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UHQ: Fale um pouco sobre Blues.
UHQ: E sobre Âromm? Zentner: Na Europa, acaba de sair o segundo álbum de Âromm, também com Pellejero. É uma história na qual quisemos fazer algo como uma ópera, que ocorre num ambiente de bárbaros, numa hipotética Ásia Central, em 500 a.C; uma coisa mítica, mágica, muito shakesperiana, digamos. É muito recitativa e graficamente espetacular.
Zentner: Em geral, não. Cada vez pesquiso menos, mas tenho muito background de leitura. Gosto muito de ler mitologias clássicas, lendas. Leio, digamos, o que está no fundo da história dos povos. Isso é do meu interesse. Naturalmente, se preciso fazer uma história que se passa em determinada época, tenho que saber alguma coisa sobre ela. UHQ: Em 2000, você fez Replay... Zentner: Sim, Replay é uma trilogia desenhada por David Sala, um jovem francês que começou a trabalhar comigo aos 24, 25 anos. É dono de um grande talento. Realmente, gosto bastante de trabalhar com ele.
Comecei a pensar sobre o que podia fazer, e saiu Replay, que é a história de dois amigos, que saiu pela Casterman. Agora, estamos adaptando de alguns romances de Valerio Evangelisti, um escritor italiano de best-sellers. Tem um personagem que se chama Nicolas Eymerich, o inquisidor. Da primeira novela, estamos fazendo dois álbuns. O primeiro já saiu, o segundo está em produção.
Zentner: Na Espanha, esse álbum chama-se El Rumor de la Escarcha (nota do UHQ: algo como O Rumor do Orvalho, em português). O trabalho surgiu quando o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung pediu para Mattotti fazer, durante 24 domingos, um suplemento colorido de 24 páginas grandes, do tamanho da Folha de S.Paulo.
Então, durante um semestre passei uma semana por mês em Paris. Eu ficava no estúdio de Mattotti, e começamos a criar a história. Assim, à medida que íamos fazendo, ela ia sendo publicada a cada domingo no jornal. Depois, a compilação do trabalho saiu numa edição na Alemanha, Holanda, Itália, Espanha e França. UHQ: O único trabalho seu lançado no Brasil foi Inimigos Comuns. Você chegou a ver a edição?
UHQ: Não, como graphic novel, nas bancas. Zentner: Ah! Não recebi. UHQ: Você conhece alguma coisa de quadrinho brasileiro? Zentner: Não, apenas o que o Marcello (Quintanilha) me mostrou. Graças a ele, pude ver trabalhos de vários artistas que publicam por aqui, como Lélis, com quem tenho idéia de fazer algo em conjunto em breve. Na verdade, o único autor brasileiro que conheço bem é um que vocês aqui não conhecem, o Léo (Nota do UHQ: o carioca Luís Eduardo Oliveira, que trabalha no mercado francês desde 1993). UHQ: Fale um pouco sobre sua parceria com o também argentino Carlos Nine, em Pampa.
Depois disso, no Festival de La Coruna, que é organizado pelo Miguelanxo (Prado), finalmente nos conhecemos pessoalmente e, durante a conversa, surgiu a idéia de fazer algo juntos. Aí buscamos temas, e começamos a produzir. Para que precisávamos buscar um tema exótico, se ambos tínhamos conhecimento sobre o assunto? Há muitos anos, eu tinha interesse em fazer uma história de gaúchos, e Nine também. Então, só precisamos conversar sobre quais seriam as características da trama, como podíamos fazê-la e logo saiu o primeiro livro. Estamos produzindo o segundo. Pampa será uma trilogia: Lua de Sangue, Lua de Prata e Lua de Água. UHQ: Quantos álbuns você faz por ano?
Em 2003, além dessa cota, Caboto e coisas que foram feitas há algum tempo foram reeditadas. Então, saíram seis ou sete, mas isso não é o normal. UHQ: Por favor, fale um pouco sobre a série Sept Balles pour Oxford, com o brasileiro Marcello Quintanilha. Zentner: Eu queria escrever essa série há muitos anos. A princípio, faria com Pellejero, mas ele estava com outros trabalhos. Então, passei a procurar outros desenhistas. Em dado momento, alguém me mostrou os desenhos de Marcello, que haviam sido levados para a França por François Boucq. Vi que desenhava bem, mas que talvez não tivesse conhecimento da narrativa adotada no mercado francês. UHQ: Marcello disse que você pré-diagrama as páginas no roteiro...
