| |
Caminho da roça
Pouco alfabetizados, eles não têm culpa de serem tão burros. Trabalhadores do campo, sua visão do mundo é bastante limitada, daí a subutilização da "massa cinzenta".
Zé Buscapé, porém, nem trabalha e quase não vê a roça, quanto mais o mundo afora. Só dorme e balbucia algo que lembra vagamente palavras. É impossível algum neurônio morar em seu cérebro (partindo do princípio que ele tenha um). Surgiu em desenhos animados e foi para os quadrinhos na década de 1960, participando de publicações da linha Hanna Barbera da RGE e Editora Abril nos anos seguintes.
Ferdinando (criado por Al Capp em 1934), por outro lado, é apenas um ingênuo. Um roceiro grandalhão, de gestos rústicos e pensamentos mais ainda. O sucesso no Brasil terminou com o fim do gibi que circulou nos anos 60 e 70, pela RGE.
Também concebido em 1934, o casal riponga Snuffy Smith e Lowizie, obra de Billy DeBeck, estreou nas tiras de Barney Google, com uma ambientação urbana que migrou para o campo graças ao sucesso que os dois fazendeiros alcançaram, passando a dar nome à série.
Como os cartuns Disney estão em todas, Urtigão é o representante dos roceiros. Só não é mais simplório que seu cachorro, que nem mesmo possui nome. Tem como inimigos os patos Peninha e Donald, para os quais não dispensa uma boa dose de chumbo de seu trabuco. Pela Editora Abril, teve uma revista própria lançada em 1987 e que durou até 1994.
Também dos quadrinhos Disney, os ingênuos cães Napoleão e Lafaiete são os bichos-do-mato da série Aristogatas. Depois de muitos anos sumidos dos gibis, voltaram a aparecer em Disney Especial # 14 - Os Curiosos (Editora Abril, 2004), numa engraçada aventura em que vão à cidade e se deparam com os assustadores frutos do progresso.
O Brasil também possui seus broncos. Embora Chico Bento não seja um primor de inteligência, Zé Lelé, seu primo, ganha o troféu de "toupeira oligofrênica". Suas asneiras conseguem surpreender pelo absurdo.
Seu Neném, fiel escudeiro do Compadre Tinoco, vive a ajudá-lo a bolar formas "artísticas" de caçar a onça Galileu, da Turma do Pererê (obra de Ziraldo). Não é sempre que entende de cara as idéias do outro, mas divide com ele o sonho de capturar o arisco felino.
Os detetives
Nem só nos livros e no cinema existem investigadores bobocas.
Ed Mort, de Luís Fernando Veríssimo, surgiu nas crônicas do autor. Depois, o quadrinhista Miguel Paiva concebeu visualmente o personagem, que passou para as tiras de jornais e ganhou álbuns pela L&PM. Um loser de primeira, ele divide seu quarto com um rato albino e mais uma centena de baratas. Precisa dizer mais?
Auto-intitulado "o melhor detetive de Londres", Sir Lock Holmes diverte pela empáfia. Toca horrivelmente seu violino (mas se considera um exímio musicista) e se apropria das idéias de Mickey - seu parceiro de aventuras - por ser incapaz de bolar as suas. Apesar de tudo, sempre frustra as ações criminosas do Professor Nefárius e sua gangue.
Por sua vez, 00-Zero tem suas próprias idéias, mas todas ridículas. Não
dá uma dentro, e somente graças a sua parceira, Pata Hari, e ao cãozinho
Lobo, consegue escapar das enrascadas que se mete na luta contra a Bronka.
O Inspetor Vivaldo, presente nas páginas da saudosa revista A Pantera Cor-de-Rosa (e em um meteórico título próprio) nos anos 70 e 80, resolvia os casos mais escabrosos, não sem antes pagar micos, sofrer acidentes e fazer deduções erradas. A narrativa das histórias, em primeira pessoa, era uma atração à parte: o detetive lançava mão de eufemismos para descrever as cenas em que se dava mal.
Mortadelo, parceiro de Salaminho como agente secreto da T.I.A., pode se transformar em tudo que desejar. É ingênuo, atrapalhado, e às vezes suas ações desastrosas acabam sobrando para o amigo, que leva a culpa por ele. Tem esse nome por se parecer (tanto física quanto mentalmente) com uma mortadela.
Pimba, da Disney, e o gato Olho-Vivo (que faz dupla com o rato Faro-Fino), da Hanna-Barbera, fecham a lista.
