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![]() Quadrinhos com ares de artes plásticas Em sua passagem pelo Brasil, no final de setembro, Lorenzo Mattotti falou com exclusividade ao Universo HQ sobre sua carreira, os principais trabalhos, a influência do cinema em suas obras, a participação no grupo Valvoline, que chacoalhou os quadrinhos italianos, e muito mais Por Sidney
Gusman
No Brasil, infelizmente, teve pouquíssima coisa publicada: algumas histórias na extinta revista Animal e o álbum Estigmas, espertamente lançado pela Conrad Editora durante sua presença em nosso país. O premiadíssimo autor foi uma das atrações internacionais do 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, realizado no final do mês de setembro. Logo após o café da manhã no hotel, ele conseguiu uma brecha em sua agenda para uma entrevista exclusiva para o Universo HQ.
Em janeiro de 1983, foi um dos fundadores, em Bolonha, do grupo Valvoline, que revolucionou os quadrinhos italianos, tanto no aspecto estético, quanto no lingüístico. Durante sua carreira, sempre demonstrou grande afeição por histórias clássicas, como comprovam as adaptações de Huckleberry Finn (1978, com texto de Antonio Tettamanti), Pinocchio (1990), A Divina Comédia (1999) e Doutor Jekill & Mister Hyde (2002, com roteiro de Jerry Kramsky). Extremamente versátil, também faz sucesso como ilustrador, e trabalhou para jornais (Le Monde, Libération, Corriere della Sera), revistas (The New Yorker, Cosmopolitan, Dolce Vita), livros infantis, catálogos de exposições, livros de desenhos e até um cartaz para o Festival de Cannes, em 2000.
No campo da moda, durante muitos anos, ele reinterpretou para a revista Vanity Fair os modelos dos grandes costureiros. Em 1987, a editora francesa Albin Michel compilou esses desenhos num álbum (reeditado em 1999 pela Seuil) que ganhou o prêmio especial do Festival de Lucca, na Itália. No começo da década de 1990, seu álbum infantil Eugenio ganhou o Grande Prêmio de Bratislava (Eslováquia) e acabou adaptado para um desenho animado feito para televisão e cinema, que pode ser conferido aqui. O mais impressionante do trabalho de Lorenzo Mattotti é sua capacidade de transformar cada vinheta num quadro, sem perder a agilidade própria dos quadrinhos. Confira a seguir um pouco mais sobre esse prolífero autor. Universo HQ: Qual seu nome completo? Lorenzo Mattotti: Na Itália, é muito comum as pessoas terem três, quatro nomes. Eu tenho três, mas não uso nunca. Então, fiquemos só com Lorenzo Mattotti.
Mattotti: O início da minha carreira foi muito difícil. Eu queria desenhar quadrinhos, mas não sabia como fazer. Então, eu copiava o que outros faziam, mas não tinha uma idéia de como poder publicar. Assim, eu e meu amigo de infância (Jerry) Kramsky, continuamos a fazer histórias e desenhos sem parar. Um dia, tentamos vendê-las, mas não conseguimos. Um dia, conheci uma agencia em Milão que publicava todos os sul-americanos, Alberto Breccia, José Muñoz e outros. Eles se interessaram em lançar meus materiais, mas nos primeiros anos eu não queria mais ser publicado, porque minhas obras não eram belas o suficiente. Depois, pouco a pouco, eu fui evoluindo e fiz um álbum para uma editora independente (nota do UHQ: chamada Ottaviano). Em seguida, fui viver em Milão, onde fiz uma tira chamada Tram Tram Rock para um jornal local (nota do UHQ: chamado Secondamano).
UHQ: Como se chamou o seu primeiro trabalho profissional? Mattotti: Foi em 1977, este livro independente de que falei. Chamava-se Alice Brum Brum (nota do UHQ: o texto era de Fabrizio Ostani). UHQ: Você tem alguma formação técnica de desenho? Mattotti: Logo que saí do liceu, eu cursei arquitetura. Mas sou um autodidata, pois fui melhorando meu desenho com o passar dos anos. UHQ: Quais foram suas principais Influências nos quadrinhos? Mattotti: No momento mais importante, que foi quando decidi que queria trabalhar com isso, creio que foram todos que tive chance de ver. Eu observava tudo. Mas acho que a escola sul-americana me influenciou de maneira muito, muito forte a minha concepção de quadrinhos, com as coisas que contava nas histórias, o fato de sempre experimentar algo novo, de não existir um herói, de haver tantas histórias diferentes.
