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Universo HQ entrevista Marcello Quintanilha

Marcello Quintanilha
Marcello Quintanilha
UHQ: E a história da Metal Pesado?

Quintanilha: Ela saiu primeiro na Nervos de Aço, do Patati (nota do UHQ: roteirista de várias HQs e criador do personagem Nonô Jacaré, publicado na extinta Porrada! Special, da Editora Vidente). Foi a única história colorida da revista, sobre um sambista.

Tem outra coisa interessante aí: é o o fato de as pessoas ficarem atentas à presença constante de personagens negros ou mestiços nas minhas histórias. Muita gente fala disso, o que me chama a atenção. Para mim, é óbvio. Vivemos num país de etnias diferentes, mas não para algumas pessoas! Por alguma razão, isso chama a atenção delas, o que me surpreende.


UHQ: Depois do álbum, saiu algum material seu aqui?

Página de Sete Balas para Oxford
Página de Sete Balas para Oxford
Quintanilha: Nada. Fui direto para a Heavy Metal. Mandei umas histórias para eles e gostaram.

UHQ: Esse foi o fator fundamental para abrir as portas na Europa?

Quintanilha: Não. No primeiro FIQ, em Belo Horizonte, encontrei o francês François Boucq, minha última grande influência como desenhista. O trabalho dele me levou a materializar a direção que o meu seguiria, a partir de 1990.

Então, neste encontro, naturalmente declarei toda minha admiração por ele, que ficou muito surpreso. Boucq tinha visto o meu trabalho antes de me conhecer. Foi muito legal. Aí, associou com o que eu tinha feito e mostrou trabalhos meus na Europa.

Jorge Zentner
Jorge Zentner
Foi quando o roteirista argentino Jorge Zentner viu meu trabalho. Depois de um tempo, ele me mandou um e-mail perguntando se eu teria tempo para um projeto. Nesse momento, pintou uma coisa que achei ótima: fazer histórias distantes do Brasil, diferentes do universo que construí. A trama se passava nos Estados Unidos, e comecei a trabalhar.

O conceito de HQ dele é diferente do meu. Eu prefiro tiras; ele, as páginas. Isso vem da minha admiração pelos primórdios dos quadrinhos, dos jornais e tudo mais. Mas, pra seguir o roteiro, tive que moldar meu estilo.

Página de Sete Balas para Oxford
Página de Sete Balas para Oxford
Então, comecei os testes. Apresentamos umas páginas para algumas editoras e, finalmente, assinamos com a Lombard, da Bélgica. O primeiro álbum - serão sete - foi feito todo pela Internet, produzi no Brasil.

Em seguida, decidi me mudar para lá. Trabalhando perto, ficou muito melhor e, naturalmente, é uma oportunidade de conhecer o mercado de lá.

Descobri que existe muita lenda, que não é assim como dizem. As editoras européias também têm seus objetivos comerciais. Há muitos quadrinhos comerciais. Evidente que é diferente dos Estados Unidos, mas tem a mesma estrutura: o mainstream é que sustenta as obras mais artísticas.


UHQ: Então, você mora na Espanha e produz para a França, Bélgica, Suíça, Holanda e Canadá (os países de língua francesa onde circulam os álbuns da Lombard)?

Sept Balles pour Oxford Sete balas para Oxford, de Jorge Zentner e Marcello Quintanilha
Quintanilha: É. Mas o grande desafio foi conseguir me adaptar ao texto do Zentner. Afinal, acho que cheguei num ponto em que consegui dominar minha gramática.

Eu cheguei num ponto em que consigo saber o que vou encontrar quando desenho, porque já desenhei muito. Não acredito em dom. A minha vida foi desenhar, escrever e buscar sempre.

Por isso, o grande desafio foi estruturar as páginas. O Jorge já me passa a diagramação, o que evita a tendência de eu fazer a minha versão. Assim, estou desenhando mais, estruturando melhor meu trabalho e já evoluí em relação ao primeiro álbum. E estou feliz com isso.


UHQ: E qual a chance de Sept Balles pour Oxford (confira o site oficial) sair no Brasil?

Quintanilha: Eu gostaria muito. Precisaria ter uma editora interessada.

UHQ: Você não acha que existem coisas interessantíssimas de nossa realidade que poderiam ser publicadas na Europa? Estórias Gerais, por exemplo? Não é um caminho a ser trilhado?

Página de Três Minutos de Linhas Página de Três Minutos de Linhas
Quintanilha: Acho que sim. Mas no caso das histórias passadas no Brasil, eu preferiria escrever e fazer a arte. Porque, pra mim, são duas coisas juntas. Eu não me considero desenhista. Não gosto de desenhar. Desenho sempre para algo. Nunca desenho se não for trabalho.

Por isso que, na Europa, preferi trabalhar numa história passada nos Estados Unidos.


UHQ: Você faz pesquisa visual?

Quintanilha: Muita. Estou sempre fazendo. Na Espanha é mais fácil encontrar referências.

UHQ: Como é para o Marcello Quintanilha abrir o site do FIQ e encontrar o nome dele como convidado internacional, e não brasileiro?