Sujos e escatológicos
Esse estilo de idiotas é farto nas HQs nacionais. Muitos deles, os mais famosos, surgiram nos prolíficos anos 80.
Geraldão (criado por Glauco), que voltou a ser publicado, desta vez pela Editoractiva, é um drogado e onanista submisso à mãe; Bob Cuspe (de Angeli), um punk rejeitado pela sociedade, fala pouco e cospe demais na cara dos que não lhe convêm; Ramonão (concebido por este escriba), um gorducho que só pensa em sexo, palavrões e rock´n´roll, estreou de fato (somente em duas tiras) em 1996, no jornal Tribuna de Alagoas, e voltou a aparecer seis anos depois em dois fanzines.
Tem ainda Frauzio, de Marcatti, cujas histórias mostram a escatologia levada ao seu mais alto extremo. O personagem usa menos o cérebro do que outras partes do corpo.
Quanto a Grump, ele é um ser estúpido que apareceu há pouco tempo na extinta série Graphic Talents, da Editora Escala. Nascida por obra do competente Orlandeli, a ingenuidade dessa criatura só é superada por sua mente suja.
Os Skrotinhos, grande criação de Angeli, ainda são os reis. Tarados, poluídos mentalmente, desbocados e com uma compulsiva necessidade de sacanear o próximo, esses gêmeos fazem e falam as mais engraçadas besteiras.
Mas Los Três Amigos, cujos integrantes são as versões caricaturadas de seus criadores (Angeli, Glauco e Laerte), também se sobressaem. Em suas viagens em busca de sexo e outras diversões mundanas, encontram as mais diferentes formas de se dar mal. Nada espertos, deixam seus órgãos genitais falarem mais alto.
Em meados dos anos 90, o desenho animado Beavis & Butthead chegou a ser proibido de ser veiculado na MTV brasileira. Tudo contornado, a dupla migrou para os quadrinhos, apresentando seu humor recheado de palavrões, arrotos, flatos e muita imbecilidade.
Gimbrinhas, do português Dr. Panzerfaust, é um caso interessante de mudança de conduta. Surgiu nos anos 80 em livros escolares, sumiu e retornou recentemente com histórias animadas para o site O Mangalho Anti-Stress. Agora, é um personagem beberrão e estúpido.
O descontentamento com a vida fez com que Cara-de-Cu (criação de Garth Ennis e Steve Dillon para a revista Preacher) tentasse o suicídio, atirando no queixo com uma espingarda. Mas até a morte resolveu brincar com aquele idiota e não o levou embora. Deixou-o vivo, porém com o rosto parecendo um... bem, o nome do personagem já diz tudo. É verdade que o você-sabe-quem fala muitas palavras de baixo calão, mas é difícil entender os sons que saem de sua boca enrugada.
Em 2001, no gibi Canalha # 2 (Brainstore), o público brasileiro conheceu a série Perseguindo traseiros, dos europeus Sanchez Abuli e Darko Perovic. Tratava-se de um humor negro envolvendo um deficiente que se locomove numa cadeira de rodas empurrada por um cego. Aquele que enxergava descrevia para o outro, os dotes naturais das mulheres que perseguiam, correndo tresloucados pelas ruas da cidade.
Nos mangás
Os quadrinhos japoneses, em sua diversidade também repleta de heróis, vilões, garotas sensuais e criaturas esquisitas, não poderiam deixar de produzir alguns divertidos idiotas.
Só para citar alguns: lançados pela Conrad merecem destaque Goku, que quando garoto em Dragon Ball (Conrad) era tão inocente que chegava às raias da idiotice; e Ruffy, o protagonista de One Piece, outro que não prima nem um pouco pela inteligência. Seu negócio é dar pancada e se empanturrar de comida. Tem como concorrente nesse quesito Usopp, seu parceiro de aventuras.
Já na JBC, o que dizer, então, do atrapalhado Eitarô, personagem principal do mangá erótico e quase pornô Love Junkies? Até perder a virgindade, era um completo abestalhado; e o quadro não mudou muito após a primeira vez. E em Shaman King esse papel de atrapalhado cabe ao baixinho Manta Oyamada, que sempre rende boas risadas quando encontra os espíritos que rodeiam seu amigo Yoh.
No entanto, o grandíssimo campeão é o maluco Dr. Sembe, um inventor tão genial quanto idiota (especialmente quando se trata de conquistar mulheres) que, ao lado da andróide Arale, é responsável pelo hilário mangá Dr. Slump, que a Conrad "suspendeu" há quase um ano e continua sem dar qualquer informação.
