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![]() Um grande roteirista que nunca leu quadrinhos Durante o 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, o premiado argentino Jorge Zentner deu uma verdadeira aula sobre roteiro, com um detalhe: ele nunca leu quadrinhos. Nesta entrevista exclusiva ao Universo HQ, ele conta os caminhos que o levaram à nona arte e fala sobre seus principais trabalhos, ao lado de feras do traço do mundo inteiro Por Sidney Gusman e Sérgio Codespoti
Nos dias em que passou no Brasil, no final do mês de setembro, como um dos convidados internacionais do 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, Zentner mostrou-se de uma simpatia cativante. Atendeu a todos, esforçou-se para entender o "portunhol" de muitos brasileiros e demonstrou uma simplicidade própria dos grandes.
Mesmo assim, tornou-se um dos maiores nomes da Europa, ganhando, inclusive, um prêmio do Festival de Angoulême, em 1997. Anos antes, em 1989, outra prova de seu prestígio no Velho Continente foi a participação, com a história La Grande Invention du Professeur Calan (desenhada por Pellejero), em uma das derradeiras edições da tradicional revista francesa Pilote, especial sobre a revolução francesa. Ao seu lado, feras como Miguelanxo Prado e Victor de La Fuente. O segredo de tanto êxito? Um background de anos de leitura e uma criatividade inesgotável. E foi o destino que o levou aos quadrinhos, pois se não tivesse sido exilado de seu país, em 1977, e se tornado um refugiado político, dificilmente teria entrado para este mercado. Sorte das HQs.
Versátil, o autor chegou até a escrever livros infantis, como Le Rêve Du Rhinocéros, com ilustrações de Sergio Mora. Nas linhas abaixo, Zentner conta um pouco sobre sua experiência nos quadrinhos, a amizade com Carlos Sampayo e as parcerias, em grandes álbuns, com nomes como Rubén Pellejero (seu principal parceiro nas HQs), Lorenzo Mattotti, David Sala, Carlos Nine, Santos de Veracruz e outras feras. E mais: fala sobre um instigante projeto que incluiu uma recente viagem à Patagônia, ao lado de Mattotti, e a possibilidade de realizar uma parceria com outro brasileiro talentosíssimo, o mineiro Lélis, de Saino a Percurá. Confira agora toda a inteligência e sagacidade de Jorge Zentner. Universo HQ: Qual seu nome completo e idade? Jorge Zentner: Apesar de ter outro nome e sobrenome, uso apenas Jorge Zentner. Nasci em 1953.
Zentner: Depois que saí do colégio secundário, passei alguns dias numa escola de Jornalismo e estudei bastante tempo numa faculdade de Psicologia, mas nunca terminei. Não tenho formação, sou autodidata. Sou, sim, um grande leitor, sempre fui. UHQ: Você saiu da Argentina em 1977. Foi mesmo exilado? Zentner: Sim, eu fui um refugiado político. Anos depois, quando se solucionaram os problemas na Argentina, todos os refugiados políticos argentinos reconhecidos pelo alto comissionado das Nações Unidas receberam a nacionalidade do estado espanhol. Então, quando a democracia voltou à Argentina, eu tinha nacionalidade espanhola. Antes, era um refugiado político.
Zentner: Eu era jovem, intelectual e jornalista. Era necessariamente um perigo para algumas pessoas. UHQ: Como foram os primeiros anos fora da Argentina? Zentner: Muito duros. Demorei muito tempo para me recompor, psicologicamente, sobretudo. Afinal, vinha de uma derrota, digamos, existencial ou ideológica; mais que política. Eu era muito jovem, e morreram muitas pessoas ao meu redor. Perdi vários amigos, outros estavam na prisão... De um dia para outro, você tinha que deixar sua família, tudo para trás. Íamos de uma casa para outra, sem parar.
UHQ: Como você começou a fazer quadrinhos? Zentner: Eu estava vivendo perto de Barcelona, num pequeno povoado a uns 25, 30 km dali, e acabei conhecendo (o quadrinhista argentino) Carlos Sampayo, que estava vivendo na Itália e se mudou para lá. Alguns amigos comuns nos apresentaram, ficamos muito amigos, e ele me mostrou com o que trabalhava; e era quadrinhista. Na época, eu não o conhecia, tampouco conhecia os quadrinhos. UHQ: Você nunca tinha feito quadrinhos?
E então descobri que existiam quadrinhos, que muita gente vivia disso, que poderia ser uma profissão. Dois ou três anos depois disso, fui ao Festival de Lucca com Carlos Sampayo, mas apenas para conhecer a Itália. Lá conheci muita gente que fazia quadrinhos, como Lorenzo Mattotti, por exemplo. Mesmo assim, jamais imaginei que poderia vir a trabalhar nessa área. Só mais tarde, quando buscava trabalho, e não sabia o que fazer, que Carlos (Sampayo) me perguntou: "Por que não faz quadrinhos? Você sabe escrever!" E eu sempre quis ser escritor, que é o que sou realmente. UHQ: Então, você não teve ninguém que o influenciasse nos quadrinhos.
Mas, aos poucos, você vai refletindo sobre seu trabalho, e descobrindo que tem nas mãos um meio de narração que, ao mesmo tempo, é uma maneira contar a vida. Então, para poder trabalhar, você precisa pensar sobre o que está fazendo, para encontrar sua própria voz, para achar sua maneira de fazer. Mas não tinha de onde tirar influências, porque não lia nada de quadrinhos. Não tive conhecimento para isso. Jamais li (Hugo) Pratt ou um Blueberry, por exemplo. Uma vez, um amigo me presenteou com um Tintim, que eu também nunca tinha visto. UHQ: Mas depois que começou a produzir, você começou a ler quadrinhos?
