que roteirizava quadrinhos. Ainda não estava na fase de escrever pilhas de material. Mas só trabalhei com ele em V. Depois disso, nunca mais. Mas vou lhe dizer uma coisa, sobre trabalhar com Alan. E não foi culpa dele. Quando começamos V, a série era publicada em capítulos, na Warrior, oito páginas em cada edição. Alan ia escrevendo enquanto a coisa acontecia, mas não tinha idéia do final. Então, todo mês ele via o que eu fazia e aí escrevia o próximo capítulo. Era uma coisa orgânica. Era como jazz.
Lloyd: Naquela época, seus roteiros não eram complexos. Até o ponto em que publicamos na Warrior (e a revista faliu), tínhamos alguns capítulos inéditos. Quando, dois anos depois, a DC disse que publicaria V, Alan escreveu tudo de uma vez só. Foi uma pena, porque perdemos a oportunidade de fazer a obra crescer. Mas não poderia ter sido diferente, porque ele tinha muitos compromissos. UHQ: Sobre seu trabalho em Hellblazer # 25 e 26, com Grant Morrison, como veio a trabalhar com o personagem, e com este roteirista?
Acho que a história de Hellblazer do Jamie Delano foi mais complicada, porque me pediram para fazer antes de o roteiro estar completo. Fizemos aquilo no estilo Marvel de roteiro (Nota do UHQ: uma sinopse do enredo é enviada ao artista, que faz os lay-outs e, posteriormente, o lápis. Os diálogos todos são escritos posteriormente, depois que tudo já foi desenhado), apenas com o enredo. A única diferença é que, partir do enredo decupado, fiz lay-outs em folhas tamanho A4 e, então, não esperamos até o lápis final. Desenhei todas as páginas com os quadrinhos e, depois, ele fez o resto do roteiro. Só então finalizei. UHQ: O que você acha melhor para o artista, o estilo Marvel ou o roteiro completo?
Mas funcionou bem no Horrorista. Mesmo com aquela técnica, nós conseguimos transmitir um material sofisticado. Nesse estilo de roteiro, a única vantagem para o artista é o aumento da liberdade criativa. Sugeri fazer isso para Garth, e ele disse não, porque prefere ter mais o controle. UHQ: Fale um pouco sobre a parceria com Andrew Vachss, em Hard Looks. Lloyd: Foi muito interessante. O único problema é que o material já existia em prosa e, para os quadrinhos, só ilustramos o que já existia.
A Dark Horse me enviou muitos roteiros, e pude decidir por um que funcionaria melhor, pois muitos deles ficavam bem como prosa, mas não se beneficiavam das possibilidades dos quadrinhos. Uma delas, sobre um assassino voyeur, funcionou bem, pois pude incluir muitos quadros para mostrar como este cara ficava olhando a garota. E isto não estava no script, apesar de ser importante pra trama. Várias histórias não tinham espaço para muita criatividade. O importante era o que ele escreveu, pois estava preocupado com o abuso infantil. Vachss era um advogado que lidava com isso, e queria passar uma mensagem sobre o assunto. |