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Universo HQ entrevista David Lloyd

War - Histórias de Guerra #1
Nightingale foi publicada em War - Histórias de Guerra #1, da Opera Graphica
UHQ: Por favor, fale sobre seu trabalho em War: Histórias de Guerra (publicado no Brasil pela Opera Graphica).

Lloyd: Isso foi muito estranho. Eu estava procurando o que fazer, e li na Comics International, uma revista da indústria dos quadrinhos publicada por Dez Skinn, que Garth Ennis estava procurado artistas para o material. E pensei: "É exatamente o tipo de coisa que quero fazer".

Foi uma das raras ocasiões que li algo e descobri que poderia fazer aquilo.

Garth ficou feliz e começamos. A pior coisa desse material se deve ao fato do seu realismo, por ter algo sério a dizer sobre a guerra. Você precisa ter a referência exata. E isso é um saco, pois a pesquisa é imensa.

Em Nightingale, a história dos destróieres (contra-torpedeiros), Garth não pesquisou tudo. Ele achava que eles tinham um deck superior aberto e outro interior.

HMS Cavalier
HMS Cavalier
Na verdade, eles não tinham um deck interior, o que chamam de "ponte". Eu descobri isso indo à Chatham, para fotografar um antigo destróier, chamado HMS Cavalier, o último que operou na segunda guerra. E você precisa fotografar tudo. A história se passa lá. Por isso, tem que ser o modelo certo.

Se fosse preciso, teria ido à biblioteca fotográfica do Museu de Guerra Imperial.

In Wich We Serve
Cartaz do filme In Wich We Serve
Apesar do navio da história ser ficcional, eu precisava usar um tipo específico de destróier, tinha que descrevê-lo com perfeição. Isso pode parecer tedioso, mas é assim.

Eu escolhi o navio de Lorde Mountbatten, o Kelly (Nota do UHQ: O Kelly afundou durante a Segunda Guerra, numa batalha próxima da ilha de Creta, em 1940).

Você já ouviu falar de um filme de guerra In Wich we Serve? Bem, é um filme clássico (Nota do UHQ: O filme de 1942, foi dirigido por David Lean e Noel Coward), e nele eu consegui um modelo do destróier. Uma réplica em escala do Kelly. Então, se tiro uma foto, ela tem que estar correta.

E mais: você tem que acertar os uniformes, os botes salva-vidas, os quepes e as insígnias neles. E foi o mesmo problema quando fiz J for Jenny, sobre os bombardeiros Lancasters.

Fui até no museu da RAF (Nota do UHQ: Royal Air Force, a Força Aérea Britânica).

War - Histórias de Guerra #2
War - Histórias de Guerra #2
Além disso, Garth me emprestou um livro de modelismo, que tinha tudo sobre bombardeiros Lancasters. Mostrava o tipo de máscara de oxigênio que os pilotos usavam. Havia quatro versões diferentes, e elas mudavam de ano para ano. Então, era preciso acertar qual era usada na época da história.

Se eu colocasse um número na fuselagem, tinha que ser o correto. Esse é o tipo de dificuldade. E, por isso, quando você termina, sabe que fez um bom trabalho. E espero que as pessoas respeitem isso.

Mas preciso dizer que, infelizmente, a impressão da edição brasileira de J for Jenny está péssima. Eu não sei por quê, mas está horrível. A de Nightingale ficou boa.


UHQ: E a história O Avião (publicada no Brasil em Vertigo # 4, também da Opera Graphica)?

Lloyd: Esta história está melhor na edição brasileira do que na americana, da DC, pois o papel é melhor, e o preto está mais forte e preciso.

Uma garota entra no avião e fica lá o tempo todo. É como um filme. E se você está fazendo quadrinhos, precisa sempre ter material mais apropriado para este tipo de linguagem.


The Territory #1
The Territory #1
Você é co-criador, junto com Jamie Delano, de The Territory, publicado pela Dark Horse, em 1999. O que pode nos dizer sobre esta série?

Lloyd: Isto ainda é inédito no Brasil, certo? Fiz esse trabalho, porque precisava de trabalho. Encontrei Dave Land, editor da Dark Horse, em San Diego. Cada um de nós tinha um conceito para o material e acabamos misturando tudo.

A primeira idéia se chamava Gate Keeper. Mas Territory acabou se transformando no conceito original, e aí as complicações que cresceram. Enquanto eu queria fazer algo simples, eles queriam algo mais complexo, que fizesse parte de um universo maior. E, durante o nosso desenvolvimento, esta idéia foi derrubada.

Foram quatro números. Eles me deram um cronograma e perguntaram: "Está bom para você?" Eu respondi que o prazo estava apertado. E a resposta foi que não podiam me dar mais tempo.

The Territory #3
The Territory #3
Como precisava de trabalho, não podia desistir. Por isso, foi feito meio na correria. A história é sobre culpa, oportunidades perdidas e escapismo.

Todos nós lemos e nos envolvemos com ficção, mas não estamos tentando escapar de nossas vidas e de nossos erros. Mesmo assim, sempre que escapamos, tentamos mudá-los em nossas mentes. Dessa forma, racionalizamos as oportunidades perdidas e os erros; e acabamos nos iludindo.

