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A Coréia e os manhwa: os quadrinhos do país da manhã serena
Por Sonia M. Bibe Luyten (18/06/2003)
Estive por duas vezes na Coréia e dá para perceber sua riqueza, pujança, história e o lugar especial que ocupa no mundo. Especialmente, quanto à sua longa luta pela independência política e pela manutenção de sua cultura milenar. Apesar de seu nome, na língua local, querer dizer país da manhã serena, durante os três últimos mil anos nada foi tranqüilo, pois teve que se resguardar contra o poderoso e avassalador Império Chinês. Mesmo assim, foi através da Coréia que fluíram todas as influências culturais que iriam criar a cultura japonesa, a partir do século VII da era cristã.
Mas é preciso lembrar que foi na Coréia que tivemos os primeiros exemplos de impressão tipográfica, já a partir do século VIII. E, no século X de nossa era, tivemos o primeiro exemplo de arte seqüencial, com o Bomyeongshiudo, uma história na qual uma vaca explica um cânon budista sob forma de junção de imagens e texto, exatamente como ainda se faz hoje em dia nas nossas HQs. A formação e a consolidação da linguagem dos quadrinhos coreanos
O primeiro caricaturista coreano, Lee Do-yeong, foi o pioneiro, com seus desenhos publicados sob o título Saphwa, no jornal Daehanminbo, em 1909. No ano seguinte, esta publicação foi fechada por ordem do governo colonial japonês e, com isso, interrompeu as edições legitimamente coreanas até o final da Guerra do Pacífico, em 1945. Depois desse fato houve, então, uma verdadeira explosão de quadrinhos, tanto em jornais como em revistas coreanas, mas elas primavam pela recusa de modelos japoneses e, logo a seguir, pela procura de autonomia (especialmente, na Coréia do Sul - a que nos vamos referir daqui por diante) da forte influência norte-americana.
Por um lado, há o fascínio da imensa produção japonesa, ladeada pelos quadrinhos americanos; e por outro, uma tentativa desesperada de implantar valores e heróis próprios. Uma das primeiras tentativas bem sucedidas foi o Soldado Todori, de Kim Yong-hwan, que surgiu como o "pai" das HQs coreanas. Publicada em 1952, narrava a coragem dos soldados do Sul. O sucesso foi estrondoso e deu lugar a uma série de publicações tipo fanzine, chamadas takji manhwa, de pouca qualidade gráfica, mas que, entre os anos 1953-54, consolidaram a produção de HQs coreanas.
Após a guerra, foram publicadas algumas histórias populares, e a mais célebre foi Arirang, na qual se destacaram os desenhistas Kim Yong-hwan, (o autor do Soldado Todori), Shin Dong-u, Kim Kyeong-eon, Park Ki-Jeong, entre outros. O gênero dominante foi o myeongrang manhwa, ou seja, as histórias em quadrinhos humorísticas para adultos. Desta forma, os quadrinhos coreanos no final dos anos 1950 se diversificaram e desenvolveram-se rapidamente. Outros autores de destaque foram Park Ki-dang e Shin Dong-u, que introduziram personagens em temas de ficção científica, aventura e narrativas históricas. Entretenimento para as massas
Pode-se definir este conceito como uma espécie de biblioteca particular, na qual as pessoas alugam revistas de quadrinhos no lugar onde lêem. Há milhares destes lugares espalhados por toda a Coréia. E aquilo que começou em época de vacas magras como uma forma de se poder ler quadrinhos por um preço menor, continua ainda hoje, apesar dos tempos de bonança. Mensalmente, são publicadas centenas de títulos em papel de baixa qualidade, exclusivamente para o sistema de manhwabang - quadrinhos de aluguel.
