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Recriando
O
já citado caso do pato Peninha, reformulado e elevado ao patamar de astro
no Brasil (com direito a ser título de revista), não é um fato isolado,
mas é o mais proeminente. "Devido ao sucesso, achamos conveniente aproveitar
o personagem em outros papéis. Assim, nasceram Pena das Selvas, Pena Kid,
Pen Hur e por aí vai...", frisa Primaggio Mantovi.
Muitos outros insossos personagens - que não foram criados por aqui -
tiveram um sopro de vida e passaram à frente do placar ao simples toque
de genialidade dos artistas nacionais, com histórias recheadas do velho,
bom e escrachado humor brasileiro.
Em 1986, a patinha Margarida ganhou não só uma revista própria (o que
já se configurava uma ousadia editorial na época), mas teve sua personalidade
e o visual adaptados aos novos tempos. A mudança não foi do agrado da
Disney americana, mas mesmo assim vingou. O gibi, de periodicidade
quinzenal, teve mais de 200 edições lançadas.
Urtigão, o caipira inimigo número 1 de Donald e Peninha (a recíproca é
verdadeira, diga-se de passagem), também teve seu próprio título quinzenal,
em 1987. O velho rabugento quase foi levado para o altar, quando a empregada
Firmina (cuja concepção gráfica se deve a Euclides Miyaura) tentou desposá-lo.
Foram 169 edições que deixaram saudades.
A
roqueira Pata Lee, criação italiana, era uma desconhecida quando, em meados
dos anos de 1980, passou a protagonizar divertidas aventuras nas quais
liderava sua turma de adolescentes, composta de personagens criados por
aqui (Netúnia, Parceiro e Olímpia) e um outro reformulado. "Folião (o
Aracuã, astro coadjuvante do filme Você já foi à Bahia?) recuperou
o nome dado a ele na revista Disneylândia e passou a fazer parte
da turma, explorando histórias nonsense até então inéditas em se
tratando de Disney", conta Primaggio.
O sucesso de Folião foi imediato, e o pássaro abobalhado chegou até mesmo
a ganhar várias histórias-solo.
Aventuras seriadas
Por obra desses grandes artistas, os leitores brasileiros tiveram a oportunidade
de apreciar divertidas séries e sagas que marcaram época, algumas até
alcançando sucesso fora de nosso país.
Já em 1979, Julio Andrade Filho escreveu a primeira história da inusitada
e genial Patrulha Estelar, de sua autoria, na qual Mickey e Pateta encarnavam
uma versão futurista numa espécie de polícia interplanetária. Ficção científica
humorística, para usarmos um termo próprio. A série prosseguiu até meados
da década de 1980, com textos de Gerson B. Teixeira, abrilhantando as
páginas da revista do camundongo.
No
início dos anos 90, veio Urtigão in Rio, que durante oito números
da revista do personagem o levou a uma deliciosa viagem pela Cidade Maravilhosa,
ao lado de Zé Carioca. Um riponga na cidade grande, acompanhado de um
malandro da mais alta categoria, rendeu impagáveis situações cômicas.
Urtigão na Amazônia, também em oito edições do título quinzenal
do caipira, foi outra saga que emprestou ao personagem, definitivamente,
o ar de "brasilidade".
Mas existem duas outras que repercutiram com mais força. A primeira delas,
concebida por Ivan Saidenberg, foi Metralhas através da História,
com o Vovô Metralha contando as aventuras dos ancestrais da quadrilha
em Roma, Creta, Babilônia, China e Japão dos tempos antigos. Nessas histórias,
destacava-se o Metralha Azarado e suas hilárias desventuras.
A outra, também de Saidenberg, foi A História de Patópolis, que
não deixou nada a dever às grandes epopéias produzidas na Disney
italiana, mestra no estilo. A série correu o mundo e tornou-se famosa.
As cinco partes originais, acrescidas anos depois em mais duas, contaram
tudo sobre a terra dos patos, do "descobrimento" aos dias atuais.
"Escrevi um episódio, ainda inédito, Os Casacas Vermelhas, no qual
Cornélio Patus criava Patópolis, e Pena Revere avisava que os soldados
coloniais estavam chegando. A Abril queria dizer que a cidade ficava
no Brasil", afirma o autor.
Dificuldades
Os
problemas e as queixas sempre existiram para os autores Disney
tupiniquins. À parte da satisfação crescente dos leitores e da qualidade
sempre em alta da produção, havia alguns incômodos.
