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![]() Abrindo caminho a (sete) balas Publicando na Europa a série de sete álbuns (só o primeiro já lançado) Sept Balles pour Oxford, Marcello Quintanilha adota o nome verdadeiro, abandona o pseudônimo Gaú e fala sobre sua carreira, seus ídolos e seus trabalhos numa entrevista exclusiva ao Universo HQ
Por Sidney Gusman
Há algum tempo, no entanto, não se vê mais nada dele por aqui. E nem se verá... pelo menos como Gaú! O autor, que atualmente mora em Barcelona, na Espanha, agora assina como Marcello Quintanilha, seu verdadeiro nome. A razão para a mudança? Ele nunca achou que fosse viver de quadrinhos. Por isso, adotava o pseudônimo Gaú. Como a arte seqüencial acabou se tornando sua profissão, optou por adotar o nome verdadeiro daqui pra frente.
Sem dúvida, uma conquista. Afinal, que brasileiro hoje publica no Velho Continente, com um requinte gráfico tão grande (o álbum tem capa dura e papel luxuosíssimo) e pode se dar ao luxo de viver na Europa, apenas trabalhando com quadrinhos? Atualmente, só Quintanilha e o veterano Léo (Luís Eduardo Oliveira), de 59 anos, que vive na França desde a época da nossa ditadura militar.
Extremamente eclético, durante seus quase 20 anos de carreira, Marcello Quintanilha já fez ilustrações para diversas revistas, como Trip, TPM, Bravo, República, Vip, Sabor e outras; capas de livros, como da biografia do sambista Martinho da Vila, para a Editora Record; um encarte de um CD do grupo Planet Hemp; trabalhou com animação e até assinou desenhos, num traço bem diferente do seu estilo, nos quais fez uma releitura de Asterix e Obelix, para um dossiê sobre a Alca - Associação de Livre Comércio das Américas, publicado na revista República, do site Primeira Leitura.
Recentemente, acertou com a Casa 21 para desenhar Salvador, capital da Bahia, no projeto Cidades Ilustradas. Marcello Quintanilha agora começa a conquistar leitores no exterior, abrindo caminho a (sete) balas. Fica a torcida para que alguma editora brasileira se interesse pelos seus trabalhos mais recentes. Quem sabe as linhas abaixo não ajudam nesse sentido? Universo HQ: Qual seu nome completo e idade? Marcello Quintanilha: Meu nome é Marcello Eduardo Mouco Quintanilha. Mouco é por parte de mãe, vem de Portugal. Quintanilha é por parte de pai. Tenho 31 anos.
Quintanilha: Segundo grau completo. Sou autodidata. UHQ: E como começou sua carreira nos quadrinhos? Quintanilha: Eu sempre desenhei. Meus desenhos sempre tiveram uma intenção, um fato, uma situação. Quando pego um personagem, com certeza há uma história relacionada aquilo ali. Eu já era ligado aos quadrinhos, embora não desenhasse especificamente HQs. Aí, em 1983, ganhei a primeira revista da minha coleção, Heróis da TV # 40... UHQ: Você lia super-heróis?
UHQ: Definitivamente, não. Você ainda lê esse tipo de quadrinhos? Quintanilha: Hoje, não. Mas continuo gostando. Esse primeiro contato foi o mais importante na minha relação com os quadrinhos. Eu acompanhava tudo, sabia quando mudava o arte-finalista, essas coisas. E naquela época era mais difícil, não tinha Internet. E pulavam histórias, cortavam e tal... e tinha coisa que chegava com dez anos de atraso. Mas na Espanha era pior! Eles remontavam os quadros, um verdadeiro absurdo, era o verdadeiro "açougue" dos quadrinhos! Os caras não eram editores, eram açougueiros. Até que a gente não estava tão mal. UHQ: Mais algum artista te influenciou bastante, além de John Buscema? Quintanilha: Joe Kubert; José Luis Garcia-Lopez, que gosto muito, acho um dos grandes nomes dos quadrinhos, um mestre incomparável; Neal Adams... Mas nenhum do jeito como gosto do Buscema. UHQ: E brasileiro, tem algum?
Mas, continuando, depois passei a ler muito, a pensar no trabalho como numa história em quadrinhos. E fiz o que todos fazem: imitar o estilo dos artistas famosos. Desenhava igual ao Gil Kane, Jack Kirby... Até que fiz um pôster de desenho publicitário. Tinha uns 13 anos nessa época, e conheci uns caras que liam muito quadrinho europeu. A partir desse contato, descobri Corto Maltese, Moebius e outros; e fiquei encantado. Comecei a copiar os desenhos. Era divertido pra caramba. Nessa idade, tudo é divertido. Depois disso comecei a mandar meus trabalhos para algumas editoras, fui na Bloch, no Rio, porque eles tinham uma série de revistas de terror. O cara gostou de uma das histórias, e passei a desenhar pra eles. Nessa época, eu imitava o Paul Gulacy, que, para mim, era o nome do momento!