Quintanilha: Achei estranho, mas tudo bem!

UHQ: É possível que logo seja mais conhecido na Europa do que aqui. Como se sente em relação a isso?

Detalhe da arte de Marcello Quintanilha Detalhe de um original de Marcello Quintanilha, exposto no 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte
Marcello: A satisfação não será a mesma. Gostaria de ter uma regularidade maior de histórias para publicar aqui, queria lançá-las primeiro no Brasil. É um pensamento meio punk, mas...

UHQ: Voltando um pouco, qual era seu personagem favorito?

Quintanilha: O Surfista Prateado. E era do John Buscema! Ele era um solitário...

UHQ: Você transporta muito da sua experiência de vida para os quadrinhos?

Quintanilha: Todas as histórias. Até nessa fase européia, em alguma medida. Os personagens são baseados em pessoas que conheço. O Oxford é meu avô. A neta dele é minha esposa. A mulher dele é minha avó.

Nas HQs que saíram na Heavy Metal, a patroa era minha mãe. São histórias familiares, para a família brasileira (risos)! E o meu pai também é personagem em Dorso.


UHQ: Nós temos uma história rica para contar em quadrinhos, como fizeram, por exemplo, em Adeus, Chamigo Brasileiro. Você pensa em fazer algo ligado à literatura brasileira?

Aventuras no Tempo - Os Primeiros Brasileiros Aventuras no Tempo - Os Primeiros Brasileiros, álbum com participação de Marcello QuintanilhaAventuras no Tempo - A Europa Conquista o Brasil Aventuras no Tempo - A Europa Conquista o Brasil, álbum com participação de Marcello Quintanilha
Marcello: Penso muito em fazer a versão em quadrinhos de A Noite do Almirante. Mas tenho uma admiração tão grande pelo Machado de Assis, que não me sinto capacitado.

Não pensei em trabalhar com nenhum fato específico. Gosto de falar das coisas que me interessam, mesmo as pequenas. Pessoas que lutam para levar a própria vida, tentando impor sua maneira de ver o mundo, como em Dorso.


UHQ: Você gostaria de escrever algum personagem que não fosse seu?

Página de Fealdade de Fabiano Gorila Página de Fealdade de Fabiano Gorila
Quintanilha: Como se me contratassem, tipo, para fazer uma história do Batman? Faria. Mas não é algo que eu realmente gostaria.

Aliás, queria falar isso. Eu não acho meu trabalho parecido com uma formação européia, como alguns dizem.

O problema é como as pessoas classificam o que não é super-herói. Se não tiver capa e uniforme, é quadrinho europeu. Não é bem assim. Meu trabalho tem muito da HQ americana, mas de Winsor McCay (nota do UHQ: criador do célebre Little Nemo), e outro caras antigos...


UHQ: Dos seus trabalhos, qual seu favorito?

Quintanilha: Dorso. É uma história feita exatamente do jeito que eu queria, mesmo com o tempo que demorou, com todo o sofrimento. Quando terminei, viajei, na época com minha namorada, para Petrópolis, e dormi um dia inteiro, sem ter tomado nenhum remédio, nem nada.

Foi um peso tão grande que coloquei pra fora... o (André) Toral fala que se sente sufocado quando lê; o (Lourenço) Mutarelli diz que é a favorita dele.


UHQ: Você gosta de cinema?

Pôster de Boca de Ouro
Pôster do filme Boca de Ouro
Quintanilha: Adoro. Filmes como O Homem que comprou o mundo, Boca de Ouro. Fealdade tem toda essa estética do cinema nacional da década de 1960. O Bandido da Luz Vermelha. Tem o Bye Bye, Brasil... Eu me emociono até hoje quando o assisto.

UHQ: Você tem agente?

Quintanilha: Não, trabalho direto com a editora.

UHQ: O que você acha da onda de adaptação de quadrinhos para o cinema?

Quintanilha: Sei lá. É bom. Não tenho muita intimidade, minha esposa gosta, mas não estão na minha preferência. Há pouco tempo, vi Quando a Mulher Erra (Indiscretion of an American Wife/ Stazione Termini), de Vittorio De Sica, e achei tão parecido com o Fealdade! Um filme gravado em Roma, tão bom... Gosto muito de histórias passadas no mesmo dia e espaço.

UHQ: Você tem algum outro projeto em andamento?

Marcello Quintanilha
Marcello Quintanilha
Quintanilha: Não.

UHQ: Por favor, mande uma mensagem para os leitores.

Quintanilha: Queria que entendessem o fato de não assinar mais como Marcello Gaú. Eu imaginava que quadrinhos fossem uma coisa paralela na minha vida, mas quando comecei a publicar e ter visibilidade, isso foi crescendo e eles passaram a ser minha vida.

Eu vivo de quadrinhos hoje, e assinar com esse pseudônimo passou a ser incômodo para mim. Espero que os leitores leiam as histórias pelo que elas são, e não por quem as assina. E para aqueles que gostam do meu trabalho, peço que tenham um pouquinho mais de paciência!


Autógrafo para Sidney Gusman, de Marcello Quintanilha



 

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