"Sei que algumas das minhas histórias foram publicadas na Itália, mas
nunca recebi royalties", garante Verde. "Por razões contratuais,
tudo que era criado e produzido na Abril era de propriedade da
editora e da Disney", completa Euclides Miyaura.
"A Abril exportava muitas histórias, e não recebíamos um tostão
por isso, éramos obrigados a ceder direitos autorais", vaticina Ivan Saidenberg.
E com ele houve mais dissabores: "Fui demitido em 1984, ia fazer dez anos
como funcionário registrado, fora outros quatro que trabalhei sem registro.
Foi uma grande injustiça, entrei com um processo trabalhista, mas não
consegui provar nada e perdi a ação", conclui, salientando que, anos depois,
reconciliou-se com a editora e chegou a fazer mais alguns serviços.
"Ainda tenho as segundas vias do documento Cessão de Direitos Autorais.
Isso garante a prova da autoria em várias histórias, uma das poucas compensações
que se tem nesse ramo", afirma o roteirista Oscar Kern.
Mas
há quem tenha absorvido essas questões de forma diferente. "Quanto aos
outros países publicarem histórias minhas e eu não receber nada pelo trabalho,
isso nunca me incomodou, talvez por estar em início de carreira. Queria
mais é que lançassem todas mesmo! Não que eu ache que royalties
não devam ser pagos. Mas, na época, entre uma coisa e outra, era mais
interessante ver o material saindo no exterior com os devidos créditos.
Uma das idéias da produção do ano 2000 era fazer aventuras para exportação,
e ainda acho que poucos países quiseram arriscar. Portugal fez isso. Devem
ter saído todas por lá, e o que é melhor, com créditos", diz Fernando
Ventura.
Quanto ao fato de, atualmente, as HQs Disney no Brasil apresentarem
o crédito dos autores nas histórias, Gerson B. Teixeira vai direto ao
ponto. "Acredito que eles devem ter se cercado de garantias para que os
artistas não reivindiquem direitos autorais. Pelo que sempre ouvi na Abril,
este era o motivo de não colocarem nossos nomes".
Havia outro problema que vinha se formando, atingiu "massa crítica" e
não poupou ninguém: o arrefecimento do mercado de quadrinhos, ocasionando
baixa vendagem dos gibis. O resultado não poderia ser outro: "Saí junto
com 90% do pessoal da Redação Disney, em setembro de 1997, quando
a Abril resolveu parar com a produção nacional. Não por nossa culpa,
mas por falta de mercado, como bem disse o Primaggio na época", afirma
Arthur Faria Jr.
"Tudo parou em 2001, por falta de investimento da parte da Abril,
acho eu. Decidiram cortar custos. Então, foi tudo parando, roteiros, desenhos...",
completa Fernando Ventura.
Era
uma situação, certamente, jamais esperada pelos artistas no auge da produção
dessas HQs, no começo dos anos 80, quando, juntos, os títulos Disney
chegavam a vender em média oito milhões de exemplares por mês -
segundo informações divulgadas pela Abril na época.
Hoje ainda é possível encontrar ocasionais republicações de uma ou outra
aventura desses tempos maravilhosos, em que os quadrinhos Disney
dividiam a preferência de leitores de todos os gêneros da nona arte. Mas
só fica nisso.
Agora, só resta agradecer a todos os até aqui citados, e mais aos desenhistas
Paulo Borges, Gustavo Machado, Luiz Podavin, Aparecido Norberto, Dave
Santana, Carlos Mota, Napoleão Figueiredo, Antônio de Lima, Paulo Noely,
Aluir Amâncio, Rogério Soud, Roberto Fukue, Irineu Soares Rodrigues, Verci
de Mello, Átila de Carvalho, Moacir Rodrigues, Carlos Edgar Herrero, Inácio
Justo, Fernando Bonini, Nelson Pereira, Rodrigo Pereira, João Anselmo,
José Wilson Magalhães; e os roteiristas Marcelo Aragão, Genival de Souza,
Lúcia Nóbrega, Paulo Mineiro, Orlando Paes Filho, Rosana Rios, Luis Aguiar,
Markus Corrêa, Denise Ortega e muitos outros quadrinhistas, por todo esse
fantástico trabalho que dispensa palavras - pela simples inexistência
de uma que o defina de forma justa.
Marcus Ramone é tão fã de Disney, que sua relação
com sua coleção de revistas é mais ou menos a mesma
da do Tio Patinhas com a moedinha número um.
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