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Esses adoráveis idiotas...

As HQs são ricas em personagens nada inteligentes, e que, por isso mesmo, conquistam cada vez mais leitores

Por Marcus Ramone (06/05/2004)

Yellow KidOs intelectuais que perdoem a afirmação, mas idiotice é fundamental. Pelo menos nas histórias em quadrinhos. Afinal de contas, personagens com alguns neurônios a menos sempre estiveram presentes nas HQs, e continuam figurando na lista de preferência dos fãs de todas as gerações. E isso já vem de muito tempo. Por isso, acomode-se bem na cadeira, porque esta é uma lista beeeem extensa!

Yellow Kid (O Menino Amarelo), surgido em 1895, por obra de Richard Felton Outcault e oficializado como o pioneiro das HQs da História, também pode se considerar o néscio original da nona arte. Com aquele rosto à la Alfred E. Newman (o debilóide mascote da revista Mad, um dos imbecis mais queridos pelos leitores no mundo), esta ingênua figura ainda se vestia como um fugitivo de hospício.

Mutt e JeffEm 1915, Mutt e Jeff estrearam seu título próprio nas tiras de jornais. Jeff era um abobalhado que entendia tudo ao pé da letra e tinha as mais estapafúrdias idéias para resolver pequenos problemas.

Reco-Reco, Bolão e AzeitonaNo início da década de 1930, o Brasil deu sua primeira contribuição, quando Luiz Sá criou o trio Reco-Reco, Bolão e Azeitona, garotos tão traquinas quanto idiotas, que gozaram de muito sucesso na época.

Pouco depois, em1932, apareceu nos Estados Unidos o garoto mudo Pinduca, de Carl Anderson.

Seja nas HQs infantis ou adultas, de super-heróis ou de terror, esses personagens divertem espalhando humor, raiva, medo e muitas outras sensações. De uma forma ou de outra, eles são os adoráveis bobocas dos gibis.

Pinduca

As eminências parvas

Homer SimpsonNão há como negar que certos nomes entraram para o panteão das "antas" dos quadrinhos. Reconhecidos, inclusive, pelos menos afeitos à arte seqüencial, alguns são usados até mesmo como adjetivos pouco elogiosos contra seus pares do mundo real.

Quem está na "crista da onda" quando se fala em idiotas é o insuperável Homer Simpson. Ele é tudo que não se espera ver num pai, marido e vizinho, mas é o que todos querem encontrar num personagem de desenhos animados e quadrinhos humorísticos.

Preguiçoso, inútil, lento de raciocínio, ignorante, mal-educado e isento de qualquer traço que lembre vagamente a inteligência, Homer é atração garantida tanto na TV quanto nos gibis.

Groo - A Ira de Pipil KhanTais características também se encaixam em Groo, o errante. Eliminando o fato de que não é nem um pouco preguiçoso (não perde uma peleja por nada neste mundo), ele é composto pelos piores atributos que se possa encontrar numa criatura tão... coió. Nunca sabe se está do lado certo de uma guerra, não se lembra se está zangado com algum inimigo desde o último encontro, e ainda possui outras particularidades nada admiráveis.

PatetaPateta, o inseparável amigo do camundongo Mickey, traduz em seu próprio nome o fardo que carrega. Nada dá certo para ele. Não consegue realizar a mais simples tarefa (em casa ou nas raras ocasiões em que arranja um emprego) sem causar confusões, machucar-se ou estragar o dia de alguém.

PeninhaOutro ícone desse quesito, também morador de Patópolis, o desastrado, incapaz e pueril Peninha continua sendo um sucesso no Brasil. Mesmo sem histórias inéditas produzidas por aqui (o único país onde o personagem foi elevado à categoria de "peso-pesado" dos quadrinhos Disney), ele ainda é um dos mais queridos dos leitores, e vem sendo apresentado aos mais novos por meio de ocasionais republicações em revistas como Disney Especial e Pato Donald.

Pena das SelvasInesquecíveis também são os impagáveis Pena Kid, Pena das Arábias, Pena das Selvas e Pena das Cavernas, versões alternativas do Peninha concebidas pelos estúdios Disney da Editora Abril. Não é preciso dizer que superaram o original em idiotices.

Pena KidFagundes, o maior puxa-saco dos quadrinhos, é um inútil que não tem opiniões próprias ou idéias definidas. A cria do cartunista Laerte ganhou uma versão em carne-e-osso para o programa humorístico TV Pirata, da Rede Globo, no final da década de 1980.

