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FIQ: entre vários acertos e alguns erros, o maior evento de quadrinhos do Brasil (Parte 1)

A terceira edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, realizada de 24 a 28 de setembro, levou à capital mineira grandes nomes da HQ mundial e também os melhores artistas brasileiros

Por Sidney Gusman

Foto: Solange de Souza - Vísta aérea da Casa do CondeForam cinco dias de exaltação para quem curte a arte seqüencial. De 24 a 28 de setembro, Belo Horizonte foi palco da terceira edição do FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos, que aconteceu no Centro Cultural Casa do Conde (Rua Januária, 130 - Floresta), numa área de dois mil metros quadrados.

O evento, que tinha entrada franca, foi realizado pela prefeitura local, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, com parcerias da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, dos consulados do Japão, França e Itália, da Embaixada da Espanha e da Fundação Japão. A editora e produtora Casa 21, sediada no Rio de Janeiro, parceira desde a primeira edição, foi a responsável pela curadoria. Além disso, utilizando-se de leis de incentivo à cultura, a Telemar e a Caixa Econômica Federal entraram como patrocinadores.

Foto: Solange de Souza - Fãs curtem até a noiteComo nas edições anteriores, a organização do FIQ tratou de levar a Belo Horizonte um timaço de artistas da nona arte. E o mais prazeroso, especialmente para o público, foi o fato de todos terem sido extremamente acessíveis e atenderem aos fãs sempre com muita cordialidade. Do exterior estavam presentes o inglês David Lloyd (desenhista do clássico V de Vingança, escrito por Alan Moore), o americano Kyle Baker (do atual Homem-Borracha e da minissérie Justiça Ltda., lançada no Brasil em 1990, pela Editora Abril), os italianos Lorenzo Mattotti (de Estigmas, recém-publicado por aqui pela Conrad Editora) e Sérgio Toppi (do álbum O Homem do Nilo, que abriu a coleção - em oito volumes - Um Homem, Uma Aventura, pela inesquecível Ebal), o argentino Jorge Zentner (roteirista de As Aventuras de Dieter Lumpen, série desenhada por Rubén Pellejero que chegou a ter uma edição lançada no Brasil - Inimigos Comuns, a número 23 do selo Graphic Novel, da Editora Abril) e o francês Jacques de Loustal (que publicou em revistas como Métal Hurlant, À Suivre e L'Écho Des Savanes, mas é pouco conhecido pelos nossos leitores).

Cartaz do 3º FIQ, por Mozart CoutoQuanto aos brasileiros, havia representantes dos mais variados estilos. Estiveram no evento Marcello Quintanilha (Fealdade de Fabiano Gorila - Conrad), Lourenço Mutarelli (da trilogia do detetive Diomedes - Devir), Ziraldo (Pererê ), Angeli (Luke & Tantra), André Diniz (editor da Nona Arte), Fábio Moon e Gabriel Bá (Os Dez Pãezinhos), Antônio Eder (O Gralha), Daniel HDR (Dungeon Crawlers), Sam Hart e Kipper (Front), João Marcos (Mendelévio), Sônia Bibe Luyten (professora, estudiosa dos quadrinhos e colunista do UHQ), Fabio Zimbres (Coleção Mini Tonto), Alexandre Nagado (Mangá Tropical), Fábio Yabu (Combo Rangers), Allan Sieber (Deus é Pai), Ota (Mad), Eloar Guazzelli (colaborador das extintas Animal, Kamikaze, Dundum e Mil Perigos), Rui de Oliveira (ilustrador) e outros.

Ilustração original de Mozart Couto exbido na exposição em sua homenagemO homenageado deste ano (em cada edição é reverenciado um grande quadrinhista nacional) foi o mineiro Mozart Couto, assinou o criativo cartaz do evento e mereceu uma belíssima exposição que fez uma retrospectiva de suas obras, de 1979 até os dias atuais, nos mais variados estilos, publicadas tanto nas páginas de revistas brasileiras de editoras como Opera Graphica, Escala, D'arte, Ondas, Press Editorial, Vecchi e Grafipar, como nas estrangeiras Marvel, DC Comics e Dark Horse; sem contar diversos álbuns lançados na Europa, em países como França, Alemanha e Bélgica.

No entanto, quem achou que, finalmente, conheceria o autor pessoalmente, "caiu do cavalo". Confirmando sua fama de não gostar de aparecer em público, ele acabou não participando (fisicamente) do FIQ.

