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Quintanilha: Ela saiu primeiro na Nervos de Aço, do Patati (nota do UHQ: roteirista de várias HQs e criador do personagem Nonô Jacaré, publicado na extinta Porrada! Special, da Editora Vidente). Foi a única história colorida da revista, sobre um sambista. Tem outra coisa interessante aí: é o o fato de as pessoas ficarem atentas à presença constante de personagens negros ou mestiços nas minhas histórias. Muita gente fala disso, o que me chama a atenção. Para mim, é óbvio. Vivemos num país de etnias diferentes, mas não para algumas pessoas! Por alguma razão, isso chama a atenção delas, o que me surpreende. UHQ: Depois do álbum, saiu algum material seu aqui?
UHQ: Esse foi o fator fundamental para abrir as portas na Europa? Quintanilha: Não. No primeiro FIQ, em Belo Horizonte, encontrei o francês François Boucq, minha última grande influência como desenhista. O trabalho dele me levou a materializar a direção que o meu seguiria, a partir de 1990. Então, neste encontro, naturalmente declarei toda minha admiração por ele, que ficou muito surpreso. Boucq tinha visto o meu trabalho antes de me conhecer. Foi muito legal. Aí, associou com o que eu tinha feito e mostrou trabalhos meus na Europa.
O conceito de HQ dele é diferente do meu. Eu prefiro tiras; ele, as páginas. Isso vem da minha admiração pelos primórdios dos quadrinhos, dos jornais e tudo mais. Mas, pra seguir o roteiro, tive que moldar meu estilo.
Em seguida, decidi me mudar para lá. Trabalhando perto, ficou muito melhor e, naturalmente, é uma oportunidade de conhecer o mercado de lá. Descobri que existe muita lenda, que não é assim como dizem. As editoras européias também têm seus objetivos comerciais. Há muitos quadrinhos comerciais. Evidente que é diferente dos Estados Unidos, mas tem a mesma estrutura: o mainstream é que sustenta as obras mais artísticas. UHQ: Então, você mora na Espanha e produz para a França, Bélgica, Suíça, Holanda e Canadá (os países de língua francesa onde circulam os álbuns da Lombard)?
Eu cheguei num ponto em que consigo saber o que vou encontrar quando desenho, porque já desenhei muito. Não acredito em dom. A minha vida foi desenhar, escrever e buscar sempre. Por isso, o grande desafio foi estruturar as páginas. O Jorge já me passa a diagramação, o que evita a tendência de eu fazer a minha versão. Assim, estou desenhando mais, estruturando melhor meu trabalho e já evoluí em relação ao primeiro álbum. E estou feliz com isso. UHQ: E qual a chance de Sept Balles pour Oxford (confira o site oficial) sair no Brasil? Quintanilha: Eu gostaria muito. Precisaria ter uma editora interessada. UHQ: Você não acha que existem coisas interessantíssimas de nossa realidade que poderiam ser publicadas na Europa? Estórias Gerais, por exemplo? Não é um caminho a ser trilhado?
Por isso que, na Europa, preferi trabalhar numa história passada nos Estados Unidos. UHQ: Você faz pesquisa visual? Quintanilha: Muita. Estou sempre fazendo. Na Espanha é mais fácil encontrar referências. UHQ: Como é para o Marcello Quintanilha abrir o site do FIQ e encontrar o nome dele como convidado internacional, e não brasileiro? Quintanilha: Achei estranho, mas tudo bem! UHQ: É possível que logo seja mais conhecido na Europa do que aqui. Como se sente em relação a isso?
UHQ: Voltando um pouco, qual era seu personagem favorito? Quintanilha: O Surfista Prateado. E era do John Buscema! Ele era um solitário... UHQ: Você transporta muito da sua experiência de vida para os quadrinhos? Quintanilha: Todas as histórias. Até nessa fase européia, em alguma medida. Os personagens são baseados em pessoas que conheço. O Oxford é meu avô. A neta dele é minha esposa. A mulher dele é minha avó. Nas HQs que saíram na Heavy Metal, a patroa era minha mãe. São histórias familiares, para a família brasileira (risos)! E o meu pai também é personagem em Dorso. UHQ: Nós temos uma história rica para contar em quadrinhos, como fizeram, por exemplo, em Adeus, Chamigo Brasileiro. Você pensa em fazer algo ligado à literatura brasileira?
Não pensei em trabalhar com nenhum fato específico. Gosto de falar das coisas que me interessam, mesmo as pequenas. Pessoas que lutam para levar a própria vida, tentando impor sua maneira de ver o mundo, como em Dorso. UHQ: Você gostaria de escrever algum personagem que não fosse seu?
Aliás, queria falar isso. Eu não acho meu trabalho parecido com uma formação européia, como alguns dizem. O problema é como as pessoas classificam o que não é super-herói. Se não tiver capa e uniforme, é quadrinho europeu. Não é bem assim. Meu trabalho tem muito da HQ americana, mas de Winsor McCay (nota do UHQ: criador do célebre Little Nemo), e outro caras antigos... UHQ: Dos seus trabalhos, qual seu favorito? Quintanilha: Dorso. É uma história feita exatamente do jeito que eu queria, mesmo com o tempo que demorou, com todo o sofrimento. Quando terminei, viajei, na época com minha namorada, para Petrópolis, e dormi um dia inteiro, sem ter tomado nenhum remédio, nem nada. Foi um peso tão grande que coloquei pra fora... o (André) Toral fala que se sente sufocado quando lê; o (Lourenço) Mutarelli diz que é a favorita dele. UHQ: Você gosta de cinema?
UHQ: Você tem agente? Quintanilha: Não, trabalho direto com a editora. UHQ: O que você acha da onda de adaptação de quadrinhos para o cinema? Quintanilha: Sei lá. É bom. Não tenho muita intimidade, minha esposa gosta, mas não estão na minha preferência. Há pouco tempo, vi Quando a Mulher Erra (Indiscretion of an American Wife/ Stazione Termini), de Vittorio De Sica, e achei tão parecido com o Fealdade! Um filme gravado em Roma, tão bom... Gosto muito de histórias passadas no mesmo dia e espaço. UHQ: Você tem algum outro projeto em andamento?
UHQ: Por favor, mande uma mensagem para os leitores. Quintanilha: Queria que entendessem o fato de não assinar mais como Marcello Gaú. Eu imaginava que quadrinhos fossem uma coisa paralela na minha vida, mas quando comecei a publicar e ter visibilidade, isso foi crescendo e eles passaram a ser minha vida. Eu vivo de quadrinhos hoje, e assinar com esse pseudônimo passou a ser incômodo para mim. Espero que os leitores leiam as histórias pelo que elas são, e não por quem as assina. E para aqueles que gostam do meu trabalho, peço que tenham um pouquinho mais de paciência! ![]() |