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Universo HQ Entrevista Kyle Baker

Kyle Baker, mas pode chamá-lo
de Mr. Versatilidade

Numa entrevista exclusiva ao Universo HQ, o irreverente artista falou de seus projetos autorais, dos trabalhos com super-heróis, com humor e até com desenhos animados; disse que não há crise no mercado de quadrinhos; e afirmou que é bem melhor assistir ao filme dos X-Men do que ler os seus gibis

Por Sidney Gusman, Sérgio Codespoti e Heitor Pitombo

Kyle Baker
Kyle John Baker, Mr. Versatilidade
Kyle Baker é o que se pode chamar de "figuraça". Negro, alto, um pouco acima do peso, cabelo (bem longo) rastafari e sempre de manga comprida, mesmo sob o calor estonteante que abafou Belo Horizonte durante o 3º Festival Internacional de Quadrinhos. Mas sua principal característica não é nenhuma dessas. Ele é um dos artistas mais simpáticos e solícitos que já passaram por eventos no Brasil.

Com uma paciência invejável e sempre com um sorriso no rosto, atendeu a todos os fãs que o procuraram no evento e distribuiu centenas de autógrafos, sempre acompanhados de um desenho, lógico.

Truth #1
Capa de Truth #1, arte de Kyle Baker
E foi com esse jeitão despojado, que Baker, um dos responsáveis, há pouco tempo, pela minissérie Truth, que contou a história de um Capitão América negro, concedeu uma entrevista exclusiva ao Universo HQ, na qual falou sobre os mais variados assuntos, o que apenas denotou toda sua versatilidade.

Super-heróis? Ele comentou sobre o seu polêmico Sombra (ao lado do roteirista Andy Helfer); falou do projeto atual com o Homem-Borracha; detonou a Marvel e a DC; afirmou que é melhor assistir ao filmes dos X-Men ou do Hulk do que ler seus quadrinhos; explicou a polêmica sobre a famosa edição (quase) proibida do Superman bebê atormentando uma babá; e muito mais.

Trabalhos autorais? Ele contou sobre obras como You Are Here, Why I Hate Saturn, The Cowboy Wally Show, I Die At Midnight e King David, todas inéditas no Brasil.

Cyrano de Bergerac
Cyrano de Bergerac, com arte
de Kyle Baker
Desenhos animados? Depois de fazer vários trabalhos para a Warner, Baker falou o que é bom e o que é ruim nesse mercado.

Cartuns? Sim, eis mais uma faceta desse eclético profissional. Ele atualmente publica cartuns (confira alguns em seu site oficial), e também já fez ilustrações para veículos renomados, como The New York Times, Esquire, The New Yorker, Spin, Rolling Stone, Vibe, The Village Voice, Mad, Entertainment Weekly e ESPN

E tem muito mais! Kyle Baker contou que suas principais influências vêm das tiras, que não há crise no mercado americano e que entre suas leituras atuais está o clássico mangá Lobo Solitário.

Conheça agora um pouco mais sobre esse versátil artista, que teve alguns trabalhos publicados no Brasil, como a minissérie Justiça Ltda., a fase do Sombra e a edição especial Cyrano de Bergerac (pela série Clássicos Ilustrados) e, mais recentemente, a história Nas Ruas, em Imagine Superman de Stan Lee, todos pela Abril.

Kyle Baker e David Lloyd
Kyle Baker e David Lloyd, no 3º Festival Internacional de Quadrinhos.
Universo HQ: Qual seu nome completo e sua idade?

Kyle Baker: Meu nome completo é Kyle John Baker. Minha idade? Hummm... Acho que vou fazer 38 em dezembro. Sou de Nova York e ainda vivo lá.

UHQ: Qual sua formação? Onde aprendeu a desenhar?

Baker: Meus pais desenhavam. Aprendi muito com eles. Fiz algumas aulas, mas a maior parte foi na prática.

Eu cursei o colégio técnico de artes, mas não terminei porque tive que trabalhar para pagá-lo. Precisava de um emprego. E a única coisa que sabia fazer era desenhar.

Então, eu trabalhava para sustentar meu ensino. E foi aí que percebi que não precisava daquilo, pois já estava atuando profissionalmente.


UHQ: Quais seus primeiros trabalhos? Como começou na área?