Espero que seja publicado aqui. No final, a mensagem era: não perca suas oportunidades, pois nunca poderá corrigi-las. Se não o fizer, passará o resto da vida pensando nisso.


UHQ: Você trabalhou em The Big Snooze, uma história curta da série Gangland, da Vertigo. Você gosta deste universo de crimes e personagens obscuros?

Gangland
Gangland
Lloyd: Eles me pediram para escrever algumas histórias curtas. Tenho um notebook, no qual guardo diversos títulos de tramas que inventei. Quando me pedem algo, olho pra ver se tem algum título que me interessa. Todos que escrevi existem, porque por trás deles há uma boa história. Esta era sobre um cachorro resgatado.

Uma das tramas curtas das quais mais me orgulho chama-se Looking good feeling great.


UHQ: Exceto pelo seu trabalho na Marvel UK, por que nunca trabalhou para a Marvel?

Lloyd: Depois que a Marvel fechou as portas na Inglaterra, fiz um Capitão América e um Night Raven.

O Capitão América era pra ser um álbum beneficente. Algo sobre o 11 de setembro. No final, virou outra coisa. Mas gostei de trabalhar com o editor. E é para ele que estou tentando fazer a historia do Nick Fury.


UHQ: Você disse que não gosta muito de super-heróis. Qual a razão?

David Lloyd
David Lloyd: Alan Moore nunca deveria ter escrito Watchmen
Lloyd: Acho que eles distorceram todo o mercado americano. Imagine só: nos anos 50, antes das audiências (Nota do UHQ: as audiências no senado americano foram parte de uma campanha moralista de regulamentação das HQs, no auge da histeria Macartista, que resultaram na criação do Comic Code Authority e no fechamento de diversas editoras) que destruíram os quadrinhos americanos, havia material de guerra, de detetives, super-heróis na DC, policial, tinha de tudo.

Daí, veio o Comics Code e, então, só os super-heróis eram seguros para se publicar. Depois disso, cresceram tanto em importância no mercado, que distorceram toda a indústria. Você não consegue vender nada se não tiver um super-herói no projeto.

Se eu fizer algo com super-heróis, estarei ajudando esta situação; e não quero fazer isto.

Hellblazer #26
Hellblazer #26
Já tem gente demais fazendo super-heróis. Alan nunca deveria ter escrito Watchmen. Ele sempre amou quadrinhos, mas, quando fez essa minissérie, reenergizou todo o conceito dos super-heróis. Se não tivesse feito isso, eles poderiam estar na sarjeta, onde é o lugar deles.

Frank Miller fez O Cavaleiro das Trevas, e já deu vida nova para um monte de coisas, mas, combinado com Watchmen, forneceu a todo o pessoal de super-heróis uma sobrevida.

Depois disso, você sabe, todo mundo estava dizendo: "vou fazer um super-herói realista". Mike Grell estava fazendo isto, todo mundo estava fazendo isto. E não era legal.

O conceito de super-heróis ainda é algo difícil de se acreditar. Você não pode tratar os heróis de maneira realista, pois o cara tem um uniforme.

Página de The Horrorist
Página de The Horrorist, arte de
David Lloyd
O único tratamento realista de um personagem que é um super-herói lida com a psicologia. Todos os super-heróis são loucos!

Temos que ser realistas sobre isto. Qualquer cara que anda por aí vestido daquele jeito, só pode ser mentalmente desequilibrado.

E qualquer história que tente ser realista lidando com este tipo de personagem, tem que levar em conta este fato. Que são pessoas doentes. Porque ninguém no mundo real é assim. E continuar a perpetuar os super-heróis como se fossem reais é fundamentalmente estúpido.


UHQ: David Mazzuchelli disse que todo super-herói é uma porcaria, e que só gostava do material do Paul Dini, que é estilizado e animado...

Lloyd: Eu concordo totalmente com ele.

UHQ: Você ensinava quadrinhos, certo? Fale mais sobre esta atividade.

Lloyd: Eu não ensino já faz um tempo. Já é passado, e não vou voltar a fazer isso, porque me toma muito tempo.

UHQ: Sam Hart (do projeto Front, da Via Lettera) foi seu aluno?

Lloyd: Isso mesmo, Sam Hart foi meu aluno.

UHQ: Baseado na sua experiência, o que se pode esperar da nova geração de artistas ingleses?

V de Vingança #5, da Globo
V de Vingança #5, da Globo
Acho que o futuro é impossível de se predizer. Ainda vejo o mesmo tipo de mistura de pessoas, gente que quer fazer Marvel, DC, Judge Dredd ou seus próprios materiais...

Vou lhe dizer o que tem me incomodado, conversando com muita gente aqui. Não é a mesma coisa que na Inglaterra. Lá, os independentes conseguem distribuir o material, e ficam felizes com isso.

Aqui, vi gente muito boa, com material ótimo, mas extremamente triste, porque não conseguem distribuição, por não terem leitores suficientes e porque não conseguem vender. Isso é deprimente. Na Inglaterra, as pessoas fazem o que querem.

