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Universo HQ entrevista Lorenzo Mattotti

UHQ: Por favor, fale um pouco sobre Caboto.

Caboto
Capa de Caboto, edição 2003
Mattotti: Este foi meu primeiro trabalho com Zentner. Eu conheci Jorge porque éramos amigos comuns de Muñoz e Sampayo, e acabamos nos encontrando em Lucca (nota do UHQ: onde acontecia um dos mais importantes eventos de quadrinhos do mundo). E começamos a conversar. Depois, quando fui a Barcelona, ele foi me encontrar.

Falamos muito e acabou surgindo uma amizade. Então, na época do quinto centenário do descobrimento da América, a Espanha organizou uma série de livros sobre a exploração, e me perguntaram se eu gostaria de fazer um deles. A editora me enviou quatro roteiros para ler, sem dizer os nomes dos autores.

E um que me agradou, pelo ritmo, pela narração era o de Caboto. Então, me disseram que era de Jorge Zentner. E respondi: "Somos amigos, eu o conheço". Aí, nos encontramos, fechamos o roteiro e fizemos a edição inteira.

Depois, passamos muito tempo sem nos vermos...


Le Bruit du Givre
Capa de Le Bruit du Givre
UHQ: Jorge Zentner mora em Barcelona, você em Paris. Como era o contato durante a realização de um trabalho conjunto?

Mattotti: Na época de Caboto, eu ainda vivia na Itália. Então, ele fez uma viagem para lá, e me levou o roteiro. Depois, "falávamos" via fax, até nos encontrarmos.

Já este último livro, Le Bruit du Givre (Il Rumore de la Brina, em italiano, e El Rumor de la Escarcha, em espanhol - algo como O Rumor do Orvalho em português) que eu fiz morando na França, que, foi um trabalho que levamos meses para fazer, porque era uma encomenda para um grande jornal alemão, o Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Aí, ele ia a Paris uma vez por mês, por alguns dias, e trabalhávamos. Depois, retornava a Barcelona. Mas foi um trabalho muito complicado, porque Jorge escreve em espanhol, depois a obra era traduzida para o alemão, e voltava para fazer as letras em Paris... Enfim, um verdadeiro trabalho completamente europeu.

Mas tudo fica mais fácil quando roteirista e desenhista se entendem.


Estigmas
Arte original de Estigmas
UHQ: Você publicou em vários países europeus. Hoje, qual é o melhor mercado?

Mattotti: A França, sem dúvida. Mas Estigmas, por exemplo, foi um pouco melhor na Itália. Na França foi mediano. Eu esperava uma repercussão maior deste álbum. Tive uma grande decepção, porque depois de tanto trabalho, o resultado foi praticamente nenhum.

Depois de Estigmas passei por um momento de grande depressão, e pensei em não mais fazer os meus próprios quadrinhos. Mas em seguida vieram Doutor Jekill & Mister Hyde e outras coisas...

O mercado italiano está médio. Mas creio que é preciso considerar que são culturas diferentes. A França não é uma cultura simbólica, cristã; é muito anti-religiosa. Creio que isso me prejudicou, porque Estigmas fala de um símbolo religioso e de um preconceito. Mas quem leu o álbum sabe que vai bem além disso.

Por isso, Estigmas vai muito lentamente, como todos os meus livros. É uma coisa que acaba saindo com o tempo.


Le Bruit du Givre
Lorenzo Mattotti e Sidney Gusman,
durante entrevista em Belo Horizonte
UHQ: Há Algum roteirista com que ainda não trabalhou, mas que gostaria?

Mattotti: Não sei. O problema é que preciso conhecer meus roteiristas. Mesmo quando leio algo muito bom, se não conheço a pessoa, não tenho vontade de trabalhar ela.

UHQ: Hoje você lê histórias em quadrinhos?

Mattotti: Poucas. Apenas de alguns autores de quem gosto ou outros por curiosidade. Aprecio muito Taniguchi; Daniel Clowes, pela história; Art Spiegelman, que é muito amigo meu; acompanho sempre Muñoz, para saber as coisas que está fazendo.