Apesar de os convidados internacionais serem de altíssimo nível, entre os fãs vindos dos pontos mais distantes do Brasil (como alguns bem-humorados membros do fórum Multiverso Bate-Boc@) todos concordaram que faltou alguém ligado a um gênero mais popular, como super-heróis ou mangá. Se isso ocorresse, certamente, atrairia um público maior, que também acabaria por conhecer os trabalhos dos outros artistas, criando um interessante "intercâmbio de estilos".

Exposições, workshops e outras atrações

Público visita as exposições do FIQPara tornar o evento mais atrativo, a organização do FIQ colocou à disposição do público uma série de atrações, como exposições, workshops, oficinas e até uma peça de teatro intitulada Escola de Heróis, que foi criada pelos alunos do curso de Artes Cênicas da UFMG, e em quase todas as sessões teve "casa cheia" na tenda central (uma estrutura muito semelhante à de um circo) da Casa do Conde.

Para quem é fã de quadrinhos, claro, as exposições, espalhadas por uma área de 250 m², mereceram uma atenção especial. Apesar da falha da organização, que deixou algumas obras sem identificação, o que chateou muitos leitores, não era raro encontrar pessoas com o rosto quase colado ao vidro que protegia as obras, para tentar conferir o mais de perto possível os detalhes de cada original.

Além da já mencionada mostra de Mozart Couto, confira abaixo quais foram as principais mostras do evento.

Sergio Toppi na exposicao Páginas BonelliProdução Italiana - Era impossível não atentar ao detalhismo que Sergio Toppi dedica a cada cena de suas páginas. E o mais incrível: aos 71 anos, ele continua trabalhando do mesmo modo.

A versatilidade de Lorenzo Mattotti também pôde ser apreciada, tanto em seus quadrinhos (que, a princípio, parecem uma sucessão de traços para todas as direções, mas possuem uma narrativa precisa) quanto em seus trabalhos na área de moda e ilustração.

Esta mostra apresentou ainda obras do pouco conhecido Stephano Ricci.

David Lloyd - Para quem viveu o boom de quadrinhos do início da década de 1990, no Brasil, era fácil se emocionar em frente aos originais de V de Vingança, que o artista Inglês realizou, em parceria com o escritor Alan Moore. Ainda foi possível apreciar outras de suas obras, como Night Raven, um super-herói que fez para a Marvel UK, Chaplin e Chandler.

Foto: Solange de Souza - Marcello Quintanilha e sua obraOxford - A Promessa - Esta exposição do desenhista carioca Marcello Quintanilha (antes conhecido como Gaú, seu apelido) atestava a impressionante evolução desse talentoso quadrinhista, que, atualmente mora em Barcelona, na Espanha, onde está produzindo a série Sete Balas para Oxford, escrita por Jorge Zentner.

Havia vários originais de A Promessa, o primeiro álbum da série, que já foi lançado na França, Suíça e Bélgica, pela coleção Polyptyque, da Dargaud-Lombard.

Consecuencias - Historieta Brasileña - Mostra de artistas brasileiros que foi organizada pelo INJUVE - Instituto de la Juventud, órgão ligado ao Ministério do Trabalho e Assuntos Sociais da Espanha. A exposição virou um livro e foi reunida pelo quadrinhista paulista Kipper, com a participação de 37 autores dos mais diferentes pontos do Brasil.

Exposição VertigoVertigo 10 Anos - Exposição de algumas capas e páginas do selo mais prestigiado da DC Comics, com artistas das mais diversas partes do mundo. Esperava-se um pouco mais desta mostra, que estava pequena.

Mostra Cidades - Eloar Guazzelli - Num extenso corredor do prédio destinado às exposições, os presentes ficavam boquiabertos quando se viam entre duas paredes cobertas com várias folhas de papel, formato A4, com uma cidade imaginária que se estendia a cada nova página. Trata-se de um trabalho que Eloar Guazzelli desenvolve há mais de dez anos.

Sua cidade está eternamente em construção, e no FIQ seus desenhos ocupavam mais 16 metros de exposição. Um trabalho de maluco, diriam alguns, mas, sem dúvida, belíssimo.

Allan Sieber, o proibidoO Último dos Românticos - Allan Sieber - Esta exposição de cartuns inéditos do polêmico Sieber deu o que falar. Como tinha desenhos pra lá de despudorados, sempre havia um segurança na porta, para impedir que menores de 16 anos (mesmo acompanhados pelos pais ou responsáveis) visitassem o local, pois os "originais continham cenas com desenhos explícitos dos órgãos reprodutores masculino e feminino".

