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E vieram os anos 90

Macumba MacabraA década começou apontando para um caminho de venturas. Afinal, muitos títulos surgiram, e outros continuavam sua marcha de longos anos. Mas a verdade é que nenhum conseguiu permanecer por muito tempo.

Logo em 1990, a Abril lançou Deadman: Amor após a Morte, de Mike Baron e Kelley Jones, uma minissérie em duas edições que contava a angustiante história do fantasma Desafiador (rebatizado com o nome original em inglês).

Nas livrarias, no mesmo ano, a L&PM lançou Macumba Macabra, de Ennio Missaglia (roteiro) e Magnus (arte), uma aventura de suspense entre espíritos malignos e legiões de zumbis.

Bradbury - O Papa-defuntosNo biênio 1990/91, a L&PM lançaria ainda Bradbury - O Papa-defuntos e Bradbury - O Pequeno Assassino, com histórias do escritor Ray Bradbury adaptados para os quadrinhos da EC Comics, por feras como Al Williamson, Joe Orlando, Jack Davis, Wally Wood e outros.

No ano de 1991, Hellraiser (baseada na série de cinema criada por Clive Barker), também pela Abril, foi uma luxuosa série trimestral em cores que desfilou excelentes histórias americanas de terror, verdadeiras obras-primas em texto e desenhos. Durou apenas quatro números. Pela mesma editora, saiu Clive Barker - Raça das Trevas, uma mini produzida por Alan Grant, John Wagner e Jim Baikie.

Sussurro SinistroMais ou menos nesse ínterim, Sussurro Sinistro apareceu pela Nova Sampa, apresentando histórias de artistas consagrados e de novos talentos. Também teve vida curta.

A minissérie de luxo Livros da Magia circulou logo depois. Nos mesmos moldes de Sandman, foi a primeira aposta da Editora Abril na linha Vertigo.

Dylan Dog foi trazido ao mercado tupiniquim pela Editora Record (foi cancelada na edição 11, retornou em 2001 pela Conrad e, em 2002, passou para a Mythos ). Era o primeiro contato do público brasileiro com o Investigador do Pesadelo, sucesso na Itália desde sua criação, no final dos anos 80.

Cripta do Terror #1No mesmo ano, a Record passou a publicar Cripta do Terror, apresentando material antigo da EC Comics, com seus característicos finais-surpresa. Ótima revista em tamanho magazine, com 96 páginas por edição. Mas não emplacou. Foram apenas sete números.

Em 1993, Mestres do Terror e Calafrio, da D-Arte, foram canceladas. A primeira, que estreou em 1982, e a segunda, de 1981, são recordistas em tempo de existência nesse gênero de publicação. E poderiam ter conseguido uma numeração de capa maior (chegaram às edições 62 e 52, respectivamente), não fosse a periodicidade irregular, que, em alguns momentos, as fez sair com diferença de meses entre um número e outro.

Pouco depois, um certo vampiro, o mais famoso de todos os tempos, reapareceu na Editora Escala, na minissérie Drácula x Zorro. As duas edições valeram apenas pelo retorno de dois bons personagens.

Vertigo #9, da AbrilEm 1994, Ota relançou Spektro, pela sua própria editora, a Otacomix. Contou-se nos dedos o número de edições publicadas. A já citada minissérie Hotel Nicanor, porém, fez valer o ano.

Pouco depois, em 1995, houve o lançamento da revista Vertigo, pela Abril. Apresentava histórias com temas adultos, a maioria de terror, capitaneadas por Hellblazer, o carro-chefe do título. Só chegou à edição 12.

Foi também nesse ano que a Ediouro publicou a Coleção Assombração, sob a direção de Ota, que também escrevia alguns roteiros. Com títulos como Cripta Maldita, Ritual Macabro, Casos Verídicos de Terror, entre outros, desfilava nomes como Colin, Shimamoto e Mozart Couto, além de novos artistas, como Fernando Miller e Ronaldo Devil.

Seleções de AssombraçãoTodas eram excelentes revistas que, entre republicações de clássicos (como os já citados Homem do Patuá e Hotel Nicanor) e histórias inéditas, produziam horripilantes pesadelos em preto-e-branco. Só duraram oito números, e logo após houve algumas encadernações compilando tudo o que havia saído - incluindo o almanaque especial -, sob o título Seleções de Assombração.

À Meia-Noite Levarei Sua Alma, da Nova Sampa, com textos de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, e desenhos de Laudo Ferreira Jr., foi lançado com um certo estardalhaço na mídia: a história era a quadrinização oficial do filme de 1964. O personagem voltou a aparecer mais duas vezes nos anos seguintes: uma na revista Heavy Metal brasileira (1996); outra, na Horror Show (1997), numa história de quatro páginas.

À Meia Noite Levarei sua AlmaEm 1996, a maior criação de Todd McFarlane chegou ao Brasil. Até hoje publicado pela Abril, Spawn arrebatou milhares de fãs com suas aventuras recheadas de pactos com demônios, fantasmas, mortos-vivos e outros horrores, mesmo que fossem apenas pano de fundo para as tradicionais batalhas entre super-herói e vilão.