A série Gondol, de Park Su-dong, levou um grande público para o jornal Sunday Seoul, e o sucesso deveu-se ao teor do humor satírico e das relações homem-mulher. Nos anos 70, Kang Cheol destacou-se entre os desenhistas famosos pela história Sarangeu nakseo (O calor do amor, em português), cujo enredo trazia à tona os problemas da juventude e tornou-se um repertório para a cultura da geração jeans. Nesta época, também se desenvolveram os quadrinhos para crianças, cujos principais expoentes foram Kil Chang-deok, com a história Keobeongi lutjip Dolne (Meu vizinho Dol), Yun Seun-hun, com Dunshimi Pyeoryugi (O naufrágio de Dunshimi), entre muitos outros. O Renascimento dos quadrinhos coreanos - os anos 1980
Os desenhistas que mais se destacaram na época foram Lee Hyeon-se, Park Bong-seong e Go-Haeng-seok. O herói da história do período, de autoria de Lee Hyeon-se, era um jovem que vem de família pobre, que se tornou um grande jogador de beisebol e venceu os japoneses. Para completar - ou complicar - a história, gosta de uma moça de família rica. O importante é que foi um marco para o estabelecimento dos quadrinhos adultos no país. Outro ponto forte foi a publicação de Bumulseom (A ilha do tesouro). Criada em 1982 e constituída pelos grandes nomes de sua geração, foi um sucesso de público. Foi a primeira revista mensal devotada inteiramente aos manhwa. Nas décadas subseqüentes, as editoras coreanas passaram a utilizar o sistema japonês de segmentação de mercado, com revistas semanais baseadas em idades, tanto para rapazes como moças. O mercado explodiu, com tiragens de centenas de milhares de cópias. A era digital - Quadrinhos em telefones celulares!
Esta retração se deveu a dois fatores: boa parte da produção japonesa entrou na Coréia, seja por vias oficiais ou por pirataria, diminuindo a chance dos artistas locais. Segundo, aquilo que os autores coreanos faziam antes da segmentação do mercado não mais teve lugar no novo sistema. O quadrinho tradicional explicava o texto pelo desenho e vice-versa. Nesta nova era, com publicações semanais, os autores ficaram privados da liberdade de compor a história ou as páginas do jeito que quisessem. A indústria dos manhwa sofreu um baque, mas o advento da internet transferiu o mercado e a criação dos quadrinhos para as telas dos computadores. As HQs rapidamente se adaptaram ao novo meio, e o desenhista Kwon Yoon-joo foi apontado como um dos pioneiros neste sentido, com o site Snowcat .
O país tem a maior índice de equipamento em celulares e está entre os mais desenvolvidos do mundo. Os serviços de telefones celulares têm telecarregamento para quadrinhos, beneficiando assim as novas tecnologias e estimulando o mercado de trabalho dos desenhistas. Produção expansão e pesquisa nas universidades e museus de manhwa Tendo um vista o tamanho da Coréia do Sul e sua população, pode-se considerar a tiragem e o consumo das HQs enorme. No ano de 2001, foram publicados 9.177 títulos, com 42 milhões de exemplares vendidos, num país de 42 milhões de habitantes.
A metade dos quadrinhos é de cunho educativo e revistas. O mercado de HQs monta a 60 milhões de dólares para um total de 430 milhões de produtos gráficos em geral. O mercado digital (produtos online) é de 14 milhões de dólares.
A Coréia possui também um Museu de Quadrinhos: Chungkang, ligado ao Chugkang College of Cultural Industries, uma instituição no campo de artes e criação, aberto em 2002 com exposições permanentes baseadas em três temas: Quadrinhos Caricatura, Quadrinhos e Movimento e Quadrinhos e Emoção. Estes são os exemplos da dinamicidade de uma nação que valoriza, acredita, investe e cria novos mercados para as HQs fazendo sempre acontecer, a cada dia que nasce, mais novidades dos manhwa no país da manhã serena.
Sonia M. Bibe Luyten é a autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos - leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Sua coleção, com revistas de países do mundo inteiro, é de deixar qualquer um maluco. Mas o melhor, mesmo, é que, mensalmente, ela vai estar passando um pouco desse seu conhecimento pros leitores do Universo HQ.
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