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Don Rosa: É verdade, há fanáticos que levam tudo muito a sério, e há outros que me odeiam por causa dos outros fanáticos! Mas acho que os dois estão errados, pois é só uma história em quadrinhos. Há gente que quer levar tudo muito a sério e sempre explico que é apenas minha versão, a minha visão de tudo, e que não deve ser entendida como a verdade absoluta. Mas há pessoas que gostam tanto, que acabam querendo que ela se torne isso. Quero que as pessoas gostem, e não importa quantas delas gostem ou não. Se for um sucesso ou um fracasso, ainda ganho a mesma quantidade de dinheiro. Então, não tenho nenhum problema em dizer aos leitores para relaxarem e não levarem tudo tão a sério. Às vezes, nem eu gosto do que desenho. Deveria, na verdade, pagar outra pessoa para fazer isso para mim, para ver se eu gosto mais do que quando produzo.
Don Rosa: Dumbella... Não gosto deste nome para uma personagem... Acho que este foi o nome que Disney inventou para o desenho. Se você olhar direito, Dumbella não é uma palavra bonita. Na verdade, é um insulto, é nada inteligente. Mas é só minha opinião. Bem, primeiramente Huguinho, Zezinho e Luisinho surgiram num jornal, só aparecendo depois num desenho animado de Walt Disney; e Dumbella estreou com o nome de Della, o que eu particularmente acho mais bonito. Na minha versão, ela se chamaria Della e o seu irmão, Pato Donald, a chamaria de Dumbella para tirar onda (nota do UHQ: Dumb, em inglês, significa bobo, tolo, burro). Mas o que aconteceu na Saga do Tio Patinhas com Huguinho, Zezinho e Luisinho foi que eu queria explicar onde os pais dos três sobrinhos estavam, ou seja, mortos. Não teria sentido eles descobrirem isso em alguma futura aventura, pois não seria engraçado, mas sim deprimente. Então, há histórias que não se pode concluir, pois simplesmente não dá para explicar certos fatos que aconteceram antes dos personagens serem criados. Não dá! Concluindo: não há porque escrever uma história sem um fim feliz. UHQ: Na sua opinião, o fato de ter que desenhar sempre seguindo um modelo pré-estabelecido limita a criatividade dos artistas? Don Rosa: Na verdade, não acho que sigo algum modelo de perto. Minha maior preocupação é sempre a história em si. Então, é nisso que me detenho.
Don Rosa: Eu gostava das histórias produzidas pelo italiano Marco Rota, meu autor Disney preferido, depois de Barks. Ele era excelente, desenhava prédios com uma técnica excepcional, cheia de detalhes. Se eu tivesse o mesmo talento dele, provavelmente desenharia diferente. Fazer detalhes é a parte mais difícil para mim, já que não tenho toda essa habilidade. Uma vez me disseram para eu contratar um assistente para fazer essas coisas, mas mal ganho o suficiente para mim, quanto mais para pagar um ajudante. Gostaria mesmo é de ter estudado, em vez de isso ter tido os quadrinhos apenas como um hobby. UHQ: Por falar em Europa, o senhor gosta dos quadrinhos europeus? Algum artista em especial? Don Rosa: Sim, gosto de quadrinhos europeus, mas é uma pena que não possa lê-los. Mas temos revistas em quadrinhos muito melhores nos Estados Unidos, de ficção científica, de aventura, históricos, de cowboys. De qualquer forma, adoraria ler as HQs européias e ver o que estou perdendo lá. E, como disse antes, Marco Rota é meu artista preferido.
Don Rosa: Os mangás estão crescendo há quase tanto tempo quanto estou sem ler revistas em quadrinhos. Estão ficando bastante populares e gostaria que me explicassem o segredo disso, porque eles parecem ser muito diferentes um do outro. Na verdade, nem tenho uma opinião formada. Preferiria, no entanto, falar de autores de desenhos animados japoneses, como Miasaki (nota do UHQ: Hauyo Miasaki, responsável por obras como Princess Mononoki, Spirited Away e Totoro). A companhia para a qual trabalho tem uma filial no Japão, e o maior problema que eles encontram é que os desenhos japoneses têm uma arte visual completamente diferente, que se desenvolveu apenas depois da II Guerra Mundial, talvez até pelo mesmo criador de Astroboy (nota do UHQ: Osamu Tezuka), que também concebeu todo o novo modelo do traço deles. Para os eles criarem os desenhos da Disney no Japão, procuram adaptar a realidade japonesa, sem alterar muito do original.
