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Universo HQ entrevista Sergio Toppi

UHQ: Além de desenhar, você já escreveu diversas histórias em quadrinhos. Prefere desenhar seus próprios argumentos ou o de outros autores?

Il Calumet di Pietra Rossa
Il Calumet di Pietra Rossa
Toppi: Sem dúvida, prefiro fazer os meus próprios roteiros, mas volta e meia faço de outros roteiristas também. Não tenho problemas com isso.

UHQ: Qual é o melhor roteirista com quem trabalhou?

Toppi: Trabalhei muito bem com Mino Milani, o escritor de Pietro Micca. Outra boa parceria foi com (Gino) D'Antonio, outro roteirista ótimo. Os dois são muito importantes.

UHQ: Para um italiano, como foi desenhar, para a editora francesa Larrousse, alguns capítulos de Histoire de France en bandes dessinées e La Découverte du Monde?

Histoire de France en bandes dessinées
Histoire de France en bandes dessinées
Toppi: Era um trabalho de um certo nível. Além de mim, outros italianos muito bons, como o (Dino) Battaglia e o (Guido) Buzzelli, foram chamados para fazer os desenhos, porque nosso país tinha ótimos artistas.

UHQ: Você trabalhou para diversos países europeus. Qual o melhor mercado para quadrinhos na Europa atualmente?

Toppi: Sem dúvida alguma, é a França. Vários trabalhos meus foram publicados lá, por uma editora chamada Mosquito, que lança muita coisa minha. Acho que é o melhor mercado do mundo atualmente.

Os Estados Unidos também devem ser um bom mercado, mas eu não posso afirmar, porque nunca vou trabalhar pra eles.


L'Uomo Del Messico
L'Uomo Del Messico
UHQ: Gostaria de trabalhar com algum artista em especial?

Toppi: Penso que não. Não gosto dividir o trabalho. Por isso, não pretendo fazer isso.

UHQ: Como você vê a invasão dos mangás na Itália e no mundo? Você gosta desse gênero?

Toppi: Não gosto. Os quadrinhos sempre têm fenômenos que se sucedem. Mas não dá pra dizer que o mangá é passageiro, porque eles estão aí há bastante tempo; e se durarem cem anos, não poderemos dizer que era passageiro. (risos)

Eu não leio, não guardo e não me interesso.


UHQ: O que achou de desenhar um personagens clássico dos quadrinhos italianos como Nick Raider?

Nick Raider #114
Nick Raider #114
Toppi: Foi mais uma experiência que eu tive em minha carreira, porque Bonelli é Bonelli. Eu acho muito importante ter feito esse trabalho, mesmo sabendo que ficaria limitado pelo número de quadrinhos que a editora impõe a cada página. Creio que é uma experiência que, se puder, o artista deve passar.

UHQ: Como você é amigo de Sergio Bonelli, certamente já foi convidado para fazer algum Texone (no Brasil, Tex Gigante). Há alguma chance de vermos um assinado por Sergio Toppi?

Toppi: Fazer um Texone não é brincadeira. É um trabalho muito intenso. São quase 300 páginas. Mas é uma possibilidade...

UHQ: Você ganhou prêmios importantes em sua carreira, como desenhista e ilustrador, como o Yellow Kid (1975), o Caran D'ache (1992) e o A.N.A.F.I. (1992) entre outros. Qual deles possui mais relevância, na sua opinião?

Julia #11
Julia #11
Toppi: Bem, talvez seja o Yellow Kid, porque devo dizer que fui pego de surpresa na época; e, de fato, me deu muito prazer ganhá-lo.

UHQ: Há algum personagem que gostaria de desenhar?

Toppi: Nesse preciso momento, não saberia dizer. Nenhum me vem à cabeça.

UHQ: Como foi trabalhar com Giancarlo Berardi, em Julia # 11?

Toppi: Foi mais ou menos como em Nick Raider, porque é outro título da Bonelli. Você precisa estar sempre dentro de um certo limite, que deve respeitar. O desenhista tem menos liberdade, mas se aceita trabalhar pelo que tratou, tem que aceitar também essas condições.

L'Uomo Delle Paludi
L'Uomo Delle Paludi
UHQ: O que acha dos quadrinhos americanos e dos super-heróis?

Toppi: Eu não sou um grande leitor de fumetti. Por isso, não me interesso por eles.

UHQ: Mas e se lhe convidassem para desenhar algum?

Toppi: Se me convidassem? Não sei, nunca pensei nisso. Mas é um trabalho como outro qualquer.

UHQ: Qual o seu trabalho predileto?

Toppi: O meu trabalho favorito é sempre o próximo que farei.

UHQ: Qual a sua relação com o personagem Martin Mystère? E o CD-Rom de Martin Mystère, I Segreti del Po, do Leonardo Studio?