A Maldição do Spawn, outro título da Cria do Inferno que chegou às bancas em 1999, era mais terror, propriamente dito, com histórias bastante macabras, nas quais os protagonistas eram personagens que na revista principal figuravam apenas como coadjuvantes. Infelizmente, durou apenas um ano.

Na esteira, a Best News lançou Araknis em uma minissérie, anunciando para breve um título mensal fixo, o que não aconteceu. Com uma origem muito parecida com a de Spawn (ou seria o contrário?), o anti-herói demoníaco não seguiu carreira no Brasil.

Spektro #15Outra contribuição para o gênero, nesse período, foi dada pela HQ - Revista do Quadrinho Brasileiro, da Editora Escala. No meio de histórias eróticas ou de super-heróis, sempre cabiam as de horror, como a saga produzida por Ronaldo Seliestre e Marcos Porto, relatando a epopéia do flagelo humano Gengis Khan no Inferno, algo do que de melhor se viu naquela publicação. Como já podia se esperar, o título não vingou. No mesmo barco entraram a versão brasileira da Heavy Metal e seu "clone", a Metal Pesado, respectivamente das editoras de mesmo nome.

Mais uma bela obra da linha Vertigo chegou por meio da Abril. Em 1997, a minissérie Santo dos Assassinos foi, seguramente, a melhor HQ daquele ano. Até então, poucas vezes se tinha visto um personagem que tanto fizesse jus à acepção máxima da palavra demônio.

Morte - O Grande Momento da Vida, marcou a incursão da Abril no universo de Sandman, apresentando uma bela minissérie escrita por Neil Gaiman e desenhada por Chris Bachalo e Mark Buckingham, protagonizada pela mais querida dos Perpétuos entre os leitores.

MephistoTambém em 1997 houve o inusitado crossover Mulher-Gato x Vampirella, pela Abril, marcando o breve retorno da vampira, depois de anos de ostracismo.

Esses crossovers entre personagens macabros e super-heróis eram recorrentes (o que não mudou muito, atualmente). Nessa época, apareceram os Aliens e o Predador, adaptados dos filmes de sucesso que misturavam terror e ficção científica. As horripilantes criaturas lutaram contra Batman, Tarzan, Superman e outros heróis.

Então, em 1996, veio a Editora Globo com uma enxurrada de publicações da Image. No bolo, a minissérie em oito partes Witchblade destacou-se com sua temática sobrenatural, mas bem ao gosto dos fãs de super-heróis. Dois anos se passaram, e a Abril adquiriu os direitos da personagem, fazendo-a dividir com outro ser das trevas a revista Darkness & Witchblade.

Casa do TerrorO ano de 1999 marcou o lançamento de Kiss - Psycho Circus, também da Abril. Foi uma minissérie em três edições com bem produzidas histórias de horror, ao estilo Sandman, nas quais os personagens (os integrantes da famosa banda, retratados como entidades místicas arcanas) apareciam apenas no fim para exercer os papéis de júri, juiz e carrasco. Nesse mesmo ano, a Mythos também publicou uma mini da Image que continha muitos elementos de terror. Tratava-se de Tenth.

Não foram, de todo, anos perdidos, é verdade. No entanto, com tantos cancelamentos e a diminuição das apostas no mercado, o início do fim começou.

De 2000 pra cá...

ChastityO ano 2000 já entrou com o cancelamento de A Maldição do Spawn. Em 2001, a estreante Editora Atlantis pôs no mercado alguns títulos da Chaos Comics, entre eles a já conhecida Lady Death e a novata Chastity, uma vampira que vivia na Londres dos anos 70 e curtia punk rock. Ambas as revistas chegaram apenas à quarta edição.

As coisas realmente andam definhando. É possível, sim, encontrar lançamentos do "estilo brasileiro de quadrinhos", só que muito esparsos, quase nada de títulos seriados, nem mesmo com periodicidade irregular. E o pior: muitas vezes edições especiais com tiragens limitadas e distribuição segmentada para comic shops ou livrarias.

No Reino do Terror, com textos de R. F. Lucchetti e desenhos de outros artistas consagrados; A Casa do Fim do Mundo, de Simon Revelstroke e Richard Corben; Paralelas, de Watson Portela, e Mirza, todos editados pela Opera Graphica, são apenas alguns exemplos da atual política sectária de publicar quadrinhos, que privou o grande público dessas obras-primas em quadrinhos.

No Reino do TerrorPelo menos a bela vampira teve todas as suas histórias relançadas num primoroso encadernado, distribuído nacionalmente, numa louvável iniciativa da Editora Escala.

Hellboy, de Mike Mignola, voltou a dar as caras pela Mythos em 2001, depois de ter estreado por aqui em março de 1998. Com a estréia do filme, prevista para 2004, é provável que o personagem ganhe mais algumas edições e o espaço que merece na preferência dos leitores.