Mulheres
Elas não poderiam ficar de fora deste rol. Nos quadrinhos as mulheres também se igualam aos homens em idiotices.
 |
Luke e Tantra, duas das mais recentes criações de Angeli, são adolescentes com cérebro de... adolescentes. Interagindo com punks, lésbicas, drogados e bebuns, o universo das garotas é recheado de muitas sacadas divertidas. Bares e lanchonetes são seu mundinho, gírias são o vocabulário recorrente, e os maiores desejos das meninas são perder a virgindade e virar estrelas do rock.
Aninha, melhor amiga da Luluzinha, é o ponto fraco da dupla, por onde os meninos conseguem atingi-la. Facilmente engabelada, a garotinha sofre nas mãos do irmão Carequinha, que lhe faz promessas falsas de adesão ao Clube dos Meninos, em troca de algumas vantagens como um sorvete ou pedaço de bolo.
Olívia Palito é outra que cai fácil na conversa dos outros, principalmente de Brutus. Não importa quantas vezes seja surpreendida por alguma má intenção do bandido, sempre se deixa levar por sua lábia. Depois, basta sair gritando pelo Popeye e esperar a salvação.
Com poucas aparições, mas o bastante para revelar sua personalidade idiota, Ursolina, namorada do Zé Grandão, une-se ao seu amor nas frustradas tentativas de captura ao coelho Quincas, passando por maus bocados e deixando-se fazer de trouxas. Os dois formam um lindo casal de "asnos".
A cor dos cabelos é coincidência, mas a loura Smurfete é burra ao extremo. Entretanto, é a alegria da vila dos Smurfs (Schtroumpfs, no original francês), por ser a única fêmea entre centenas de duendes machos. A estréia dos personagens por aqui se deu em 1974, pela Vecchi, no título Os Duendes Strunfs. Foram algumas edições em formatinho e depois três álbuns, nos mesmos moldes dos de Asterix. No final de 1982, já como Os Smurfs, ganharam um gibi pela Abril.
Reunião de idiotas
Quando sós, em alguns casos, eles até parecem sujeitos normais. Contudo, basta se reunirem para formarem um grupo de imbecis.
A Bronka (criada pelo Estúdio Disney da Editora Abril), organização criminosa internacional repleta de descerebrados, é um desses, e só não foi desfacelada até agora porque seu inimigo é outro bocó, o agente 00-Zero.
A Anacozeca (Associação Nacional dos Cobradores do Zé Carioca) é um dos expoentes dessas entidades. Foram anos de planos fracassados, humilhações e reputação jogada na lama. No fim, a associação se dissolveu sem que o papagaio malandro pagasse um centavo sequer, e os integrantes do grupo deixaram para os leitores a saudosa lembrança de "micos" homéricos.
O caloteiro ainda se juntou ao amigo Nestor e formou a Agência de Detetives Moleza, cuja sede é um balcão no meio da rua. Até nas raras ocasiões em que conseguiam solucionar algum caso, os investigadores não viam a cor do dinheiro, e sim os punhos do contratante, quando, na última hora, faziam alguma bobagem para estragar tudo.
Quartel Swampy, a fortificação do exército americano que é desdenhada pelo Pentágono, possivelmente é o lugar nas HQs onde há mais idiotas agrupados. Do cozinheiro Cuca ao ativista Tenente Mironga, passando pelo Sargento Tainha e chegando ao General Dureza, não existe ali nenhum soldado ou oficial capaz de seguir a ordem e a disciplina ou ter idéias coerentes, quanto mais de garantir a soberania nacional dos Estados Unidos.
No ano passado, a Agência X foi montada pelo mercenário Alex Rayden, o Agente X, que deu nome à minissérie lançada pela Panini Comics em 2003. As piadinhas infames, o jeito infantil do personagem e seus costumeiros desentendimentos com os outros integrantes da equipe (principalmente o Treinador) davam comicidade às tramas violentas das histórias.
Ainda há diversos nomes a citar nesta gama incrível de personagens abestalhados das HQs, como os que compõem os universos de Kid Farofa, Umpa-pá, Iznogud, Mago de Id, Dick Tracy, Brucutu e tantos outros.
Certamente, muitos ainda serão criados. Afinal, via de regra, o tema é garantia de excelentes histórias. Só os idiotas não vêem isso.
Marcus Ramone às vezes perde o raciocínio, fala besteira e ri como um paspalho, mas jura que é só quando vê uma mulher bonita.
|
|