A historia do álbum é do gênero policial, mas um pouco diferente, porque o personagem principal, Oxford, é um detetive particular, mas velho, da terceira idade. Ele não quer deixar de trabalhar, apesar de todos na família pedirem para parar. A agência onde ele trabalhava já o aposentou, mas Oxford quer continuar. Então, ao final do primeiro livro, intitulado A Promessa, ele promete à sua mulher, que está morrendo num hospital, que só trabalhará até que termine o cartucho de balas de sua pistola. E faltam sete. A partir daí, ele vai fazer de tudo para não gastá-las, para poder seguir trabalhando.
Todas as minhas histórias, na verdade, são sobre relações entre personagens. Os conflitos vêm daí, e não de coisas como descobrir quem foi o criminoso, encontrar um tesouro etc. Essas coisas me aborrecem. Para mim, interessam coisas mais humanas. Oxford, por exemplo, tem duas mulheres, com filhos dos dois lados, duas famílias e está brigado com o filho, esse tipo de coisa. UHQ: Você ainda tem planos para Dieter Lumpen? Zentner: Num momento, chegamos a pensar em trazê-lo de volta, mas é muito difícil fazer alguma coisa assim. Creio que Pellejero não tem vontade, nem eu. Então, melhor deixar como está.
Zentner: Não. Para mim, é exatamente igual trabalhar com um artista consagrado e com alguém que está fazendo seu primeiro livro. Publiquei há pouco tempo um livro chamado Flamenco, com um rapaz chamado Santos de Veracruz, que nunca havia feito uma página de quadrinhos, apenas um fanzine em preto-e-branco. Quando vi que ele tinha um talento natural, uma força no traço, falei com ele como falaria com um grande profissional, e lhe propus fazer esse trabalho. Fizemos uma prova, vendemos, e já estamos produzindo o segundo álbum. Por isso, não tenho nenhum desejo especial, porque, na verdade, não pertenço ao mundo dos quadrinhos. Eu não sou um freak. Para mim, gente é gente. Se alguém fez grandes coisas ou nada, para mim é igual. Eu me relaciono com as pessoas.
UHQ: E se pedissem para você escrever um super-herói? Zentner: Não tenho idéia. Teria que refletir o que é ser um super-herói, e como poderia fazê-lo. E eu faria, porque é um trabalho. Mas não tenho grandes teorias sobre isso. UHQ: Seus trabalhos chegaram à Argentina? Zentner: Na Argentina, só foi distribuída uma pequena edição, no tamanho comic book, chamada As Aventuras de Dieter Lumpen. Saíram dez números com todas as histórias do personagem; e também histórias curtas que fiz com Pellejero. UHQ: Você tem idéia de quantos álbuns já fez? Zentner: Não sei. São muitos.
Zentner: Por alguma razão, sempre há algum. El Silencio de Malka, por exemplo, é muito interessante. Caboto é um livro espetacular. Pampa também, porque vou falar dos gaúchos. Oxford é muito importante, porque a idéia vem de meu pai, em quem me inspirei. Cada álbum é importante. É um tempo passado ali. UHQ: Como é o mercado de quadrinhos na Europa? Existe crise lá? Zentner: Não. Neste momento, pelo contrário. O quadrinho francês em geral está muito em alta. Está crescendo. Passou por uma crise muito séria, mas está numa fase excelente. Se publica até demais lá. UHQ: Quais seus projetos para os próximos anos? Zentner: Todos os trabalhos que tenho em andamento são importantes. Ao final do mês de outubro, eu e Mattotti passaremos um mês na Patagônia (nota do UHQ: Zentner já retornou e disse que a viagem foi fantástica, o que é garantia de um belo álbum), e tenho muitas expectativas por este trabalho, porque este não será um livro de quadrinhos, mas sim de viagem. É uma coisa diferente, uma experiência direta. Isso me interessa muito.
UHQ: Por favor, mande uma mensagem para os leitores brasileiros. Zentner: O que vou dizer? Que leiam! UHQ: Muito obrigado pela entrevista, Jorge. Zentner: Eu que agradeço! |