Baker: Quando eu era garoto, queria trabalhar em jornal. Nem pensava nos quadrinhos. Fui estagiário na Marvel quando era bem jovem, mas meu interesse era fazer outros tipos de ilustração.

E agora, o engraçado é que não compensa fazer outro tipo de ilustração. Não vale a pena fazer uma tira de jornal. Não dá dinheiro e o trabalho é impresso pequeno demais. Não dá para fazer nada muito bem. Trabalhei um pouco nessa área, fazendo os Rugrats por uns meses, mas não gostei do resultado final impresso.

Rugrats
Tira de Rugrats
O mesmo acontece com as revistas. Elas não compram mais ilustrações, preferem usar muitas fotos. E não há muito espaço na propaganda também!

Estes eram os trabalhos legais quando eu era jovem, mas hoje são ruins. Já na minha juventude, não valia a pena desenhar os quadrinhos, porque você não era proprietário da sua obra, ficava sem o seu original, nenhum personagem era seu e não tinha direito a royalties.

Through the Looking Glass
Through the Looking Glass, da série Clássicos Ilustrados.
Veja bem, muitos dos filmes que estão sendo feitos atualmente são baseados nos contratos velhos dos anos 80. Marv Wolfman, o criador de Blade não recebeu nenhum tostão pelos longas-metragens; Steve Ditko também não ganhou nada por Homem-Aranha.

Mas isso está mudando. Agora está bem melhor. No ano passado, trabalhei com animação e agora voltei aos quadrinhos.

Hoje, a animação não é um bom negócio. Eles estão mandando os desenhos para a Coréia, para serem produzidos lá, porque é mais barato, e estão brigando com os sindicatos. As companhias arrecadam uma fortuna e nos tratam muito mal. A Warner, por exemplo, teve seu melhor ano, com Senhor dos Anéis e Matrix. E eles estavam sendo pães-duros e fazendo cortes.

O melhor caminho agora são os quadrinhos. O interessante é que, em livros e HQs, de certa forma, não existe um monopólio de distribuição.

As bancas têm um espaço limitado, mas as grandes companhias, como Esquire e Playboy, pagam um bom dinheiro para aparecer. O problema é que não existe espaço nessas revistas. Elas deixaram de ser entretenimento. Antes, a pessoa comprava uma publicação para se divertir, ler algo interessante. No entanto, atualmente, pelo menos nos Estados Unidos, elas só servem como plataforma de promoção de outras mídias. Não publicam contos, arte ou ilustração, com exceção da New Yorker. E não dá para viver só de uma revista.


Ferdinando e Pogo
Ferdinando, de Al Capp, à esquerda, e Pogo, de Walt Kelly
UHQ: Quais são suas principais influências nos quadrinhos?

Baker: Eu sempre gostei das tiras. John Hart, o cara que faz a.C.; Ferdinando, de Al Capp; Pogo, de Walt Kelly.

Naquela época, era um bom emprego. Além disso, a arte era publicada grande e a circulação era imensa. Hoje há bem menos jornais.


B.C. , de John Hart
B.C. de John Hart, conhecido no Brasil como a.C.
UHQ: E seus personagens favoritos, quais são?

Groo e Martha Washington
Groo, de Sérgio Aragonés,
e Martha Washington, de Frank Miller.
Baker: Nos quadrinhos, dos personagens que não são meus, eu gosto de Groo e Martha Washington (nota do UHQ: protagonista da minissérie Liberdade - Um Sonho Americano, de Frank Miller e Dave Gibbons, publicada pela Editora Globo em 1991).

Nas tiras, aprecio bastante The Diary of a Teenage Girl, de Phoebe Gloeckner. Ela é muito boa. É sobre a sua juventude.



The Diary of a Teenage Girl
The Diary of a Teenage Girl, de Phoebe Gloeckner
UHQ: Suas cinco últimas graphic novels não saíram no Brasil, apesar de já estarem disponíveis em outros idiomas. Pode nos dizer qual foi a repercussão, nos Estados Unidos e em outros países, de You Are Here, Why I Hate Saturn, The Cowboy Wally Show, I Die At Midnight e King David?

