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![]() O homem que recriou o Tio Patinhas Alguns dias antes do início do Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, do qual foi o principal convidado, o quadrinhista Keno Don Rosa já estava em Recife, falando sobre sua carreira
Por Marcus Ramone e Sidney Gusman
De roupa trocada, Don Rosa abriu um largo sorriso ao recepcionar o Universo HQ para uma entrevista exclusiva. Muito alegre e brincalhão, fez piadas com o formatinho das revistas Disney do Brasil (chegou a encostar uma nos olhos, fingindo não conseguir enxergar os quadrinhos, de tão pequenos), e, diante de um lampejo de tietagem do entrevistador Marcus Ramone, que disse "não estar acreditando que estava conversando com o grande Don Rosa", respondeu: "Sinto muito, mas meu nome é Clint Eastwood".
Mas isso não tira o brilho deste que é o maior mestre dos quadrinhos Disney na atualidade, um artista tarimbado, que ainda se permite ficar ruborizado diante de elogios a seus trabalhos, a ponto de mostrar-se visivelmente encabulado. E foi exatamente esta sua reação ao ver a belíssima exposição que a organização do evento fez não só da Saga do Tio Patinhas, mas também de seus trabalhos anteriores, como o Capitão Kentucky, um super-herói humorístico, que foi publicado em jornais nos anos 70. Universo HQ: Primeiramente, qual seu nome completo, idade, onde nasceu e onde mora atualmente? Don Rosa: O nome do meu avô era Joaquino, de onde pegaram "Keno" para mim. Meu pai se chamava Bante, mas eles mudaram para "Dante", para que fizesse sentido para os americanos. O seu outro nome era Hugo, que trocaram para "Hugho", pela mesma razão. Então, me chamo Keno Don Hugho Rosa. Nasci em Louisville/Kentucky - onde trabalho e vivo - em 1951. Que eu me lembre. UHQ: Com quantos anos o senhor começou a trabalhar com quadrinhos? Don Rosa: Quando comecei a ver desenhos animados, ou a ler revista em quadrinhos. Minha irmã, que era 11 anos mais velha que eu, era uma leitora assídua de gibis, então, desde o momento em que vim ao mundo, via a casa cheia de HQs por toda parte. Eu vivia com um lápis na mão fazendo desenhos. O engraçado é que, diferente da maioria das crianças, eu nunca desenhava apenas figuras. Pegava papel timbrado do escritório do meu pai e fazia histórias. Comecei isso como hobby, jamais pensei que seria meu ganha-pão, pois achava que iria assumir a direção da construtora da família.
Don Rosa: Eu não escolhi, simplesmente dei de cara com este ramo. Sou engenheiro civil formado, e tomava conta da direção da construtora da minha família. Isso foi até 1987. Um dia, uma pequena produtora dos Estados Unidos conseguiu os direitos autorais para fazer historias em quadrinhos dos desenhos Disney, pois simplesmente ninguém queria isso, já que gibis não davam dinheiro. Esta empresa, com seus três ou quatro funcionários, todos marinheiros de primeira viagem, começou, pela primeira vez, a desenhar quadrinhos e a colocar o nome dos autores, desenhistas e artistas responsáveis pelo trabalho, como forma de respeito. Havia desenhos de todo tipo, feitos tanto para iniciantes como para colecionadores, o que é realmente fácil de se fazer, pois muitos artistas gostam bastante de fazer esta distinção. Daí em diante, quando vi os títulos nas bancas, sabia que era minha chance de fazer aquilo que sempre sonhei desde criança. Eu já tinha, na verdade, escrito histórias para o jornal da minha escola, para revistas, e até ajudei em outras histórias em quadrinhos, mas queria criar a minha própria, com meus próprios personagens. Foi aí que fiz uma história para uma pequena empresa em Arizona, chamada Gladstone Publishing, que foi muito bem recebida, mas achei que iria parar por aí. Só que eles queriam que eu voltasse e fizesse mais, mas não tinha tempo, pois já não era mais criança e tinha até abandonado meu hobby. Concorri a um prêmio de melhor história cômica do ano. E foi a primeira que trabalhei na área! Fiz outros desenhos, e achava que conseguiria ganhar um terço do dinheiro que ganhava na construtora, só que seria mais interessante, não tinha a certeza de ser a coisa correta a fazer.
Parei por um ano por motivos de força maior, até que escutei que meu trabalho tinha sido mencionado na Europa. Eu achava que as coisas que não acontecem nos Estados Unidos não aconteciam em nenhum outro lugar do mundo! Pensava que poderia ser uma das milhares de pessoas que ganhavam a vida com isso, mas até hoje ainda não consegui entender por que gostaram tanto do meu desenho dentre tantos que eram bem mais profissionais. Acho que um dos motivos é que meu trabalho é muito rico em detalhes, você olha e vê tudo tão cheio de coisas, enquanto outras histórias não são assim. UHQ: Quais são seus ídolos? Atualmente, o senhor acompanha algum artista em especial? Don Rosa: Meus ídolos são de 30 ou 40 anos atrás. UHQ: Quando o senhor decidiu que queria fazer quadrinhos Disney? Don Rosa: Como eu disse antes, nunca tive a intenção de entrar neste ramo. Esse trabalho, na verdade, é um pouco frustrante, pois quando deixa de fazer um título, você afeta o mundo, o fere porque tantas pessoas no planeta inteiro amam aqueles personagens. Cá pra nós, ganhar todas essas viagens para a Europa e agora para a América do Sul é uma experiência maravilhosa. Às vezes, encontro mil e um motivos para parar de desenhar, mas também acho outros que dizem que devo ficar, pois acho que viver é afetar a vida das pessoas positivamente.
Don Rosa: Não, só me interesso em trabalhar com os desenhos de Carl Barks (eu não me vejo fazendo desenhos para a Disney, mas sim para Barks). Consigo desenhar bem os que gosto, mas não estou interessado em trabalhar com outros tipos de arte no momento. Quando as pessoas retratam o Tio Patinhas, elas foram treinadas, o caracterizam em vários ângulos, tipos, formas. Mas quando eu o desenho, é só isso: é o melhor que posso fazer, pois não tive o mesmo treinamento. Muitas pessoas sugerem que eu crie meus próprios personagens, mas, em primeiro lugar, acho que eles não fariam sucesso, pois estes - da Família Pato - são os que me fazem chegar mais próximos de um ser humano. Apenas modifico algumas características, e é isso aí. Meu trabalho é uma fonte segura, e sair por aí criando meus personagens pode não ser uma boa idéia, no fim das contas. Se não cresci com o personagem, não tenho como me identificar com ele. UHQ: Como é a responsabilidade de ser chamado de "o sucessor de Carl Barks"? O senhor é o novo Homem dos Patos?
Na verdade, não estou criando tudo exatamente do modo como Barks estava. Minhas histórias se baseiam nas dele com seus fundamentos, mas também contêm outras coisas, como idéias que vejo em filmes ou até de outras pessoas, tais como minha irmã. Não estou tentando ser uma réplica de Carl Barks, e espero não fazer papel de bobo no fim das contas. UHQ: Por falar nisso, quem o senhor apontaria como "o substituto de Don Rosa"? Don Rosa: Acho que ele nasceu nesta época! Carl Barks nasceu em 1901, e eu, exatamente 50 anos após ele! Então, quando nasci, ele tinha 50 anos. Assim sendo, meu sucessor deve ter dois anos de idade agora. Eu jamais aconselharia alguém a fazer o que faço, não que queira ser o único, mas é que acho que há maneiras mais fáceis de se fazer dinheiro do que vender revistas em quadrinhos por toda a América. |