Naturalmente que li alguma coisa de Muñoz e Sampayo, mas antes de trabalhar na área. E só o fiz, porque Carlos era meu amigo e me mostrou. Assim, eu lia apenas quando ia à casa de amigos, que me passavam uma ou outra revista ou álbum. Um deles era (Rubén) Pellejero. UHQ: Então, foi o Sampayo que o motivou a escrever quadrinhos? Zentner: Sim. Com certeza. Ele me disso "isso se faz assim, e você pode fazê-lo". Carlos me ajudou a ser uma pessoa que eu não tinha muita gana de me tornar. UHQ: Quando foi isso? Zentner: Em 1981, mais ou menos. Não lembro ao certo. UHQ: Você tem trabalhos publicados em quantos paises?
Já faz 22 anos que vivo somente disso. Nesse sentido, tenho muita sorte, porque foi um descobrimento. Afinal, você tem um contato com uma pessoa, e pronto: descobre uma coisa que será muito importante na sua vida, que te permite fazer uma carreira, conhecer desenhistas e contar muitas histórias para inúmeras pessoas. UHQ: E, curiosamente, você não chegou a trabalhar com Sampayo... Zentner: Não cheguei a trabalhar com ele. Foi apenas uma história de oito, dez páginas, que fizemos juntos. Carlos escreveu os diálogos, e eu a descrição para o desenhista. Depois havia outra para fazer, e ele disse: "Agora faça você! Não precisa mais de minhas correções". UHQ: O Rubén Pellejero foi o artista com quem você mais trabalhou?
Aí, vi alguma coisa do que ele tinha feito, umas duas histórias curtas, de cinco ou seis páginas, pensamos o que fazer e decidimos criar um personagem. Então, veio uma série que se chamava Las Memorias de Monsieur Griffaton. Esse foi meu primeiro trabalho, cujo protagonista era um velho que escrevia suas memórias, depois da Primeira Guerra Mundial. Quando jovem, ele havia trabalhado como inspetor internacional de hotéis, viajando pelo mundo, analisando os estabelecimentos e fazendo relatórios sobre a qualidade dos grandes hotéis daquela época.
As tramas eram sempre relacionadas com um livro. Por exemplo, há uma ligada a Hotel de Savoy, de (Joseph) Rott (Nota do UHQ: escritor austríaco). Em outra, a relação era com Morte em Veneza (Nota do UHQ: do alemão Thomas Mann), na qual eu retomava o personagem menino desta obra, e contava uma história dele na cidade 15 anos depois. UHQ: E o que você acha de Pellejero como desenhista? Zentner: Ah, o que eu vou dizer? Eu aprendi quase tudo junto com ele. Nós nos criamos juntos nesse mercado. UHQ: Como funcionava a parceria de vocês?
Então, eu mais ou menos crio uma história. Em seguida, escrevo o roteiro e o entrego ao artista. Em geral, não há muito mais discussões. Pelo menos, com Pellejero. Agora, por exemplo, temos que criar uma nova série. Por isso, estamos conversando mais, mas é porque fizemos diversos trabalhos juntos. Após Las Memorias de Monsieur Griffaton, fizemos outra série que se chamava FM - En Frecuencia Modulada, que eram histórias curtas, mais contemporâneas, passadas em cidades como Barcelona. Tinha esse nome, porque a rádio intervinha de alguma maneira.
Então, fui buscar como criá-lo. Era meu primeiro personagem depois de Griffaton. Foi aí que me dei conta que um personagem se caracteriza pelo tipo de trabalho que ele realiza. Griffaton, por exemplo, tinha no trabalho a razão para ir de um hotel a outro. Pellejero se aborrece em desenhar sempre a mesma coisa. Ele gosta de histórias em que haja mudanças, que se vá de um lugar a outro. Sabendo disso, eu necessariamente precisava fazer um viajante. Então, como havia muitos jornalistas, fotógrafos, navegantes, detetives etc, resolvi que faria alguém que não tivesse trabalho.
Ele pode até roubar, mas tem alguns valores de fundo, como amizade, fidelidade e amor. Politicamente é muito incorreto. Essa é a graça dele, nunca se sabe como ele vai se sair. E as aventuras que vive não são muito espetaculares. Às vezes, o problema de Dieter Lumpen é que ele tem êxito em algumas coisas, mas não sabe o que fazer com isso. UHQ: Em 1997, você ganhou Angoulême. Qual a importância para alguém que não era roteirista de quadrinhos ganhar o prêmio mais importante do mundo, com menos de 20 anos de carreira? Zentner: Veja, ganhei com o álbum El Silencio de Malka. Eu e Pellejero já havíamos feito vários livros, e todos haviam sido indicados para Angoulême. Sempre chegávamos à final. Evidentemente, muito pelos desenhos, que influenciam muito os outros artistas.
O Silencio de Malka era um livro de 86 páginas, no qual havia vários elementos que os franceses gostam muito. É uma história autobiográfica, sobre a chegada da minha família à Argentina, com uma trama fantástica por detrás. Além disso, a cor, quando se via, logo chamava a atenção, pela beleza. Então, havia muitos elementos para que o livro tivesse uma boa recepção. O álbum recebeu muitas gratificações. Não é um grande campeão de vendas, mas sempre está saindo. O importante é que está em todas as bibliotecas e escolas, porque além do prêmio de Angoulême, na época dos 100 anos dos quadrinhos, a Biblioteca Nacional de Paris fez uma grande exposição, chamada Os Mestres do Quadrinho Europeu, e Pellejero estava lá com este trabalho, ao lado de Mattotti, Tardi e outros grandes. |