Fazendo o caminho inverso, em 1989, o apresentador de televisão Sérgio Mallandro ganhou um gibi com seu nome. Como um personagem acriançado, era um dos mais imbecis da época (em todos os sentidos).Bobrinha

Criados pelo jornalista Dario Carvalho Jr., os toscos Bobrinha e Chica são alguns dos protagonistas das tiras Só Dando Gizada, que foram publicadas no jornal Correio Popular (da cidade de Campinas, São Paulo). Os dois são ingênuos garotos que satirizam as corriqueiras situações das escolas numa sala de aula.

Superimbecis

Morcego VermelhoCom grandes poderes, vêm grandes confusões. Eles se aventuram vestindo uniformes coloridos e saem por aí combatendo (ou melhor, tentando combater) o crime, transformando seus nomes em motivo de piada.

Imagine um "herói" cuja identidade secreta é o Peninha. Morcego Vermelho é o hilário alter ego desse pato atrapalhado, e até que encontra seus momentos de glória, quando captura um vilão ao tropeçar e cair sobre ele. Mas a verdade é que o pretenso paladino é tão parvo que só continua na carreira por conta do altruísmo do Coronel Cintra, que ainda o deixa bancar o apoio da polícia.

SuperpatetaO personagem é uma das criações brasileiras para a Disney que obteve mais sucesso, e chegou a protagonizar alguns almanaques próprios pela Editora Abril.

O Superpateta até que detém um alto índice de popularidade entre os patopolenses e recebe a gratidão dos policiais por sua bem-vinda ajuda. Porém, isso não o impede de, acidentalmente, destruir metade da cidade, ser enganado pelos vilões com uma freqüência gritante, e esquecer de renovar seu estoque de superamendoins debaixo do chapéu (o que sempre o deixa vulnerável no meio de uma batalha, quando o efeito passa e o herói volta a ser o simples Pateta). Também ganhou várias edições de um almanaque no Brasil.Morcego Verde

O Rio de Janeiro também tem seu super-herói "nada esperrrrto". O Morcego Verde é o defensor da Vila Xurupita. Ou, pelo menos, pensa ser. Apesar de, em sua identidade secreta de Zé Carioca, o papagaio não ser nada idiota, o manto do heroísmo realmente não lhe dá a mesma condição. Suas trapalhadas e tolices, porém, fazem a alegria dos fãs do mais brasileiro dos personagens Disney.

OvermanFalando em heróis nacionais, tudo leva a crer que não estamos muito bem representados. Overman, por exemplo, não fica atrás como símbolo da mediocridade. Está bem, como burrice não mudou de nome ainda, vale pegar mais pesado: o morador mais ilustre de uma pensão qualquer no Ipiranga, em São Paulo, é o mais completo idiota da categoria.

Graças aos céus, pois a criação de Laerte rendeu uma das mais gratas publicações tupiniquins de 2003, a compilação de tiras Overman - O álbum, o mito, lançado pela Devir.

Na extinta revista Os Trapalhões, publicada de 1974 a 1988 pela também falecida Bloch Editores, eram comuns as sátiras a famosos super-heróis americanos. Eles viviam no Brasil, tinham nomes divertidos (Nêga Maravilha, Frangasma e outros) e foram os maiores palermas que já haviam vestido aqueles célebres uniformes. Até a SWAT, polícia de elite norte-americana, que nos anos 70 foi tema de um seriado televisivo, era alvo das chacotas de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias quando eles encarnavam a Trapasuat.Os Trapalhões

Simplórios eram os componentes da Liga da Honra, que apareceram na edição especial A Pro, trazida ao Brasil pela Devir em 2003. Produzida por Garth Ennis, Amanda Conner e Jimmy Palmiotti, a história mostrou uma descarada "releitura" da Liga da Justiça, com membros tão bobocas que causavam ânsia de vômito em sua nova integrante, a prostituta sem nome que protagonizou a revista.

Na sexta edição de Hitman (Brainstore, 2003), outra dessas inacreditáveis equipes surgiu. Para ajudar seu amigo Tommy Monaghan contra uma horda de demônios, o bebum e arremedo de herói Sixpack reuniu alguns paspalhões com poderes risíveis, como Jean de Baton-Baton (que derrotava os inimigos dançando balé e gritando seu nome incessantemente) e Catarro (cuja arma eram potentes escarradas). Sem dúvida, os Defensores da Justiça fizeram daquele um dos arcos de histórias mais divertidos da revista.