E algum que um ou outro amigo indica para ler. Também gosto de (Fred) Beltran, do americano David Boring, e do Igort, um desenhista que fazia parte do Valvoline. Ele fez um livro chamado 5 è il Numero Perfetto, que é belíssimo.

Fred Beltran
Arte de Fred Beltran
Há ainda outros que são excelentes desenhistas, mas que a história não me interessa. Stefano Ricci é ótimo. Seu traço é potente, fortíssimo, mas acho que ainda não descobriu a maneira ideal de contar a história.

Gosto também do americano Cris Ware que fazia Jimmy Corrigan, mas e história é muito lenta.


UHQ: Recentemente, foi lançado no Brasil o álbum Little Lit, que traz uma história sua. Como entrou no projeto?

Mattotti: Little Lit é uma criação de Art e sua esposa Françoise (Mouly). Como somos muito amigos, ele me convidou para participar. Deveria recontar uma fábula clássica, popular. Eu não sabia bem o que fazer. Então, li um conto de Italo Calvino, um escritor italiano muito famoso, e achei que deveria fazer aquela pequena história (nota do UHQ: intitulada Os Dois Corcundas), que é muito bonita. Eu a fiz para as crianças. Não é algo refinado.

Pôster do Festival de Cannes
Pôster do Festival de Cannes
de 2000, por Mattotti
E eu convidei Kramsky para lê-la também, porque gosto de trabalhar com ele. Mas como ele achou que todas as fábulas estavam ultrapassadas, e acabei fazendo sozinho.

UHQ: Qual sua opinião sobre os mangás, que vêm fazendo enorme sucesso nos mais variados mercados de quadrinhos, inclusive na Itália?

Mattotti: Eu não sou um especialista em mangás, mas creio que eles têm sua importância, por introduzirem os leitores às histórias longas, lentas, o que dá ao autor a possibilidade de fazer muitas páginas.

Sem dúvida, é um gênero muito estruturado no desenho. Caracterizadíssimo. Mas há autores maravilhosos, como Taniguchi, que se destacam por fugirem do modelo mais tradicional dos mangás. Sempre que posso, vejo os trabalhos dele.


UHQ: Seu trabalho nunca se caracterizou pelo uso de personagens fixos. Mesmo assim, há algum que gostaria de desenhar?

Fuochi
Fuochi
Mattotti: Acho que alguns personagens são ligados demais ao desenho do autor, como Corto Maltese, de Hugo Pratt. Aquele ar de abstração, a valorização do branco... seria muito difícil fazê-los melhor. Eu não me meteria numa obra dessas.

Seria bem mais fácil, por exemplo, fazer o Batman. Enquanto Corto Maltese exige uma sensibilidade literária, um mundo poético pessoal, Batman é como um invólucro dos quadrinhos, pois foi desenhado por tantos artistas, que te dá toda possibilidade de uma interpretação mais pessoal.


UHQ: Como encararia um convite para desenhar um super-herói?

Mattotti: O problema é saber se valeria ou não a pena fazer um trabalho desses. Depende se o meu Batman seria altamente importante para mudar alguma coisa, ou se no tempo em que o estivesse fazendo, não seria melhor fazer uma história minha, na qual me meteria com coisas que me interessam mais.

Entre fazer uma nova história de Estigmas e um Batman, visto que o tempo voa, eu preferiria realizar a minha. Mas não tenho nada contra. Doutor Jekill & Mister Hyde é um arquétipo da dupla identidade dos super-heróis. E reinterpretar essa obra, para mim, foi uma grande honra.


Le Signor Spartaco
Le Signor Spartaco
UHQ: Entre todas as suas obras, é possível escalar seu trabalho predileto?

Mattotti: Cada trabalho é como um filho. É um pouco difícil dizer de qual se gosta mais. É claro que Fuochi, para mim, é num ponto extremamente importante de minha carreira. Mas Sr. Espartaco, em nível de liberdade criativa, foi maravilhosa de fazer.