No mesmo ano, em tempos de Linha Premium, a Brainstore retomou o formatinho, com uma heroína pouco conhecida do grande público brasileiro, Elisa Cameron, uma repórter que foi assassinada e, retornando como fantasma e sem nenhuma lembrança de seu passado, sai em busca de respostas e de vingança contra seus assassinos. Sua aparição por aqui se deu em Ghost x Batgirl.

MirzaHá dois anos, um dos melhores lançamentos deste início de século, Mágico Vento (Mythos), criado pelo italiano Gianfranco Manfredi, atingiu em cheio dois públicos distintos: os adeptos do bangue-bangue e os de terror. O carismático xamã branco se transformou, de uma hora para outra, em uma unanimidade entre os fãs dos fumetti da Bonelli Comics. E tudo leva a crer que a revista chegou para ficar.

Ainda em 2002, o livro Voivode: Estudos sobre os Vampiros, lançado pela Pandemonium Editora, trouxe vários artigos sobre o tema, além de um apanhado do assunto nas histórias em quadrinhos. Para completar, reapresentou a clássica HQ Como Se Faz uma História de Terror, produzida pela dupla R. F. Lucchetti e Nico Rosso em 1968, e publicada originalmente na revista A Cripta.

Esse mesmo ano registrou, entretanto, uma triste notícia: o falecimento de Flavio Colin. Uma perda das mais sentidas entre os admiradores de sua arte incomum.

Contos BizarrosOs autores da Napalm Comics, de Maceió, foram à terceira edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, em setembro do ano passado, para lançar a revista Napalm Zero, que conta apenas com trabalhos de artistas alagoanos. Das três histórias da revista, duas são de terror.

A grata surpresa de 2003 foi, sem dúvida, Contos Bizarros, da Editora Abril, um especial que conseguiu sucesso de crítica e que passou para os quadrinhos algumas assustadoras e reais histórias de serial killers, numa bem-cuidada edição colorida em formato americano. "Acho que Contos Bizarros é o caminho certo para os quadrinhos nacionais de terror voltarem", diz Antônio Rodrigues.

Hellraiser #3, da AbrilTambém nesse ano, a Brainstore relançou Hellraiser, em edição especial, com algumas histórias escritas pelo próprio Clive Barker. Da mesma editora, edições especiais com o personagem Lúcifer, da linha Vertigo, têm apresentado ótimas histórias. A Devir, por sua vez, mandou Vampi - Amor Sangrento às livrarias e gibiterias.

Somando isso aos títulos como Sandman, Vertigo, Hellblazer e Dylan Dog, que continuam circulando regularmente, percebe-se que são exatamente os materiais estrangeiros que estão mantendo o terror nas bancas brasileiras.

A Editora Noblet, de qualquer forma, resolveu arriscar na produção brasileira, no final do ano passado, e lançou Arrepio, que se propõe a ser mensal. "Sinto muito pelo Paulo Hamasaki, mas acho que Arrepio é uma HQ anacrônica. Os leitores de hoje não vão comprar algo assim" opina, Antônio Rodrigues.

ArrepioNavegando pela grande rede, também é possível chegar ao Inferno, uma série de superseres que utiliza as temáticas misticismo e terror. Criados pelo gaúcho Augusto Velazquez, os personagens e suas biografias estão no site do autor, mas ainda não encontraram uma editora que transponha para o papel suas aventuras demoníacas.

Há de se registrar que a internet tem dado sua parcela de contribuição para o gênero. O site da Nona Arte oferece centenas de revistas on-line, muitas permitindo download, e várias com o tema terror. Todas produzidas por artistas brasileiros, diga-se de passagem.

A melhor notícia, entretanto, veio da UCM Comics, mais um site que, apostando nesse segmento e nos artistas nacionais, lançou há pouco a revista on-line Kripta. Pelos comentários dos visitantes, a coisa parece que vai longe.

O Duelo, de Antônio RodriguesIsso tudo pode parecer muito para uma década que mal começou. Mas é pouco, se comparado ao mesmo período de outros tempos, quando a oferta de títulos era bem maior, e todos os leitores tinham a mesma oportunidade de ver sua revista preferida nas bancas, independente da região em que morassem.

E quanto a Antônio Rodrigues? Há planos para um retorno? "No ano passado, na ocasião do lançamento daquela edição especial dos 20 anos da Calafrio, me encontrei com o Shimamoto e fiquei pensando em escrever uma história para ele ilustrar. Só que até agora não tive tempo, embora tenha parte dela em plot. Não se trata de uma história de terror, mas de aventura, com muitas artes marciais, coisa que o Shima desenha muitíssimo bem. Ou seja, vontade não falta. Quem sabe, em 2004...".

Que esse mestre do terror cumpra sua promessa. Ou, à meia-noite, os fãs levarão sua alma.

Marcus Ramone garante que teve que dormir com a luz do quarto acesa, depois de escrever esta matéria

 

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