Eram cerca de trinta artes em nanquim, aquarela e guache, retratando o amor na visão distorcida e bem-humorada do autor, que, claro, adorou a pequena confusão e até posou para uma foto à porta da mostra, com Sonia Luyten e Arthur Dantas (editor-assistente da Conrad) "presos" dentro da sala.

Front - Exposição coletiva com vários originais da revista paulista Front, editada pela Via Lettera. Havia páginas de Samuel Casal, Kipper, Fernando Mena, Sam Hart, Marcelo D'Salete e outros.

França - Mostra com 30 obras do artista francês Jacques de Loustal, para os vários veículos em que publicou.

Mangá Tropical - Originais dos trabalhos publicados no álbum homônimo, pela Via Lettera. Havia páginas de artistas como Erica Awano, Fábio Yabu, Daniel HDR e Alexandre Nagado.

Foto: Solange de Souza - Exposição Desenhos nunca vistos...Desenhos nunca vistos... - Mostra coletiva de artistas ligados aos núcleos gráficos do Sul do País, além de países como Argentina, Uruguai e França. Estava dividida em três núcleos: Livros e Publicações, Desenhos e Pinturas e Animações e Vídeos.

Dreamland - Uma pequena viagem pelo mangá e animê - Exposição cedida pela Fundação Japão, que pretendia traçar um histórico das principais obras em quadrinhos japoneses (mangás) e a animação japonesa. No entanto, a quantidade foi tão pequena, que pouco atraiu os presentes.

Ilustração da exposição  Quem gosta de BH tem seu jeito de mostrarQuem gosta de BH tem seu jeito de mostrar - Esta mostra pretendia selecionar até 30 autores mineiros, abordando o tema institucional da campanha de valorização da cidade. O problema é que alguns quadrinhistas locais boicotaram o evento (mais detalhes no final da matéria) e a exposição ficou bastante diminuída. Cada artista deveria produzir uma HQ de duas a três páginas sobre a cidade de Belo Horizonte.

O Imáginário Gráfico - Mostra do artista Ruy de Oliveira, com originais de ilustrações, capas de livros, animações e outros trabalhos gráficos.

Outros destaques do festival foram os workshops e oficinas com artistas nacionais e estrangeiros. O gaúcho Daniel HDR ministrou Ilustração em Quadrinhos (mangá, comics e cartuns); Antônio Eder, a Oficina de Histórias em Quadrinhos (função, técnica e finalidade); Jorge Zentner contou Como Nascem os Quadrinhos (oficina de roteiros); e João Marcos deu seu recado em Desenhos para crianças.

Palestra com Patati, Paulo Barboza, Angeli, Ota, Allan Sieber e Fabio ZimbresUm detalhe muito interessante ocorreu no workshop de Zentner. Um de seus "alunos" foi Lourenço Mutarelli, que saiu satisfeitíssimo. Uma prova da humildade desse talentoso artista brasileiro, que, apesar de viver uma grande fase, acha que ainda há muito a aprender; e está sempre buscando isso

As palestras abordaram uma gama variada de temas. O humor nos quadrinhos brasileiros, como produzir HQs de maneira cooperada, discussões sobre os mercados de trabalho nos Estados Unidos e na Europa, quadrinhos e internet, mangás, a presença da pesquisa na arte seqüencial e outros.

Palestra com Kyle Baker (à esquerda) e David Lloyd (à direita)Um momento hilário ocorreu durante uma mesa da qual participavam David Lloyd, Kyle Baker, Jorge Zentner e Marcello Quintanilha. Quando foram abertas as perguntas ao público, veio a inevitável "chuva" de questões sobre o método de trabalho de Alan Moore.

Lloyd explicou que, na época de V de Vingança, por estar em início de carreira, Moore não detalhava tanto seu roteiro, como, reza a lenda, ele faz hoje.

Então, Baker pediu a palavra para contar como foi a sua única experiência com o roteirista britânico. "Eu tinha que desenhar uma história de seis páginas, e o roteiro de Alan Moore tinha 24!", relatou, fazendo uma engraçada cara de surpresa. A reação da platéia, evidente, foi uma sonora gargalhada.

Foto: Solange de Souza - Exibição do documentário Ziraldo em Profissão CartunistaFinalmente, no dia 26 de setembro, houve uma sessão especial de Ziraldo em Profissão Cartunista, o documentário dirigido por Marisa Furtado de Oliveira e produzido pela Scriptorium, em co-produção com a STV - Rede Sesc Senac de Televisão.

Nesse dia, a sala estava completamente lotada e, nas primeiras fileiras, Ziraldo apreciou novamente o filme que transpõe para a tela as grandes histórias de sua vitoriosa carreira.





 

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