Capitão CavernaAinda se pode citar os heróis bobocas dos desenhos animados e quadrinhos de Hanna-Barbera, como o troglodita Capitão Caverna (que acompanhava as Panterinhas em investigações policiais) e o bocó Hong Kong Fu (lutador de artes marciais que só vencia os inimigos com a ajuda de seu gato, China). Os personagens compunham as páginas dos gibis HB que a RGE e a Editora Abril publicaram nos anos 70 e 80.

Até mesmo os personagens mais astutos, que estejam longe de figurar entre os paspalhos dos quadrinhos, estão sujeitos a momentos de imbecilidade. Isso aconteceu com Peter Parker na saga Crise de Identidade.

Hong Kong FuIncapaz de usar o uniforme de Homem-Aranha, Parker colocou um saco de papelão na cabeça e se tornou o... Homem-Vergonha! As conhecidas piadinhas infames, aliadas ao vestuário ridículo, levaram o escalador de paredes a situações das mais cômicas. A aventura foi publicada em A Teia do Aranha # 121 (Editora Abril, 1999).

O cabeça-de-teia também foi alvo de uma sátira escrita e desenhada pelo espanhol Enrique Vegas. Es-Piderman é uma revisão caricata e desmiolada do aracnídeo, que foi publicada na Espanha no gibi Colección Satélite # 3 (Dude Comics, 2002) e continua inédita no Brasil.

Dois heróis baixinhos e forçudos entram nessa galeria de patetas. Um é Grunge, da equipe Gen13, cuja característica marcante, além de seu intelecto pouco desenvolvido, é o fato de namorar uma das mais belas garotas do grupo.

O outro é Aríete, um dos integrantes dos Mestres do Universo, aliados de He-Man nas batalhas contra o maléfico Esqueleto. O personagem, literalmente, usa a cabeça para combater os inimigos. Não é de se espantar que, levando tanta pancada no cocuruto, seja assim tão idiota.

ChicoDessa turma do Planeta Etérnia ainda faz parte o mago Gorpo, um trapalhão que não acerta nenhum feitiço e ainda põe em risco as missões de que participa.

Embora não prime pela coragem ou possua superpoderes, o gorducho Chico, parceiro de aventuras de Zagor, merece constar da lista dos heróis das HQs, mesmo que no âmbito dos bobocas. Apesar de escravo do próprio estômago e esbanjando um físico que não assusta nem uma mosca, o rotundo mexicano está ao lado do Espírito da Machadinha em todas as ocasiões, e já salvou sua vida por diversas vezes, enfrentando perigos que normalmente lhe fariam fugir em disparada.

Muito querido pelos leitores da Bonelli Comics em todo o mundo, Chico há anos é título de uma HQ na Itália. Algumas dessas edições foram aqui publicadas pela Record, nos anos 90. Outras estão prestes a aportar, ainda em 2004, sob a chancela da Mythos Editora. Nada mal para um digno representante da classe dos idiotas.

Uma das mais divertidas séries de super-heróis miolos-moles é Super-Zeros, em que dois irmãos faxineiros beberam isótopos radiativos contidos numa garrafa e se transformaram em Manly Man (com um grande coração e um cérebro minúsculo) e Bluebird (o cínico e mais velho da dupla).

Totalmente submissos à mãe, eles têm o horário do almoço e o uso do carro regulados pela velha, e nunca saem para uma missão antes das refeições. As tiras dos personagens (criados pelo norte-americano Mike Luckovich) foram lançadas no Brasil pela Editora Opera Graphica, na revista Calvin & Cia. # 1, em 2001. Aqui, tiveram seus nomes traduzidos para, respectivamente, Varonil Man e Mosca Azul.

O garoto Fox, líder dos Combo Rangers (criação do brasileiro Fábio Yabu), merece estar aqui como um alerta contra o desprezo pelos estudos. Avesso a isso, ele demonstra ser um pouquinho burro, contrastando com Lisa e Kenji, seus estudiosos e inteligentes colegas de equipe.

Há de se fazer uma menção honrosa a um super-herói que teve sua única aparição num conto publicado na antiga revista Casseta Popular # 27 (Toviassu, 1990), do grupo de comediantes Casseta & Planeta.

Com ilustrações de Walter Vasconcelos, a história contava a origem do Falha Humana, um energúmeno que podia ler pensamentos... o dele, não os das outras pessoas. Além disso, tinha o dom da invisibilidade; porém, somente ele não podia se ver, enquanto qualquer um conseguia enxergá-lo perfeitamente. Enfim, um típico idiota.

Fagundes

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