O futuro para o quadrinho mainstream está meio complicado. A garotada está indo direto para o computador agora. As HQs precisam ampliar a gama de leitores. Não pode depender só dos garotos.

No Japão e na Europa continental, toda a cultura aceita quadrinhos. O mesmo não acontece nos Estados Unidos e na Inglaterra. Eu não sei como é a situação no Brasil.

UHQ: Você foi um dos convidados do Festival de Amadora de 2002, no qual o homenageado era Alan Moore. Como foi este evento? Qual a diferença para outros dos quais participou?

David Lloyd
David Lloyd : "Acho que o futuro é impossível
de se predizer".
Lloyd: Os eventos americanos são muito diferentes, e estão voltados para a venda. O que vejo aqui, no Brasil, é a celebração dos quadrinhos como mídia.

Nos Estados Unidos, todas as convenções são um exercício de publicidade. Na Europa e aqui, as pessoas se preocupam, e a cultura da cidade participa. Você recebe suporte das autoridade locais, enquanto com os norte-americanos é tudo comercial.

Na Europa continental é assim. O povo adora e até o prefeito participa. Nos EUA é bem diferente. Na Inglaterra, temos tão pouco apoio, que só existe uma convenção.

David Lloyd
David Lloyd : "É um privilégio estar neste evento".
Aqui, vocês tem a mesma atitude que na Europa. É um privilégio estar neste evento. É uma honra estar na companhia de Sergio Toppi e Mattotti. E dos brasileiros. Só o que me deixa deprimido é ouvir os brasileiros falarem da distribuição.


UHQ: E sobre Amadora?

Lloyd: Foi uma celebração do trabalho de Alan Moore. Eu estava lá com Kevin O'Neill, e nossos trabalhos estavam expostos. Fomos bem tratados, e não há muito mais o que dizer. Celebrar uma só pessoa é tão raro nos quadrinhos...

UHQ: Você gostaria de trabalhar com algum escritor em especial?

Lloyd: Desde que sejam bons roteiristas, não me importo. Sempre fujo dos ruins. Eles me mandam roteiros, eu leio e decido. Gostaria de fazer mais do meu próprio material.

UHQ: Qual sua opinião sobre a invasão dos mangás no mundo inteiro? Você gosta desse estilo?

James Bond - Shattered Helix #2
James Bond - Shattered Helix #2
Lloyd: Eu não gosto de mangás. Já vi bastante. Existe variação. Não se trata só de personagens com olhos grandes e todos parecidos. Existe algum charme. Muitas garotas lêem.

Mesmo assim, eu não gosto. É como os super-heróis, abusa das convenções. Vem tudo do Astro Boy. Vem tudo do (Osamu) Tezuka. Eles são muito técnicos, mas acho que tem algumas coisas ruins. Não gosto da estética.

Voltando ao mercado de vocês, o mangá também é bastante popular aqui. Se os brasileiros não se unirem, o quadrinho japonês vai tomar tudo por aqui, porque já tem muitos. Vocês precisam se unir para impedir isso.


UHQ: O que esperar para os próximos anos? Pode nos contar sobre algum outro projeto em que esteja trabalhando?

Lloyd: Estou fazendo um trabalho para o New York City Police Museum. Mas os próximo dois quadrinhos são para a Heavy Metal, a revista de Kevin Eastman. Está sendo escrito por uma roteirista novo, e eu vou desenhar.

David Lloyd desenha para o Universo HQ
David Lloyd faz um desenho para o Universo HQ
E para a Metal Hurlánt farei uma HQ de dez paginas. Isso vai me consumir uns meses. Durante esse período, estou tentando vender, na França, uma história de detetive. E para se publicar lá, é preciso levar páginas de exemplo. E isto toma um tempo incrível.

Principalmente, se levarmos em conta que não se sabe se eles vão aceitar ou não o material. Entendo que queiram ver do que se trata, mas, mesmo assim, me incomoda que precisem disso.

Uma vez, fiz uma sátira de vampiros para os europeus, que foi bem mais fácil. Depois, a Dark Horse publicou nos Estados Unidos.

David Lloyd em ação!
David Lloyd em ação!
Na época, eles me ligaram e perguntaram se faria algo para eles. "Nós podemos pagar esta quantia. É sobre vampiros. Nós não temos muitos materiais de humor aqui. Se tiver algum humor, esta ótimo". Ele confiou em mim. Prefiro quando é assim., do tipo "Conheço seu trabalho, pode fazer".

Este cara me falou: "Faça!" E eu escrevi e desenhei o que ele precisava. Esta é a situação ideal.


UHQ: Por favor, mande uma mensagem para os leitores brasileiros

Lloyd: Eu estou muito feliz que vocês tenham lido meus trabalhos, e espero que outras histórias sejam traduzidas, porque adorei ter sido convidado para este festival e por ser tão respeitado pelo que faço como artista. Muito obrigado.

UHQ: Em nome de todos os seus fãs do Brasil, David, muito obrigado pela excelente entrevista.

Lloyd: Foi um prazer.

Desenho exclusivo de David Lloyd, para o Universo HQ
 

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