Sou muito orgulhoso de todos essas obras. Estigmas também é importante. Cada trabalho meu é uma etapa de conhecimento. Como diria... Eu cometo muitos erros, mas cada um serve para que continue andando avante, descobrindo novas coisas.

Meu último livro com Jorge Zentner também me deixou muito satisfeito e foi importante para mim.


UHQ: O também italiano Sergio Bonelli nunca o convidou para desenhar algum de seus personagens?

Fuochi
F Le Bruit du Givre,
página interna
Mattotti: Conheci Sergio Bonelli há pouco tempo, mas ele não se interessa pelo meu trabalho, porque disse que sou mais um pintor, um artista plástico, não um desenhista de quadrinhos.

É um pouco como o discurso de Batman. Eu não faria o Tex Willer, porque é outro estilo. Talvez Dylan Dog, mas eu li pouca coisa dele. Até poderia desenhá-lo, se não tivesse que fazer seu companheiro (nota do UHQ: Groucho), que não suporto.

Mas um pesadelo, um grande sonho de Dylan Dog, provavelmente, eu poderia fazer. Mas não sei se os leitores da revista gostariam de meu estilo.


UHQ: O cinema parece ter bastante influência na sua narrativa. Você gosta da sétima arte?

Mattotti: Sempre amei o cinema, porque desde garoto tive a sorte de freqüentar as salas gratuitamente. Eu via todos os filmes possíveis, de todos os gêneros. De western aos filmes de Pasolini. Tudo me apaixonava. Para mim, o cinema era uma máquina mágica.

Mattotti autografa álbum
Mattotti autografa álbum durante entrevista
E provavelmente eu comecei a desenhar com a idéia de fazer cinema na minha casa. E isso me acompanhou por muitos anos. Muitas de minhas histórias são feitas para tentar passar em quadrinhos a sensação que eu tinha no cinema.

Do mesmo modo que diretores como Pasolini conseguiam transportar aquela intensidade na imagem, eu tento fazer isso nos quadrinhos.


UHQ: Seu trabalho se assemelha bastante ao de um artista plástico. Qual é sua velocidade de produção?

Mattotti: Tenho a sorte de ser veloz. Pela experiência que adquiri nesses anos todos, consigo fazer um cartaz ou ilustrações para jornais em apenas um dia.

UHQ: Especialmente nas suas obras em preto-e-branco, você faz um traço cheio de detalhes, com linhas que se cruzam nas mais diversas direções. Mesmo assim, a narrativa das histórias é excelente. Qual o segredo?

Mattotti: O ritmo que você determina dá toda a composição da história, da localização dos quadros, das páginas e das seqüências.

Mattotti faz desenho para o UHQ
Mattotti faz desenho exclusivo para o UHQ
Se a seqüência é bem organizada, o traço dará a velocidade necessária ao desenho.

Então, se houver uma boa composição do desenho, depois a cor e o traço final atuam como contrapontos, como variação. E é aí que posso acentuar um ou outro ponto.


UHQ: Quais são seus projetos para os próximos anos?

Mattotti: Agora, eu farei uma viagem com Jorge Zentner à Patagônia (nota do UHQ: seria realizada no mês de outubro). E dela produziremos um livro de viagem.

Também tenho um projeto com Kramsky, uma história em preto-e-branco, muito diferente das nossas outras, espero. Ela se passa num mundo poético, e estou bastante feliz por fazê-la. Será uma narrativa muito rápida, bem diferente das minhas últimas obras.


UHQ: Para concluir, após essa rápida passagem pelo Brasil, qual a mensagem que poderia mandar para os leitores daqui?

Mattotti: Que não se fixem em ler só mangás ou qualquer outro gênero que conheçam. Que o amor pelos quadrinhos os ajude a superar os preconceitos e lhes permita conhecer outras culturas.


Autógrafo de Lorenzo Mattotti para o Universo HQ


 

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