The Cowboy Wally Show
The Cowboy Wally Show, de Kyle Baker
Baker: Eu nem sei direito onde o material foi publicado. O departamento de direitos estrangeiros da DC Comics é nebuloso. Algumas vezes, eles te contam, outras não. Acho que esperam que você não descubra (risos)... Sei lá por que não me despedem!

Álbuns como Cowboy Wally e Why I Hate Saturn vendem pouco no começo, mas depois continuam saindo aos poucos.


UHQ: Seu início nos quadrinhos de super-heróis foi em que título?

Baker: Comecei fazendo arte-final para a Marvel e a DC. Fiz Homem-Aranha, Novos Mutantes e uma história, acho, para os Vingadores.

Muitas vezes, eles querem dar um descanso para o artista da série e então você é chamado para uma ou mais edições, para o cara dar um tempo, tirar umas férias.


UHQ: Como você e Andy Helfer reagiram quando a Conde Nast, detentora dos direitos do Sombra, exigiu o cancelamento da revista, acusando-os de desrespeitar o personagem (nota do UHQ: a dupla matou o Sombra, cortou sua cabeça e depois a implantou num robô)?

The Shadow #7
The Shadow #7, da DC, arte de Marshall Rogers e Kyle Baker
Baker: Eu arte-finalizava para a Marvel quando recebei o convite da DC, para fazer a mesma coisa no Sombra.

É uma longa história. Na época, tinha acabado de lançar Cowboy Wally, meu primeiro álbum, pela Doubleday. Como eles não pagavam muito bem, por ser meu livro de estréia, eu precisava de dinheiro para pagar meus impostos; e tirava do que ganhava em Homem-Aranha.

Então, como estava sem grana, perguntei pra DC se eles não queriam que eu também desenhasse o Sombra, pois estava sem emprego.


UHQ: Houve muita pressão sobre você? Como foi o peso da responsabilidade de assumir após artistas como Howard Chaykin e Bill Sienkiewicz?

Baker: Não houve pressão. Eu tinha certeza de que as vendas iam cair. Howard Chaykin começou a série e depois passou para Bill Sienkiewicz. Então, Marshall Rogers fez uma edição. E eu sabia que os leitores que compravam só por causa daqueles artistas largariam o título.
The Shadow #18
The Shadow #18, da DC, arte de Kyle Baker


Assim, continuamos a série enquanto pudemos.


UHQ: Qual foi a razão real do cancelamento?

Baker: Paramos porque não estava entrando dinheiro. Não houve interferência de ninguém. As vendas não paravam de cair.

Uma explicação sobre o funcionamento de uma revista licenciada: a DC usava o Sombra da Conde Nast, então, precisava pagar à empresa metade dos royalties.

Andy Helfer e eu recebíamos royalties muito baixos, pois, pra piorar, a revista não estava vendendo. E ainda tínhamos que dar metade para a Conde Nast. Ganhávamos três dólares por edição. Aí, dissemos: "Isso é ridículo. Vamos trabalhar no Batman e ganhar mais."
The Shadow #19
The Shadow #19, edição final desta série da DC, arte de Kyle Baker


UHQ: Mas a trama nunca foi terminada?

Baker: Normalmente, quando você pára uma revista, alguém assume o título. Acho que Gerard Jones foi o responsável por finalizar a história.

UHQ: Também com Helfer, você fez a minissérie Justiça Ltda. Foi o melhor trabalho da dupla?

Nossa, fiz isso faz muito tempo. Há anos que não olho para esse material. Foi nessa época que comecei a produzir minhas próprias histórias. Eu já havia escrito Cowboy Wally antes de desenhar Justiça Ltda.

UHQ: Na época de quem foi a escolha de trazer de volta o personagem Vingador? Por que suas histórias não tiveram continuidade? A série foi mal de vendas?

Justiça Ltda #1, da Editora Abril
Justiça Ltda #1, da Editora Abril
Baker: Honestamente, não sei. Eu conhecia pouquíssimo daquele personagem, e acho que foi Andy (Helfer) que decidiu trazê-lo de volta.

UHQ: Você conhecia a existência da edição brasileira?

Baker: Não. Ninguém me fala nada. Descubro essas coisas quando viajo para os países. Com meus livros é melhor, porque, legalmente, eles são obrigados a me dizer.

Mas os outros materiais, nem me comunicam. Não há necessidade! Meus trabalhos são reimpressos por meio mundo, e eu nem sei.








 

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