Don Rosa: Bom, primeiro não sei desenhar tão bem, mas talvez se pudesse... Na verdade, não faço HQs nesta mesma linha. Trabalho com HQs de aventura, mas sobre briga acho que não tenho jeito, não é nada inspirador. Quero dizer, uma boa história com uma boa briga, tudo bem, mas criar uma trama sobre brigas, não acho uma boa idéia. Por exemplo, em um filme onde há uma luta de esgrimas, tudo bem, porque funciona como uma propaganda do filme. Mas há filmes em que as cenas de luta adquirem vida própria e continuam sem parar. Acho isso enfadonho, porque toda a ação se resume àquelas tomadas. É assim que enxergo o novo conceito americano de lutas em filmes. Adoro super-heróis como Superman, Batman, Homem-Aranha, Flash... Tem muitas idéias do Superman nas minhas histórias do Tio Patinhas, pois cresci com isso. Mas acho que as pessoas gostam de como os super-heróis mudam a cada história, pois, apesar de não entender, é uma tendência que noto. UHQ: O senhor conhece o Superpato? O que acha desse super-herói Disney? Don Rosa: É um personagem italiano, eu o conheço, mas nunca vi história dele em inglês. Por isso, não sei muito sobre ele. O Superpato é bastante famoso na Itália e em algumas partes da Europa. Na verdade, isso até me incomoda, pois hoje em dia qualquer coisa está sendo transformada em super-heróis, e para mim, que sou um fã dos heróis das antigas... Não me entenda mal, amo super-heróis, mas os de hoje são completamente deturpados, se comparados com os de antigamente. Na Europa, não é tão mau, eles não distorcem tudo, mas odiaria se um dia o Superpato chegasse nos Estados Unidos. Os meus personagens favoritos, apesar de não serem super-heróis, são o Tio Patinhas, em primeiro lugar, e o Spirit. Além destes, gosto bastante das histórias de ficção científica dos anos 1950, que eram antologias, sem personagens específicos.
Don Rosa: Não sei que traço de personalidade é este que você está falando, mas a idéia que tenho feito nos últimos 40 anos é que ele é um desempregado, sempre curtindo a vida. Então, não posso dizer nada, já que não consigo ler. Mas o que me dizem é que ele é um vagabundo, um vagabundo adorável. Assim, não consigo formar uma opinião. Por isso, tive de criar uma versão própria do Zé Carioca que todos os americanos conhecem, o do desenho de 1945. Espero que, um dia, se os brasileiros souberem dessas histórias do papagaio, não me culpem. Quero que vejam, também, que ele é apenas diferente do que já conhecem, com certeza uma "pessoa" de boa índole. No entanto, espero que não se sintam ofendidos, pois não tenho fontes onde possa chegar e pedir cópias da história do Zé Carioca dos últimos 30 anos em inglês. Isso é impossível. UHQ: Muito se fala sobre uma crise mundial nos quadrinhos, com revistas de tiragens cada vez menores. Isso acontece também com a Disney? Don Rosa: Suponho que aconteceu tudo nos EUA há uns 40 anos, pois havia muitas crianças assistindo à televisão e lendo pouco, e também com o surgimento de tantos videogames, tanto na América do Sul como na Europa... Acho que tudo isso vem daí. Não sei muito sobre as vendagens de revistas em quadrinhos, não tenho acesso a esses dados. UHQ: O senhor conhece algum artista brasileiro? Don Rosa: Não conheço nenhum artista brasileiro, sei que é uma vergonha, mas não conheço nenhum...
Don Rosa: Quero fazer novas histórias, uma de cada vez, e rápido, para ser pago logo, porque demoro muito para produzi-las. Faço cerca de duas histórias por ano, em parte porque tenho de visitar pessoas bacanas ao redor do mundo e me divertir em lugares como o Brasil, agora. Eu parei de fazer uma aventura do Zé Carioca para vir até aqui. É uma história interessante. Como fiz uma dele no México, decidi que a próxima teria de acontecer aqui no Brasil. Assim, o Donald vai até o Rio e se encontra com o papagaio malandro e um amigo. Por isso, resolvi vir até aqui e pesquisar, pois só há duas coisas que os americanos sabem do Brasil: uma é a Selva Amazônica, e a outra é o Rio de Janeiro. Não quis ignorar o Rio, é uma cidade linda, visualmente falando, e o Pão de Açúcar é muito visível. No lugar de mandar os personagens para a Amazônia, os enviei ao Mato Grosso, que se assemelha mais com a África, e comecei a pesquisar sobre o local. Geralmente, não gosto das histórias que faço, mas senti um gostinho especial por esta, porque realmente me esforcei para criá-la. Quis tirar o Zé do seu ambiente, pois ele sempre sofre agressões dos outros personagens, como o Tio Patinhas, a Margarida, o Donald (Nota do UHQ: Isso não acontecia nas HQs produzidas no Brasil). Por isso, quis colocá-lo num lugar com duas pessoas iguais a ele, para que todos se igualem. UHQ: Obrigado por sua atenção, Sr. Don Rosa. Foi um prazer conhecê-lo. Don Rosa: Eu que agradeço pela calorosa recepção. E o prazer foi todo meu.
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