CD ROM de Martin Mystère
CD-Rom de Martin Mystère, I Segreti del Po
Toppi: Eu fiz uma história para um álbum específico lançado pela Bonelli. Depois, fiz o CD-Rom. Foi só isso. Simplesmente um trabalho.

Nota do UHQ, por Júlio Schneider: a idealização, projeto gráfico e direção artística do CD-Rom (que tem, inclusive, jogos) é de Fabrizio Gallerani, do site italiano UBC Fumetti).


UHQ: Recentemente, saiu na Itália uma edição sobre Vivaldi, na qual você desenhou uma história. Teve que pesquisar muito para fazê-la?

Toppi: Sim, porque era um conto de época e para coisas assim, é necessário realizar uma boa pesquisa. E eu a fiz. Além disso, gosto muito da música dele. Os outros desenhistas do álbum (nota do UHQ: Maurizio Ribichini, Lorenzo Sartori, Giancarlo Alessandrini, Alarico Gattia) também são muito bons.

L'Uomo Del Nilo
L'Uomo Del Nilo
UHQ: Aqui no Brasil, em 1978, saiu O Homem do Nilo (reeditado em 1987), que você fez para a coleção Um Homem, Uma Aventura. Esses álbuns exigem muita pesquisa visual? Você gosta quando precisa fazer algo do tipo?

Toppi: Os trabalhos para a Bonelli sempre exigiam pesquisa. Mas isso é algo quase óbvio, se quiser um produto bom, se quiser fazer a história de forma profissional.

Sempre que sou contratado para executar um trabalho, procuro fazê-lo da melhor forma possível. Meu estilo é fazer muitas investigações e pesquisas; e não apenas confiar no que me dizem sobre esse ou aquele assunto.

Especialmente quando estou trabalhando com outro roteirista, sempre procuro ir atrás de informações, para ver se ele não esqueceu de colocar algo. Faço isso por conta própria, e incluo na história.


UHQ: Como está o mercado de quadrinhos atualmente na Itália? Há realmente uma crise?

La Découverte du Monde
La Découverte du Monde
Toppi: Não estamos mais naquele período entusiasmante. Hoje, está um pouco estacionário, sem contar os títulos Bonelli, que vão bem, eu acho.

Atualmente, não há mais a grande variedade de gêneros de alguns anos atrás.


UHQ: O que esperar para os próximos anos? Pode nos contar sobre algum outro projeto em que esteja trabalhando?

Toppi: Estou fazendo para a França o segundo volume de Mil e Uma Noites. Assim que terminar, começarei outras coisas que devem surgir.

UHQ: Por favor, uma mensagem para os leitores brasileiros.

Toppi: Espero que possam conhecer mais os quadrinhos italianos, e que os leiam bastante, porque assim os vendemos e todos ficamos contentes. (risos) Falo isso porque seria bom os fumetti terem um pouco mais de penetração aqui.

Sergio Toppi em ação
Sergio Toppi em ação
Uma coisa que notei na palestra que ministrei na Fundação Torino (nota do UHQ, por Júlio Schneider: uma instituição cultural situada em Belo Horizonte que também é mantenedora do Instituto Ítalo-Brasileiro, um dos apoiadores do FIQ. Trata-se de uma escola "bicultural", criada nos anos 70 para atender as necessidades dos filhos dos engenheiros italianos que vieram trabalhar na implantação da Fiat, que mantém a entidade), é que as crianças só conheciam a Mônica, um quadrinho clássico brasileiro e um pouco de mangá. O gosto do público não se discute, mas nessa idade, de 13, 14 anos, os alunos já poderiam começar a ler outros materiais, como os da Bonelli, por exemplo.

Sergio Toppi
Sergio Toppi
Em determinado momento, falava da importância dos quadrinhos como ferramenta educacional e mencionei os Bandeirantes. Então, vi que as crianças não sabiam do que eu estava falando. Aí, fiz um desenhinho deles, com os chapéus grandes, e expliquei que se embrenhavam nas florestas etc.

Na Itália, sabemos muito sobre o velho oeste, porque havia uma história em quadrinhos como Tex, que tinha muita pesquisa de roteiro e desenho, e trazia outras coisas interessantes. Nessa aula, vi que as crianças pouco sabiam da história do próprio país.

Por isso, acho que os quadrinhos em seu país devem ser feitos também como instrumento para difundir melhor a cultura do Brasil. É preciso usá-los nesse sentido.


Agradecimento especial ao leitor Luciano Ramos, fã do trabalho de Sergio Toppi, que nos enviou diversas imagens de obras do autor.

Autógrafo de Sergio Toppi para o Universo HQ


 

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