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Universo HQ Entrevista Kyle Baker

UHQ: Este ano, em San Diego, você lançou uma revista com cartuns seus. Como tem sido a repercussão? Os seus fãs de quadrinhos acompanham seus trabalhos em outras áreas?

New Baker
New Baker, de Kyle Baker
Baker: Foi interessante. Achei que as pessoas não iam gostar das piadas sobre minha família, porque a maioria dos leitores está na faixa dos jovens solteiros.

Eu tinha medo que piadas sobre um casal antigo poderia não ser divertido para esse público, mas eles gostaram.


UHQ: As pessoas compram devido ao seu nome?

Baker: Sim, geralmente porque são fãs do meu trabalho, pois eu não tenho personagens, nem costumo trabalhar no mesmo título duas vezes.

Ninguém quer ver a revista do Homem-Borracha, mas vão comprar porque é feita por mim.


UHQ: Gostaria de trabalhar com algum escritor em especial?

Baker: Ainda não fiz nada com Frank Miller. Acho que seria bem interessante. Já trabalhei com Alan Moore. Desenhei uma história de seis páginas do Splash Brannigan para a Tomorrow Stories. O curioso é que o roteiro tinha 24 páginas!

The Bakers
New Baker, de Kyle Baker
UHQ: Qual sua opinião sobre o mercado de quadrinhos atualmente? Há realmente uma crise?

Baker: Não. O que está acontecendo é que materiais diferentes estão vendendo, e as duas maiores editoras não têm a mínima vontade de reconhecer isso.

É uma época boa. Há mais editoras e mais quadrinhos sendo publicados. Com várias revistas no mercado, o leitor pode escolher, e não comprar uma da DC ou da Marvel. Assim, o dinheiro se espalha.

Por exemplo, as pessoas nos Estados Unidos estão comprando muito os trabalhos de Chris Ware, Daniel Clowes e Robert Crumb. Os leitores estão cada vez menos interessados em super-heróis.

Se eu quiser ver um bom super-herói, vou ao cinema assistir aos X-Men ou ao Hulk. Aposto que é melhor que a revista.


UHQ: O que pensa sobre as adaptações de quadrinhos para as telonas? Por que, na sua opinião, o cinema tem bebido tanto da fonte das HQs?

Baker: Porque os quadrinhos são visualmente interessantes. Quando se vende entretenimento visual, você precisa de boas imagens. É por isso que tanta gente faz filmes ruins, mesmo com um roteiro interessante.

Você precisa ter algo interessante para assistir. Quando faço quadrinhos, procuro algo visualmente interessante. Por isso, reduzi muito meus diálogos nos quadrinhos.


UHQ: Você gosta de autores de quadrinhos europeus? Quais?

King David
King David, de Kyle Baker
Baker: Artistas europeus? Eu gosto do Hugo Pratt, do material do (Lorenzo) Mattotti... o que mais? É difícil lembrar. De estrangeiro, aprecio muito as obras do argentino Alberto Breccia e o que tenho lido atualmente é o Lobo Solitário.

UHQ: Qual sua opinião sobre a invasão dos mangás no mundo inteiro? Você gosta desse estilo?

Baker: Eu gosto do Lobo Solitário. Do resto, não gostei muito. Acho que qualquer coisa que atraia os leitores para os quadrinhos é bom. A babá que trabalha em casa gosta.

A maioria do material não tem um bom apelo para mim. Queria ver impresso Spirited Away, que parece ser bom.


UHQ: O que esperar para os próximos anos? Pode nos contar sobre algum outro projeto em que esteja trabalhando?

I Die At Midnight
I Die At Midnight, de Kyle Baker
Baker: Vou publicar muito material meu, independente, de humor e a Rebelião de Nat Turner, uma revolta de escravos. Se der certo, farei também alguns quadrinhos bíblicos.

Na Internet falam muito que os mercados estão encolhendo. Mas você tem mais chance escolhendo um nicho.

Até as grandes redes de TV americana fazem isso. Não sei como é aqui, mas nos Estados Unidos, se a ABC quer que as pessoas assistam aos seus programas, tem que ter um apelo bem grande. O mesmo acontece com os filmes.

Mas também é possível, hoje, fazer algo para um mercado em particular. Você pode vender para escolas e tem vários lugares onde pode distribuir isso. Posso fazer outro tipo de marketing para os meus cartuns de humor, quem sabe até reencaderná-los e trabalhar com temas.


UHQ: É o que acontece no Japão.