Na Itália, que também tem uma grande escola, admirava os desenhos de Dino Battaglia, Hugo Pratt. Eu sempre fui muito aberto. Depois veio Moebius... e todo trabalho bonito que eu tive oportunidade de ver. UHQ: Suas obras já foram publicadas em quantos países? Mattotti: Ah, não são muitos. Eu sou um autor que publica pouco (nota do UHQ: Mattotti foi modesto, pois tem trabalhos editados em praticamente toda a Europa). UHQ: Apesar de trabalhar mais com álbuns, você também publicou em várias revistas. Poderia enumerar algumas? Mattotti: De quadrinhos, Alter Alter, Linus, Frigidaire e outras. Eu nunca fui um grande autor de revistas. Mas fiz capas para a New Yorker, colaborei com os jornais Le Monde, Corriere della Sera, La Repubblica; a revista Panorama...
UHQ: Já que falou nas revistas de moda, elas pagavam muito melhor que os quadrinhos? Mattotti: Não. O problema das revistas de moda é que elas pagavam pouco, mas tinham muitos trabalhos. Quando eles me sondaram, eu fazia somente quadrinhos. Então, passei a fazer muitas ilustrações de moda. Acabei entrando num momento bom, que me ajudou a ganhar a vida. Eles gostavam muito de meus desenhos e me davam várias páginas para fazer. Era um trabalho bastante veloz, extremamente rápido. E isso me ajudou muito. Como disse, eles não pagavam muito, mas fazendo tanto, eu recebia o suficiente para viver bem. Depois, pouco a pouco, cheguei ao mercado de publicidade e outros trabalhos. Mas não falo de propagandas! Isso não faço. Falo de cartazes de dança, de moda, de coisas culturais, cinema, teatro. UHQ: Ao lado de nomes como Carpinteri, Igort e Jori, você criou, em 1983, o famoso grupo Valvoline, que sacudiu as estruturas do quadrinho italiano. Por favor, conte um pouco sobre essa experiência.
A idéia era levar adiante cada projeto, mas durou somente dois ou três anos. UHQ: Mas foi uma revolução... Mattotti: Ah, uma revolução que depois ficou caduca, como todas as revoluções. Com mentes tão diversas umas das outras, naquele momento tínhamos uma grande energia complementar. Depois, porém, também foi diminuindo. Aí, os que eram verdadeiramente interessados em quadrinhos seguiram carreira; outros viraram artistas; e alguns foram trabalhar na televisão. Cada um seguiu sua estrada. UHQ: Em 1992, você fez sua versão de Pinocchio. Por que resolveu trabalhar com um personagem tão antigo? Mattotti: Como todos os meus trabalhos, este nasceu por acaso. Pinocchio era um grande clássico, foi feito por tantos desenhistas da Itália e do mundo, que era um pouco difícil de encarar o desafio...
Mattotti: Marcante, mas lembro que, quando comecei a fazê-la, passei uns dois ou três meses sem saber o que fazer. Eu começava a desenhar e nada me agradava. Depois, comecei a observar os artistas que o tinham feito antes de mim. Primeiro, vi duas imagens de Pinocchio numa mostra. Eu gosto mais de vê-las integrando uma obra do que "picadas". Nos livros é mais divertido. Então, procurei um editor, e disse que gostaria de fazer a minha versão, que seria bem diferente da maioria dos autores, que fazia duas ilustrações e depois mais nada. E enfrentar Pinocchio era um grande desafio, porque o personagem já teve muitas versões. Alguns o fizeram com paisagens realistas, num estilo nos anos 1800, outros o retrataram de modo visionário, metafísico, completamente imaginário. Mas se você faz um livro, tem que fazer tudo. Esse trabalho me consumiu um bom tempo. E quando entreguei à editora, a sensação era de que ainda não havia terminado. Sempre que entrego um trabalho, estou convicto de que gosto dele, que fiz o melhor que podia.
UHQ: Quando começa uma obra, você pesquisa muito para fazer os desenhos? Mattotti: Não muita. Eu faço uma pesquisa em minha cabeça, para saber o que vou fazer. Quando vou começar uma historia, penso muito, imagino as imagens e todo o trabalho de maturação da trama. Mas cada trabalho tem sua história. UHQ: Nos seus álbuns de quadrinhos, você prefere trabalhar sozinho ou com roteiristas? Mattotti: Em quadrinhos, gosto muito de trabalhar com outros profissionais. Especialmente, porque são sempre amigos, pessoas com quem tenho algum laço de amizade. Não gosto de pegar um roteiro de alguém que não conheço e simplesmente desenhá-lo.
Mas com Kramsky não posso falar de trabalho como faço com Claudio ou Jorge Zentner. Com certos autores, posso aprofundar em uns pontos; com outros roteiristas, em outros. E eu gosto de discutir o roteiro, de ter uma visão destacada do trabalho. Quando faço uma história em quadrinhos sozinho, sou muito angustiado, me perco em labirintos estranhos da trama. Sou muito lento e não consigo ir avante. Por isso, prefiro dividir essa responsabilidade. |