Quintanilha: Foi do Mestre Kim. Assinei Marcelo Quintanilha e, entre parênteses, Gaú. Daí, comecei a trabalhar pra eles, mas enfrentei alguns problemas de adolescência, adaptação na escola, um período difícil. Então, encontrei refúgio na literatura infantil, por exemplo. Foi quando iniciei uma fase de experimentar novas técnicas de desenho. Passei a fazer um traço que rompia com tudo que gostava até então. Tanto os americanos quanto os europeus. Isso foi por volta de 1990. Larguei minhas influências e comecei a buscar coisas que tivessem a ver com minha vida. Passei a usar a aquarela e o grafite. Essa técnica nasceu como um contrapeso a um momento difícil, e me ajudou muito. Se você vir a primeira história nesse estilo (nota do UHQ: premiada na 1ª Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro, em 1991), é quase só aquarela.
Aí, aos 18 anos, comecei a trabalhar num curso de inglês. Eles tinham um estúdio de animação para os filmes deles, com uma equipe de doze profissionais. Atuei como animador por sete anos, com carteira assinada. Aprendi muito lá. Então, veio a Bienal de Quadrinhos do Rio, em 1991, e depois comecei a fazer quadrinhos pra valer. Mas como eu trabalhava, demorava meses para concluir as histórias: uma a cada dois anos. É a regularidade possível até hoje. Não para essa minha nova fase na Espanha, claro, porque este trabalho é que financia as minhas HQs autorais.
A literatura brasileira não foi construída a partir de um mercado que a absorvesse, mas por pessoas comprometidas com seu próprio trabalho, que tinham outros empregos e escreviam seus textos nas horas vagas. Machado de Assis acordava cedo, escrevia uma parte dos romances, criticas literárias e depois ia para o serviço. Arthur de Azevedo também. Homens como eles fizeram a literatura brasileira. Hoje me irrita um pouco essa história de o quadrinho não dar dinheiro. A literatura não foi feita assim. Não existe mercado que absorva, por exemplo, um poeta como profissional, que pague para um cara escrever poesia. É a maneira como eu vejo.
Quintanilha: Nessa época, antes de começar a trabalhar, de quadrinhos nacionais conhecia a Calafrio. Cheguei a trabalhar com eles. Publiquei três histórias na editora D-Arte. UHQ: Você leu Angeli e Laerte? Quintanilha: Li, mas não me influenciava, porque era um tipo de trabalho diferente, mais ligado ao humor. UHQ: É nítido existe um carinho mútuo entre você e o Lourenço Mutarelli. Você chegou a ser fã dele? Quintanilha: Sempre fui e ainda sou. Tem coisa difícil de explicar. Você percebe que a pessoa tem o mesmo tipo de interesse que você, são universos totalmente diferentes, são modus operandi diferentes, mas ambos encontramos nos quadrinhos uma maneira de nos salvar. UHQ: Você fez fanzine? Quintanilha: Nunca tive oportunidade. Gostava, mas como não conhecia ninguém que fizesse... UHQ: Foi depois da Bienal que chegou sua fase mais autoral?
Então, ele me convidou para fazer a página final da General. O espaço era meu, pra eu fazer o que quisesse. Cheguei a publicar uma crônica, porque gosto muito. O autor que mais admiro é o Rubem Braga. A morte dele deixou um vazio muito grande na crônica carioca... Mas, como estava dizendo, a partir de um momento, a literatura passou a ser preponderante, pois deixei os quadrinhos e só lia livros, principalmente brasileiros, em busca da minha própria identidade. Aprendi muito com isso, especialmente sobre como estruturar meu trabalho, que é lento, publicado num espaço grande de tempo. Mas não considero isso algo negativo. Acho que produzo bem assim. UHQ: E depois da General?
Era a história de um negro que se autoflagelava, uma alegoria sobre o direito que as pessoas têm de levar a vida que querem. Ele não era louco, apenas tinha essa mania, e era problema dele. Mas ele estava doutrinando outras pessoas onde trabalhava...
Esse negócio do direito da pessoa levar a vida que quer, e de controlar os outros é o tema de Granadilha, que abre com a frase: "Eu não consigo controlar as vontades da minha carne". É a história de um homossexual pela visão dele. Ele não escolhe ser assim, ele nasce assim. É uma alegoria com o fato do cara não escolher ser artista, de fazer quadrinhos. A relação é a mesma.
Depois, fiz Fealdade de Fabiano Gorila (nota do UHQ: publicado em 1999, pela Conrad), uma história baseada na vida do meu pai, que era jogador de futebol, nos anos 50. Ele nasceu num bairro simples em Niterói, cercado de vilas operárias. A economia do local era gerada pela fábrica de tecidos, que tinha um time, no qual meu pai jogava.
Por pressão do meu avô, ele assinou com o Canto do Rio, ganhando um pouco menos, porque no Fluminense era algo meio incerto. Tentei passar no álbum essa difícil escolha entre a chance de jogar num time grande e a certeza de ter a oportunidade de trabalhar. Minhas histórias refletem um universo masculino, tem o futebol, os botequins... Às vezes, trato de temas sobre o universo feminino, mas de uma forma muito mais poética. Tem uma HQ, que foi premiada na segunda Bienal, e depois foi publicada na Heavy Metal, com a relação da empregada com a patroa, as telenovelas... UHQ: Quando você fechou a história do seu pai, já tinha o álbum inteiro pronto, dentro do seu prazo?
Fealdade foi minha publicação mais importante no Brasil. A repercussão foi surpreendente. Foi lido majoritariamente por pessoas que não tinham nenhum contato com quadrinhos. E isso é algo interessante. Minhas histórias são mais bem entendidas por pessoas que não têm contato com HQs. Com Dorso, foi a mesma coisa.
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