Ilustração de Cães
Arte de Kyle Baker
Baker: Isso. Posso pegar quadrinhos que falam para os pais e juntá-los. Colocar todos sobre cães e vendê-los para os amantes dos cachorros (nota do UHQ: em seu site oficial, o autor tem alguns desenhos de cães).

UHQ: E os editores concordam com esta opinião?

Baker: Não. E é por isso digo que a DC e a Marvel, vão deixar a peteca cair se não se cuidarem. É que elas são empresas que fazem parte de companhias maiores, cujo grande interesse é manter as marcas viáveis.

Eles precisam empurrar o Superman. E os leitores estão se afastando do Homem de Aço. E já faz um tempo.

Baker dá um autógrafo para o Universo HQ
Baker dá um autógrafo para o Universo HQ
Mas a DC não pode parar de fabricar material. Por isso, tem que empurrar o Homem-Borracha, porque precisa popularizá-lo. E, se der certo, fazer filmes, animação brinquedos, e como é propriedade deles, eu não recebo nada.

Se eles publicam You are Here ou Cowboy Wally, e colocam em camisetas ou fazem brinquedos e filmes, daí teriam que me dar metade. E, claro, não vão fazer isso. Daí, apostam no Superman, porque é deles. Mas estão presos.

Agora, estão tentando disfarçar seus super-heróis como mangá. Fizeram um da Morte. Estão emperrados. O mesmo aconteceu com a Marvel. Eles tentaram trazer a linha Epic, cujo material é propriedade de seus criadores, mas não deu certo porque as companhias donas da editora perguntaram: o que ganhamos com isso?

Kyle Baker autografa para o Universo HQ
Baker dá um autógrafo para o Universo HQ
Quando eles têm algo como Quarteto Fantástico, não precisam pagar o Jack Kirby. Se fizerem um filme do Tarzan, você precisa lidar com os netos do Edgar Rice Burroughs e fazer o que eles dizem.


UHQ: Pra você que esteve em ambas, quais as diferenças entre Marvel e DC?

Baker: Eu me relaciono melhor com a DC. Acho que eles fazem produtos melhores, porque sofrem menos pressão para gerarem lucros.

A DC faz parte da Warner, que faz dinheiro em todas as áreas. O Superman gera bilhões de dólares para a empresa todo ano, é só um milhão deve vir dos quadrinhos. Se uma revista não vai bem, tudo bem. Eles dizem: vamos gerar lucros com o filme do Batman.


UHQ: Que materiais você usa para desenhar e arte-finalizar?

Kyle Baker em ação
Baker autografa para o Universo HQ
Baker: Qualquer coisa. Estou usando um pincel mágico ultimamente, mas já trabalhei com bico de pena. O resultado é meio antiquado.

Como agora trabalho no scanner, não estou mais fazendo artes grandes e reduzindo. Tenho feito o material num tamanho que se encaixa na área de escaneamento. Por isso, como tudo é menor, preciso de pontas mais finas. Então, tenho usado muitos marcadores. Depois utilizo os programas Painter, Photoshop, Ilustrator e Flash.


UHQ: O que achou do FIQ? Como o compara a outros eventos?

Baker no FIQ
Kyle Baker no FIQ
Baker: É similar a um evento cultural. Já a convenção de San Diego, por exemplo, é para lucrar.

Lá, a empresa que faz a convenção não visa lucro, mas os expositores querem ganhar dinheiro. É o tipo de evento que precisa dar dinheiro, pois os colecionadores estão lá para comprar e vender.

Aqui, as pessoas vem para conhecer e ver o material e ouvir as palestras. É muito mais um evento cultural do que monetário.


UHQ: E qual você prefere?

Nas Ruas, publicada em Imagine Superman de Stan Lee
Nas Ruas, publicada em Imagine Superman de Stan Lee
Baker: É diferente. Eu gosto disso. Por ser mais artístico.

Na minha área acontece o mesmo. Você desenha porque quer fazer arte, mas é um negócio. Então, é preciso haver um equilíbrio. Eu não vim aqui para vender, mas para participar.


UHQ: Você gostou de algum quadrinhos brasileiro?

Baker: Sim, vi bastante coisa, mas sou ruim com nomes. Vi muita coisa e uma que me agradou foi uma revista pequena... (nota do UHQ: o autor se referia à Mosh).

UHQ: Pra terminar, uma mensagem para os leitores brasileiros.

Baker: Obrigado por me convidarem (risos). Fico feliz de ter vindo. Foi surpreendente descobrir que os brasileiros gostam de Justiça Ltda. É mais popular aqui do que em outros países.

Autógrafo de Kyle Baker para o Universo HQ
 

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